Stefany Lima-Homenagem a Adelina | Credito: Hannah Carvalho
Exposição revisita trajetórias de mulheres negras apagadas das narrativas oficiais e coloca obras contemporâneas em diálogo com o acervo do MNBA
O Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Rio de Janeiro, recebe, a partir de 16 de setembro, a exposição “Abolicionistas Brasileiras”, que reúne trabalhos de 47 artistas visuais negras em torno da memória e das lutas de mulheres que tiveram participação decisiva na história brasileira, mas permaneceram ausentes ou receberam pouco espaço nas narrativas oficiais.
Com curadoria de Ana Carla Soler e co-curadoria de Francela Carrera e Carolina Rodrigues, a exposição ocupa a Sala Bernardelli, que será reaberta após uma reforma completa. A inauguração integra a programação de reinauguração de três espaços expositivos do MNBA, instituição que passa por obras desde 2020. A visitação é gratuita.
Realizada pelo Instituto Artistas Latinas, a mostra revisita trajetórias de figuras como Aqualtune, Anastácia, Maria Firmina dos Reis e Maria Felipa, entre outras mulheres associadas à resistência negra e à luta pela liberdade. A proposta é confrontar apagamentos históricos e discutir as formas pelas quais a memória dessas personagens chegou, ou deixou de chegar, ao presente.
Entre as artistas participantes estão Luna Bastos, Renata Felinto, Guilhermina Augusti, Lidia Lisbôa, Mônica Ventura, Aline Motta e Manuela Navas. Diferentes gerações e linguagens se encontram em trabalhos que abordam temas como raça, gênero, ancestralidade, território, educação, moradia e direito à memória.
Pela primeira vez, trabalhos contemporâneos da exposição serão apresentados em diálogo com pinturas pertencentes ao acervo da instituição, entre elas obras de Marcia Falcão e Maria Auxiliadora. A relação entre produção atual e patrimônio permite observar também quem esteve representado, quem produziu arte e quais trajetórias conquistaram espaço nos museus brasileiros ao longo do tempo. Para a diretora do MNBA, Daniela Matera do Monte Lins, a exposição dá continuidade a um movimento de revisão das narrativas institucionais já presente em projetos anteriores, como Pretagonismos.
Segundo a diretora, Abolicionistas Brasileiras leva ao museu “trajetórias e protagonismos que, por muito tempo, permaneceram à margem das narrativas oficiais”.
Para a curadora Ana Carla Soler, as obras também abrem discussões sobre as formas de representação da mulher negra e sobre direitos historicamente negados. “A mostra traz uma reflexão sobre as formas de representação da mulher negra e sobre questões como o direito à memória, à moradia, ao território, à educação”, afirma.
Já Paulo Farias, diretor do Instituto Artistas Latinas, destaca a relação entre passado e presente presente na exposição. Para ele, os trabalhos permitem observar a permanência de estruturas de raça e gênero na sociedade brasileira e os seus reflexos nas disputas em torno da memória e da representação.
Mais de 100 mil visitantes
Apresentada como a maior exposição realizada no Brasil dedicada exclusivamente à produção de mulheres artistas negras, Abolicionistas Brasileiras já passou pelo Museu de Arte do Rio (MAR), pelo Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM), no Recife, pela Casa da Cultura da América Latina, em Brasília, e pelo Centro Cultural São Paulo (CCSP). Segundo os organizadores, as diferentes temporadas somaram mais de 100 mil visitantes.
O retorno ao Rio acontece em um momento de reabertura gradual de espaços do MNBA e integra a Semana de Arte do Rio, realizada entre 16 e 27 de setembro. A programação ocorre no período da ArtRio 2026, que chega à 16.ª edição e será realizada de 16 a 20 de setembro, na Marina da Glória.
Com expografia assinada por Gisele de Paula, a nova montagem de Abolicionistas Brasileiras conecta obras contemporâneas e peças do acervo histórico para recuperar nomes, experiências e contribuições de mulheres negras. Ao ocupar uma das salas de uma das principais instituições de arte do país, a exposição também coloca em discussão os próprios critérios que, durante décadas, determinaram quais artistas e personagens seriam preservados pela história da arte brasileira.
PERSONAGENS HISTÓRICAS
Aqualtune: mulher negra líder quilombola, chefe de um dos principais assentamentos que formavam o Quilombo dos Palmares, no século XVII.
Anastácia: conhecida como Escrava Anastácia, teria sido escravizada no século XVIII e sentenciada a usar uma máscara punitiva de ferro na boca por se negar a ter relações com seu escravizador.
Maria Firmina dos Reis: considerada a primeira romancista negra da América Latina, foi uma professora, compositora e escritora brasileira, nascida no século XIX.
Maria Felipa: combateu na Batalha de Itaparica, na campanha de Independência da Bahia, também chamada de Independência do Brasil na Bahia. Ao lado de Joana Angélica e Maria Quitéria, entrou para a história como símbolo da resistência.
Andrea Hygino | creditos: Hannah Carvalho
ARTISTASAlice Lara, Aline Motta, Amanda Cursino, Ana das Carrancas, Ana Lira, Andréa Hygino, Azizi Cypriano, Bianca Foratori, Brenda Bazante, Claudia Lara, Daiane Lucio, Daniele Rodrigues, Débora Passos, Dyana Santos, Guilhermina Augusti, Janaina Vieira, Julia Vicente, Larissa de Souza, Laryssa Machada, Letícia Miranda, Lidia Lisbôa, Lídia Vieira, Luna Bastos, Manu Gomez, Manuela Navas, Márcia Falcão, Maria Auxiliadora, Maria Lídia Magliani, Mariana Maia, May Agontinmé, Medusa Yoni, Mônica Ventura, Nazaré Soares, Nice Nascimento, Renata Felinto, Renata Leoa, Roberta Holiday, Sheyla Ayo, Silvana Mendes, Siwaju Lima, Stefany Lima, Suelen Lima, Thais Basilio, Thais Iroko, Valquíria Pires e Xica
May Agontinmé | Iansã Abolicionistas - SP | Instituto Artistas Latinas
SERVIÇOExposição: Abolicionistas Brasileiras
Curadoria: Ana Carla Soler
Co-curadoria: Francela Carrera e Carolina Rodrigues
Abertura: 16 de setembro de 2026 (quarta-feira), às 11h
Período expositivo: até 19 de dezembro de 2026
Horários: de terça a sábado, das 11h às 17h (última entrada às 16h30). No segundo sábado do mês, das 11h às 15h.
Local: Museu Nacional de Belas Artes – Sala Bernardelli
Endereço: Avenida Rio Branco, 199 – Centro – Rio de Janeiro (RJ)
Realização: Instituto Artistas Latinas
Projeto expográfico: Gisele de Paula
Valor: Entrada franca
Classificação etária indicativa: Livre



Redes Sociais