por Taciana Oliveira |
Em um sonho lúcido, poeta paulistana reúne textos escritos entre 2021 e 2025 e estabelece diálogos com Alejandra Pizarnik, espaços liminares, artes visuais e experiências de despersonalização
Em um sonho lúcido, poeta paulistana reúne textos escritos entre 2021 e 2025 e estabelece diálogos com Alejandra Pizarnik, espaços liminares, artes visuais e experiências de despersonalização
Entre campos labirínticos, salas desconhecidas, oceanos e espaços dos quais parece não haver saída, a poeta, escritora e pesquisadora Laura Redfern Navarro investiga os limites entre sonho, memória, corpo e consciência em um sonho lúcido. Publicada pela editora orlando, a plaquete poética será lançada no dia 12 de setembro, durante a Bienal do Livro de São Paulo, com sessão de autógrafos às 12h, no espaço da editora, no estande Escreva, Garota!.
A obra reúne poemas escritos entre 2021 e o início de 2025, período no qual a autora vivenciou experiências relacionadas à despersonalização, ao delírio, à sedação, ao sonho e à paixão. Ao contrário de seguir uma narrativa linear, o livro se organiza a partir de fragmentos, imagens, sensações e lembranças, criando uma atmosfera em que o familiar frequentemente adquire contornos de estranhamento. Dividida em três blocos principais, a publicação acompanha uma consciência que gradualmente recupera sua ligação com o corpo. A busca pela lucidez ocorre, portanto, dentro de um território marcado pela instabilidade da percepção e pela dissolução das fronteiras entre realidade, memória e sonho.
A origem do livro também está relacionada à trajetória acadêmica de Laura. Sua pesquisa de mestrado em Literatura e Crítica Literária se dedica às intersecções entre a poética da argentina Alejandra Pizarnik e a estética digital dos chamados espaços liminares. Um problema de saúde, entretanto, levou a autora a se afastar temporariamente da pesquisa e a procurar na criação poética outra maneira de permanecer ligada às questões que vinha investigando.
“Ter me afastado da pesquisa de Mestrado me fez pensar em outros gestos para não me esquecer do projeto principal. Além disso, queria registrar e compreender os processos psíquicos e intelectuais que eu estava vivenciando”, explica.
Alejandra Pizarnik ocupa uma posição importante entre as referências literárias de um sonho lúcido, ao lado da poeta brasileira Orides Fontela e de diferentes vozes femininas da poesia atual. O repertório de Laura, porém, vai além da literatura. As estéticas digitais Liminal Spaces e Frutiger Aero, a atmosfera onírica do cinema de David Lynch, a pintura de Gustav Klimt e o próprio funcionamento fisiológico do sono participam do universo visual e sensorial da publicação. Cores como lilás e amarelo, o oceano e imagens de dias nublados atravessados pelo sol reaparecem ao longo dos poemas. Esse conjunto de referências ajuda a formar aquilo que o livro apresenta como uma espécie de texto-caleidoscópio. Imagens se sucedem e se transformam enquanto a consciência procura compreender o que acontece consigo mesma. O sonho, nesse sentido, não surge apenas como assunto, mas influencia a própria organização da escrita.
O corpo como território de retomada
A relação entre corpo e consciência também conduz a obra a questões de gênero. O feminismo aparece associado ao direito ao próprio corpo e à tentativa de romper processos de despersonalização. Já o diálogo com a luta antimanicomial surge na abordagem das experiências de dissociação e dissolução do eu sem transformá-las em imagens idealizadas do sofrimento. Diagnosticada com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), Laura parte de sua própria experiência para refletir sobre criação literária e dissidência psíquica. A relação encontra um ponto de contato com sua pesquisa sobre Pizarnik, cuja produção é igualmente abordada pela autora a partir de questões relacionadas à saúde mental. Em um sonho lúcido, entretanto, essas experiências não aparecem isoladas da elaboração estética. São convertidas em linguagem por meio de espaços, cores, sons, símbolos e fragmentos de memória. Ao longo dos três blocos, a tentativa de recuperar a ligação entre consciência e corpo oferece um fio para uma escrita interessada justamente naquilo que acontece quando a percepção de si e do mundo deixa de parecer estável.
Um sonho lúcido será lançado em 12 de setembro, às 12h, na Bienal do Livro de São Paulo, no espaço da editora orlando, localizado no estande Escreva, Garota!.fio
Para conhecer melhor o processo de criação da obra, as relações entre poesia e dissociação e as referências que deram origem a esse universo onírico, a Mirada Janela Cultural conversou com Laura Redfern Navarro. A seguir, confira a entrevista com a autora de um sonho lúcido.
1 Você conta que Um sonho lúcido nasceu durante um período de afastamento da pesquisa de mestrado. De que maneira a escrita dos poemas se tornou uma forma de manter o vínculo com as questões que você investigava academicamente e, ao mesmo tempo, registrar uma experiência pessoal?
O afastamento da pesquisa ocorreu bem no início do Mestrado, no primeiro semestre. Esse distanciamento me causava uma certa ansiedade, pois é nesse momento que assentamos o projeto e definimos (ou tentamos definir) quais caminhos gostaríamos de seguir. A escrita dos poemas me guiou um pouco nisso, sendo uma tentativa de manter o pé no chão e extrair o máximo de ideias que eu tinha naquele período, que, curiosamente, tratavam de temas muito presentes no momento pessoal da minha vida, de crise. Esse processo foi bom porque, posteriormente, quando retornei à pós-graduação, tive mais facilidade para organizar o meu pensamento.
2. A plaquete reúne poemas escritos entre 2021 e 2025 e está organizada em três blocos, acompanhando uma consciência que gradualmente se reconecta com o corpo. Como você trabalhou textos produzidos em momentos tão distintos para criar essa unidade dentro do livro?
Apesar do tempo ter passado, as minhas referências e temas centrais não mudaram. O meu primeiro contato com os Liminal Spaces – e com a Alejandra Pizarnik — foi justamente em 2021, em um momento em que eu estava começando a definir o meu estilo de escrita. Eu consigo tatear semelhanças e aproximações desde aquela época, encontrando poemas que dialogavam muito entre si apesar de terem sido escritos em períodos muito diferentes. Um exemplo é que busquei trabalhar, como tema principal de "Um sonho lúcido", o processo dissociativo (em que você sente que se desconecta do seu próprio corpo), algo que está presente na minha escrita. A construção da plaquete consistiu em selecionar poemas que faziam sentido para o momento que eu vivia (a crise e o afastamento do Mestrado) e criar uma narrativa para eles, com começo, meio e fim.
3. Alejandra Pizarnik ocupa um lugar importante tanto em sua pesquisa acadêmica quanto entre as referências de Um sonho lúcido. O que mais lhe interessa na obra da poeta argentina e de que maneira esse diálogo aparece na sua própria escrita?
Acho muito interessante a forma como ela trata do “eu”. Em sua poesia, há sempre uma duplicidade, uma identidade que, ao mesmo tempo, é alteridade. Pizarnik, em sua escrita, traz um sujeito complexo e fragmentado, muito marcado por elementos como o espelho e o vazio. Existe uma identificação minha com essa poética, porque eu também trabalho esse movimento do ser e não ser simultâneos.
4. O livro traz referências que vão dos Liminal Spaces e do Frutiger Aero ao cinema de David Lynch e à pintura de Gustav Klimt. Como elementos vindos de universos tão diferentes foram transportados para a palavra e para a construção das imagens dos poemas?
Gosto muito de criar diálogos inter-arte na minha escrita. Isso aconteceu no meu livro anterior, O Corpo de Laura, em que inseri fotografias com o texto. Para mim, as referências visuais são pivotais porque eu escrevo de forma visual; o meu poema é espacializado, com vários sinais gráficos. Quando escrevo, é natural pensar nas cores e no movimento do texto. No caso dos Liminal Spaces, do Frutiger Aero, do cinema do David Lynch e da pintura do Gustav Klimt, o que ocorre é uma “extração” do que esses materiais se propõem a trazer. Por exemplo, o David Lynch trabalha com uma ideia de sonho fragmentária, estranha, desconfortável, que me fascina a ponto de eu querer explorá-la também. As estéticas digitais mencionadas fazem o mesmo movimento, mas focando na paisagem. Já a pintura traz as cores, os símbolos, o desenho daquilo que quero evocar com o texto.
5. Em Um sonho lúcido, a reconexão com o corpo também se relaciona ao feminismo e ao rompimento da despersonalização. Como você pensou essa retomada do corpo e do próprio eu dentro da estrutura da obra?
Um sonho lúcido é uma narrativa de uma pessoa que, presa na despersonalização, vai se encaminhando para a resolução de seu conflito interno. O livro é dividido em três partes que sugerem esse movimento: “Insônia”, “Rapid-Eye Movement” e “Consciência”. A retomada do corpo rompe com o episódio dissociativo, que é um momento de bastante sofrimento, por meio da aceitação da realidade, que vai da compreensão daquilo que é tátil (no poema “A Terra”) a uma verdadeira ode à ideia de “fracasso”, presente no “Posfácio”, que eu pensei como um ensaio de um pensamento futuro, extrapolando a plaquete.
6. Você publicou seis livros e também atua como pesquisadora e divulgadora de poesia contemporânea. Olhando para essa trajetória, quais mudanças percebe na sua escrita desde os primeiros trabalhos até Um sonho lúcido?
Como falei acima, meu estilo de escrita, inicialmente muito imaturo e mais imitativo do que autêntico, começou a se desenvolver de fato em 2021, quando fiz o CLIPE-Poesia (Curso Livre de Preparação ao Escritor da Casa das Rosas). A partir daí, tanto na forma quanto no conteúdo, passei a trabalhar principalmente temas como sonho, corpo e dissociação, explorando também a visualidade do texto poético. O que tem mudado, mais recentemente, é a forma como eu uso os sinais gráficos e o caráter imagético do texto. Fora isso, acho que minha escrita se mantém a mesma.
7. Além da produção autoral, você criou a Matryoshka Books e mantém uma newsletter dedicada à poesia. De que maneira o contato constante com a produção de outros poetas influencia sua formação como leitora e sua própria prática de escrita?
Acredito que você se torna um escritor melhor se você lê e, principalmente, se você lê contemporâneos. A página (a newsletter nem tanto, porque ela é focada em processos criativos) me exige estar sempre com a cabeça aberta. Estou sempre atrás de coisas novas, que me contaminam (positivamente) não só como escritora, mas como alguém que pensa, alguém que olha para o mundo.
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POEMAS DA PLAQUETE
A TERRA
I
ouça bem a frase:
a mudez faz parte
da [experiência]
II
o prazer é
[uma coisa]
que vem
da terra
e isto nós sabemos
mesmo que bachelard
só venha falar disso
quando fala da água
e dos sonhos
Laura Redfern Navarro (2000) é uma poeta, jornalista de formação, pesquisadora e fotógrafa experimental nascida em São Paulo. Graduada em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, é mestranda em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, onde estuda as intersecções entre a linguagem poética e o fenômeno dos espaços liminares. Vencedora do ProAC/2022 na categoria poesia com o livro “O Corpo de Laura”, publicado pela Mocho Edições, possui seis livros publicados. Criadora da página @matryoshkabooks, dedicada à divulgação da poesia contemporânea, também mantém a newsletter Matryoshkaletter no Substack.
*Taciana Oliveira – Natural de Recife (PE), é bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, diretora e produtora cinematográfica, é criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada Janela Cultural, além de coordenar o Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário Clarice Lispector – A Descoberta do Mundo e integra a direção do longa-metragem de ficção O Rio de Clarice, no qual assina o segmento Amor. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.


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