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| Foto de Jr Korpa na Unsplash |
ando um tanto louco, a saber
mas tem um banheiro químico
navegando este azul
olha aí
olha aí
vai atracar num prédio nu
Giselle Ribeiro
Profa. Teoria Literária - UFPA - FALE
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cidá
disse a criança apontando para a rua
a epiderme metálica da manhã reluzindo
pousada em seu colo
tem o tamanho exato da mala
do cobrador
as pontas dos dedos
papéis pólen
tateiam a constatação
cidá
amar a criança:
a elasticidade da ideia e
o perfume do assombro
comuns ao ofício poético
minhocas para pescaria
em diálogo com a poeta Giselle Ribeiro
um banheiro químico está suspenso
e o vejo da janela da cozinha
sobe ao céu como o santo
que não sou
ando um tanto louco, a saber
mas tem um banheiro químico
navegando este azul
olha aí
olha aí
vai atracar num prédio nu
São Paulo
livre da finitude,
apenas o ar espesso do tempo
madrugadas frias
as articulações estalam:
sonha florestas
love sessions
pende a cabeça em seu pescoço
cálice fresco
quando amanhece no metrô
e todas as garotas
guarda-chuvas sobre os olhos
advogados de proletários
e pais infiéis
partem
o menino com sangue no calcanhar
telefones encarnados as preces todas
entalhadas na pele
partem
bics e botas
fugazes partem
ficam.
bebem da língua do amor
da onde é impossível partir
sobre a mulher e a escrita
tantas as línguas que salgam a cavidade
que sorvem suas uvas pisoteadas
tantos lados quanto vejo
numa pergunta feita na infância
implacável pensar na escrita
entender o indivisível do labirinto
sem nunca buscar saída
estou em casa
amparada por um roteador
à sombra de uma aula
crítica e autoria feminina
se me preocupa a pele opaca
me inscrevo na cidade e deixo ver
refletida no vidro a luminária
maçã que brinco apanhar com as mãos
| Foto: Lucas Lopes (@vaibisnaga) |
Flora Miguel é jornalista, trabalhadora da cultura, poeta. Autora do livro “tempo sem cruz” (Primata, 2022) e das plaquetes “IRA” (Primata, 2022), com Camila Martins e Priscila Kerche, e “casa de praia” (Primata, 2024). Essa seleção de poemas faz parte do livro inédito “CIDÁ”.

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