Poemas do livro CIDÁ, próximo lançamento de Flora Miguel

Foto de Jr Korpa na Unsplash

Desde "tempo sem cruz" (2022) e "casa de praia" (2024), Flora Miguel escreve como quem traz Breton pendurado na orelha. Nestes poemas, ela escuta os silêncios na caixa torácica dos operários nas usinas, os motores dos carros, as buzinas e, para ver melhor, corta os olhos com lâmina fina, desfiando a cidade de São Paulo e seus atropelos. Depois, nos entrega CIDÁ — seu próximo livro, e de onde sai essa seleção inédita - com tudo o que viu e ouviu, nesta sua poética desobediente. E é assim que o indizível se escreve pela ponta da sua língua:


ando um tanto louco, a saber

mas tem um banheiro químico

navegando este azul


olha aí

olha aí

vai atracar num prédio nu


Giselle Ribeiro

Profa. Teoria Literária - UFPA - FALE


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cidá


disse a criança apontando para a rua

a epiderme metálica da manhã reluzindo


pousada em seu colo

tem o tamanho exato da mala

do cobrador


as pontas dos dedos

papéis pólen 

tateiam a constatação 

cidá 


amar a criança:

a elasticidade da ideia e

o perfume do assombro


comuns ao ofício poético 




minhocas para pescaria


em diálogo com a poeta Giselle Ribeiro


um banheiro químico está suspenso

e o vejo da janela da cozinha


sobe ao céu como o santo

que não sou

ando um tanto louco, a saber

mas tem um banheiro químico

navegando este azul


olha aí

olha aí

vai atracar num prédio nu




São Paulo


livre da finitude,

apenas o ar espesso do tempo


madrugadas frias

as articulações estalam:

sonha florestas




love sessions


pende a cabeça em seu pescoço

cálice fresco

quando amanhece no metrô

e todas as garotas

guarda-chuvas sobre os olhos

advogados de proletários

e pais infiéis

partem


o menino com sangue no calcanhar

telefones encarnados as preces todas

entalhadas na pele

partem


bics e botas

fugazes partem


ficam.

bebem da língua do amor

da onde é impossível partir




sobre a mulher e a escrita


tantas as línguas que salgam a cavidade

que sorvem suas uvas pisoteadas

tantos lados quanto vejo

numa pergunta feita na infância


implacável pensar na escrita

entender o indivisível do labirinto

sem nunca buscar saída


estou em casa

amparada por um roteador

à sombra de uma aula

crítica e autoria feminina


se me preocupa a pele opaca

me inscrevo na cidade e deixo ver

refletida no vidro a luminária


maçã que brinco apanhar com as mãos




Foto: Lucas Lopes (@vaibisnaga)

Flora Miguel
é jornalista, trabalhadora da cultura, poeta. Autora do livro “tempo sem cruz” (Primata, 2022) e das plaquetes “IRA” (Primata, 2022), com Camila Martins e Priscila Kerche, e “casa de praia” (Primata, 2024). Essa seleção de poemas faz parte do livro inédito “CIDÁ”.