Thaís Campolina investiga corpo, natureza e animalidade em Enxame




Publicado pela Editora Orlando, novo trabalho da poeta mineira será apresentado na Livraria Ponta de Lança e na Bienal do Livro de São Paulo

Entre colmeias, onças, pássaros, gatos e outros seres, a poeta mineira Thaís Campolina investiga as relações entre corpo, casa, memória e natureza em enxame, seu novo livro de poesia. Publicada pela Editora Orlando, a obra será lançada no dia 9 de setembro, às 19h, na Livraria Ponta de Lança, em São Paulo. No dia 12 de setembro, às 11h, a autora participa de uma sessão de autógrafos na Bienal do Livro de São Paulo, no espaço da editora no estande Escreva, Garota!.

Autora de eu investigo qualquer coisa sem registro e estado febril, Thaís retorna à poesia com um livro em que o ambiente doméstico e o instinto selvagem se encontram. A casa e o próprio corpo assumem características de ecossistemas, enquanto imagens zoológicas e anatômicas conduzem reflexões sobre vestígios, transformações e memória. A organização do volume acompanha essa aproximação entre humano e animal. enxame está dividido em cinco seções — “A Colmeia”, “A Onça”, “O Bando”, “Rotas Migratórias” e “O Zumbido” —, que exploram diferentes formas de agrupamento e existência. “Um fóssil não é uma ossada, é uma cicatriz preservada do movimento de um corpo caindo”, escreve Campolina em um dos poemas.

O poema de Ana Estaregui, que abre o volume, apresenta a procura por duas vozes que buscam o enxame. Em outro momento, Thaís escreve: “um pássaro sozinho é só um pássaro sozinho / uma revoada de pássaros é muito maior que isso”. A passagem aponta para uma das questões que acompanham a obra: a transformação que ocorre quando o indivíduo passa a integrar um grupo.

Corpo, memória e paisagem mineira

Ao escrever sobre o “faroeste mineiro”, Thaís Campolina recupera uma paisagem atravessada por britadeiras e poeira. A experiência de habitar essa terra serve de ponto de partida para reflexões sobre memória, corpo e animalidade. O corpo surge sob diferentes perspectivas. A autora recorre a imagens que vão da memória celular de um peixe abissal à gestação de um teratoma, passando pela pele de lagartixa e pelas garras de gata. Em “sou uma praga / acostumada a se atacar / para nunca ficar / sem o que roer”, o corpo volta-se contra si próprio.

No posfácio, Maria Emanuelle Osório Prates, escritora, educadora popular, ativista ambiental, etnoecóloga e doutoranda em Biodiversidade e Uso dos Recursos Naturais, relaciona essa passagem às doenças autoimunes. Segundo o texto, as mulheres representam 78% das pessoas afetadas por esse tipo de condição. A leitura de Prates encontra nos poemas elementos que despertam, além das questões ecológicas, reflexões imunológicas.

O livro traz ainda blurb da escritora Dia Bárbara Nobre e texto de orelha de Bárbara Mançanares. Para Mançanares, a escuridão presente na obra guarda uma potência relacionada ao retorno ao sonho, enquanto a voz poética é apresentada como uma espécie de “Indiana Jones mineira”, que convida o leitor a romper a casca e entrar na língua.

enxame é dedicado a Tagore e Adelaide, gatos de Thaís Campolina, presença que se relaciona à proximidade entre humanos e outros animais encontrada ao longo do livro.

Lançamento e conversa sobre poesia

O lançamento na Livraria Ponta de Lança será acompanhado de um bate-papo sobre atmosfera do sonho, corpo e poesia. Thaís Campolina conversa com a poeta Laura Redfern Navarro, autora da plaquete Um sonho lúcido, também publicada pela Editora Orlando. A mediação será da jornalista Marcela Güther, da editora.

Três dias depois, Thaís participa da Bienal do Livro de São Paulo, onde realiza sessão de autógrafos no espaço da Orlando no estande Escreva, Garota!.


POEMAS DO LIVRO


NATIONAL GEOGRAPHIC


I.

duas cabras impassíveis

assistem a uma fogueira queimar

o fogo defuma as roupas postas

para secar em um varal improvisado

uma linha se amarra a um duto de água

a outra não se vê onde termina

a água passa por ali

mas nunca chega

  p

    i

     n

       g

         a

no entorno

um grupo de pessoas

esquenta os pés e as mãos

perto do fogo

estão juntos

do jeito deles

de se estar

junto

uma mulher sorri

com os braços abertos

recebe o filho

que veio em sua direção

com um graveto em chamas

que bom que agora ele já sabe mexer com fogo



II.

sebastião salgado fez fotos tristíssimas

como eu tento fazer agora enquanto ando

na periferia de Nova Delhi e encaro

pessoas que se abrigam entre

dutos de água potável

sem jamais ter acesso

a uma torneira

talvez

sebastião salgado não esperasse

o sorriso de uma mulher ali

mas eu que cheguei nesse canto

guiado pela voz humana

sabia que encontraria

gente

e gente sorri

sabe-se lá como


CARNE DOCE


a solidez desse chão que você pisa

não passa de um erro de percepção

não se deixe enganar pela superfície

esse planeta não é um só bloco rochoso

ninguém é tão concreto assim


talvez você prefira esquecer que

a terra flutua em um manto de fogo

nadando incerta nos próprios segredos


pensamos

que triste é ser alguém de pedra

sem metal escorrendo pelas veias

privado do canto dos passarinhos

e das tesouras utilizadas para salvar

as plantas que crescem e morrem

aqui e agora nesse quintal


é fácil acreditar no que dizem as esculturas

quando você nunca sentiu a terra tremer

ou viu um vulcão desperto te olhando

com seus olhos fundos prontos para engolir tudo

e te obrigar a suportar a nossa parte da noite


Emily Dickinson como toda boa ninguém

é capaz de assombrar séculos inteiros

de jardins sem flores esperando sentir

a bruma chegar e o sol raiar

para assim poder dizer

não a você

mas para marianas e annes

camilas e susans

thaíses e carolinas

enfim e de novo:

— Dia!



LADAINHA


a natureza humana está na resposta que a nossa pele dá ao tempo: é possível viver, querer viver, querer morrer e morrer várias vezes por ano, a depender de como as estações se manifestam no ecossistema onde você se encontra. é mais fácil largar a casca que a gente chama de casa no caminho, parir seu antigo receptáculo, fazer troca de pele, ser obrigado pelo próprio corpo a renovar a sua camada mais externa. mas ser gente é escolher passar hidratante, esfoliar a pele e as vezes furar bolhas, raspar calos e arrancar as pelinhas com as unhas. deixar vestígios mínimos de pele morta se acumular na roupa de cama. dar ração aos ácaros. apenas uma vez oferecer seu corpo morto inteiro aos bichos da terra.




Thaís Campolina
(Divinópolis, 1989) é autora dos livros de poesia “eu investigo qualquer coisa sem registro” (Crivo Editorial, 2021) e “estado febril” (Macabéa, 2024), além das plaquetes “noticiosas”, “línguas soltas” (Primata, 2024) e “frigideira” (Tato Literário, 2024). Publicou também o conto “Maria Eduarda não precisa de uma tábua ouija” (2020) em formato e-book. É mediadora de leitura nos clubes Cidade Solitária, Leia Mulheres Divinópolis e Casa das Poetas, e curadora da página Bafo de Poesia.




SERVIÇO

Lançamento de enxame, de Thaís Campolina
9 de setembro, quarta-feira, às 19h
Livraria Ponta de Lança — São Paulo
Bate-papo com Thaís Campolina e Laura Redfern Navarro
Mediação: Marcela Güther

Bienal do Livro de São Paulo
12 de setembro, às 11h
Sessão de autógrafos com Thaís Campolina
Espaço da Editora Orlando — estande Escreva, Garota!

Compre  *enxame* no site da Editora Orlando