por *Taciana Oliveira|
Nova edição do livro de Bruno Inácio reúne 15 contos ligados por personagens de uma mesma família e acrescenta três narrativas inéditas
Entre aquilo que se sente e o que efetivamente se consegue dizer, acumulam-se silêncios capazes de revelar cumplicidades, conflitos e ressentimentos. É nessa lacuna que Bruno Inácio desenvolve os 15 contos de De repente nenhum som, obra que ganha nova edição pela Reformatório. O volume reúne 15 histórias sobre relações familiares permeadas pelo luto, velhice, solidão, desconforto e, principalmente, pelo não-dito.
Publicado originalmente pela Sabiá Livros, em 2024, o livro retorna ampliado com os contos inéditos Trilogia do quase, Sessão das seis e Domingos, escritos durante uma oficina com Cintia Moscovich. A nova edição conta ainda com prefácio de Bethânia Pires Amaro, texto de orelha de Marcelino Freire e quarta capa assinada por Natércia Pontes.
Embora possam ser lidas de maneira independente, as narrativas estão conectadas por um elemento que somente aos poucos se revela: seus personagens pertencem à mesma família. A premissa permite que acontecimentos particulares componham um conjunto de experiências em torno de um episódio compartilhado (a morte da matriarca) e das diferentes maneiras pelas quais cada personagem responde à perda.
O silêncio ganha diferentes sentidos ao longo do livro. Em alguns contos, estabelece cumplicidades; em outros, revela a dificuldade de comunicação ou se transforma em uma presença opressiva nas relações familiares. Há momentos em que sentimentos e conflitos guardados por anos finalmente vêm à tona, enquanto, em outras histórias, os personagens permanecem incapazes de colocar em palavras aquilo que sentem.
“Há situações em que as pessoas sentem coisas bem diferentes daquelas expressadas em palavras. Mas também existem os momentos em que a única forma de dizer algo é através do silêncio”, afirma.
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Da memória à ficção
A origem de De repente nenhum som também passa por experiências familiares do escritor. Uma delas deu origem a Céu de ninguém. Em 2018, a avó materna de Bruno caiu sozinha no quintal de casa e não conseguiu se levantar. Ela morreu naquele mesmo ano, e a imagem da fragilidade de um corpo incapaz de se reerguer permaneceu com o autor. A primeira versão do conto seria publicada em 2021, na revista Subtextos. A distância temporal, segundo ele, foi importante para que a experiência pudesse ganhar autonomia ficcional. “A protagonista do conto tem um vocabulário bem diferente do da minha avó, mas carrega uma melancolia que ela também tinha. Em alguns momentos, as duas são bem diferentes, mas há certos trechos em que elas parecem uma coisa só”, conta.
Outra memória — a época em que, ainda adolescente e tímido, vendia pamonhas de porta em porta com o pai — também esteve entre os pontos de partida da coletânea. Ao perceber que os primeiros textos compartilhavam as relações familiares e o silêncio como elementos recorrentes, o escritor decidiu desenvolver novas histórias e reuni-las em torno da mesma família. Os três contos inéditos incluídos na edição de 2026 retomam personagens que, até então, apareciam enquanto referências nas demais histórias, dando a eles novas perspectivas dentro do universo familiar do livro.
Em Trilogia do quase, Sessão das seis e Domingos, situações aparentemente cotidianas — um quase afogamento, uma ida ao cinema e um almoço de domingo — ganham outros sentidos à medida que detalhes, gestos e frases interrompidas deixam entrever conflitos e sentimentos que os personagens nem sempre conseguem colocar em palavras. Nas relações familiares, esse acúmulo pode adquirir consequências particulares. “O não-dito pode se tornar uma armadilha”, observa Bruno. Para o escritor, conflitos evitados não necessariamente desaparecem e podem retornar acompanhados de raiva, medo, angústia e amargura.
A primeira edição de De repente nenhum som recebeu atenção de escritores e da crítica literária e foi incluída entre os melhores livros brasileiros de 2024 pelas revistas Úrsula e Variações. Agora, com três histórias adicionais, Bruno considera ter alcançado uma investigação mais abrangente das diferentes manifestações do silêncio.
Nascido em Ituverava, no interior de São Paulo, e radicado em Uberlândia (MG), Bruno Inácio é escritor, jornalista e crítico literário. Também publicou Desprazeres existenciais em colapso, pela Patuá, e Desemprego e outras heresias, pela Sabiá Livros. Colabora com veículos como Le Monde Diplomatique, Jornal Rascunho e São Paulo Review e atualmente trabalha em um romance, que também será publicado pela Reformatório.
Em entrevista à Mirada Janela Cultural, Bruno comenta sobre as diferentes formas assumidas pelo silêncio em De repente nenhum som, a transformação de experiências pessoais em ficção, os vínculos entre os personagens e o que acontece quando aquilo que uma família evita dizer por muito tempo é finalmente revisitado. Confira a conversa com o autor.
1. O que lhe interessava investigar nesse espaço entre aquilo que os personagens sentem e o que efetivamente conseguem dizer uns aos outros?
Nos últimos anos, o silêncio se tornou um dos meus temas preferidos, dentro e fora da ficção. É algo que pode existir de diferentes maneiras, com significados que vão da aversão à cumplicidade. No caso de “De repente nenhum som”, todos os personagens dos contos pertencem a uma mesma família, que é marcada pelo não-dito. Algumas das histórias acompanham momentos de ruptura, quando aquilo que estava guardado há bastante tempo finalmente é dito. Já outras apresentam personagens que estão cada vez mais reféns de um silêncio violento, castrador e autoritário. Nesses cenários, o que mais me interessa enquanto escritor é tentar entender de onde vêm esses silêncios e o que eles significam em cada narrativa. Há situações em que as pessoas sentem coisas bem diferentes daquelas expressadas em palavras. Mas também existem os momentos em que a única forma de dizer algo é através do silêncio.
2.Embora possam ser lidos separadamente, os contos acompanham personagens pertencentes a uma mesma família. Como surgiu a decisão de criar essa ligação entre as histórias e o que ela acrescenta à leitura do conjunto?
Embora o livro não seja uma autoficção, os primeiros contos que escrevi surgiram de experiências reais: a queda da minha avó em seu quintal e a época em que eu, um adolescente tímido, vendia pamonha com o meu pai, de porta em porta. Quando escrevi essas duas histórias, notei que, além de abordarem as relações familiares, elas tinham o silêncio como elemento central.
A partir daí, percebi que a minha própria família é bastante silenciosa e resolvi escrever outros contos em que as relações familiares e o silêncio fossem os temas centrais. Pouco depois, decidi colocar todos os personagens em uma mesma família, o que fica claro apenas no penúltimo conto, “Inventário da despedida”.
Ao colocar os personagens nesse mesmo núcleo, tentei apresentar os dramas enfrentados por cada indivíduo em seus próprios universos, além de abordar a forma com que cada um lida com o acontecimento central da obra: a morte da matriarca da família.
3. O conto Céu de ninguém nasceu de uma experiência dolorosa relacionada à morte de sua avó e à imagem da fragilidade de um corpo que não consegue se reerguer. Como você trabalhou literariamente uma memória tão pessoal sem transformar o conto em um relato autobiográfico?
Esperei um tempo para escrever sobre a queda da minha avó. Ela morreu em 2018 e escrevi a primeira versão de “Céu de ninguém”, publicada na Revista Subtextos, em 2021. Esse afastamento temporal me ajudou a processar tudo o que aconteceu e permitiu que eu reconstruísse essa história sem me apoiar tanto na realidade. A protagonista do conto tem um vocabulário bem diferente do da minha avó, mas carrega uma melancolia que ela também tinha. Em alguns momentos, as duas são bem diferentes, mas há certos trechos em que elas parecem uma coisa só.
4. A nova edição acrescenta três contos inéditos, escritos depois da publicação original de 2024. De que maneira essas novas narrativas modificam ou aprofundam o universo de De repente nenhum som? Você passou a enxergar o livro de outra forma após escrevê-las?
Os contos inéditos surgiram durante uma oficina com a escritora Cintia Moscovich e são protagonizados por personagens que já haviam sido citados em um conto da primeira edição. Então, de certa forma, é como se eles já existissem antes.
"Trilogia do quase", "Sessão das seis" e "Domingos" têm em seus enredos, respectivamente, um quase afogamento, uma ida ao cinema e um almoço de domingo, situações que ganham novos significados a partir de descobertas feitas por meio de detalhes e de frases suspensas.
Com essas três histórias, busquei explorar outras formas de silêncio, o que me levou a considerar a segunda edição uma investigação mais completa sobre o tema.
5. As relações familiares parecem concentrar muitos dos silêncios de De repente nenhum som. O que lhe interessa naquilo que permanece guardado, interrompido ou nunca chega a ser dito entre pessoas tão próximas?
O que me chama a atenção é que, com o tempo, o não-dito pode se tornar uma armadilha. O silêncio, quando não compartilhado de forma confortável, gera raiva, medo, angústia e amargura. É como se cada conflito evitado gerasse a promessa de um conflito maior num futuro próximo. No caso da família, em que as pessoas, em tese, são próximas e se encontram com frequência, aquilo que é guardado vem à tona nos momentos mais inadequados, muitas vezes acompanhado por palavras repletas de fúria. Um dos contos inéditos, “Domingos”, é justamente sobre isso.
*Taciana Oliveira – Natural de Recife (PE), é bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, diretora e produtora cinematográfica, é criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada Janela Cultural, além de coordenar o Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário "Clarice Lispector – A Descoberta do Mundo" e integra a direção do longa-metragem de ficção O Rio de Clarice, no qual assina o segmento Amor. Publicou "Coisa Perdida" (Mirada, 2023), livro de poemas.


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