Foto de Magaly Taboada
Betume
Um menino magro, pele ressequida pelo sol de além agreste. Assim era Roberto: caçava calangos com peteca, tangia boi, vestia a roupa de vaqueiro do pai quando ninguém estava olhando.
Em mais um dia esturricado, conseguiu evitar que uma novilha caísse numa ribanceira, poupando a vida do pai das maldades do coronel Simão. Desse dia em diante, passou a ser reconhecido como Beto-laço-certo.
Roberto se inspirava no pai, a quem via como destemido por nunca abandonar a terra natal.
Veio então o fatídico dia — para alguns ou todos, menos para o garoto —, momento de sua maior travessura: correndo por entre angicos e xique-xiques e vestindo o gibão proibido, não colocou os óculos velhos e sem a lente esquerda que seu velho ganhou do coronel. Como Roberto poderia? O pai, tão devoto ao patrão quanto ao Padre Cícero, não os tirava nunca. Orgulhava-se por tê-los merecido.
Beto-laço-certo foi incapaz de antecipar os espinhos que lhe marcariam o rosto e algo mais… Havia montado às escondidas o cavalo Bala para pendurar nos cajueiros o fruto da caça na Serrinha da Castanha. Quase lá chegando, se enroscou numa catingueira, batendo com o rosto num imponente mandacaru, seu inquilino de terreiro, e caiu no chão.
O sangue que vertia por seu olho esquerdo mudava logo de cor. Era escuro e viscoso. O desespero vencia seu pouco mais de metro e meio. Seria um castigo? Ele correu então para a velha cacimba que ficava a alguns metros dali. Porém, já se via a léguas de casa.
O tempo, mais veloz que Bala, trouxe consigo o fim da tarde. Ali o menino soube: enquanto as feridas cicatrizassem, teria que arrumar desculpas. Deixaria o pai menos irritado pela fuga com o cavalo e o gibão.
As formigas, implacáveis, começaram a cercá-lo no breu da caatinga. Era ele ou elas. Lembrou-se então do bentinho guardado no bolso, dado por sua avó moribunda. Era infalível. Colocou-o junto ao peito e rezou a Padre Cícero. O menino dormiu agarrado ao amuleto e murmurando sua reza em segredo.
O sol sertanejo acordou Roberto antes dos pássaros. A dor terrível da noite passada dera lugar a uma estranha dormência. Ao abrir o olho direito, intacto, viu uma formiga nada fortuita carregando seu antigo olho esquerdo, atravessado ao meio por um espinho cinzento de mandacaru.
Levantou a mão trêmula até a cavidade mutilada. Percebeu que onde antes havia sangue e carne viva, seus dedos agora tocavam uma crosta espessa, fria e brilhante, perfeitamente ajustada à órbita subtraída. Ao desobstruir o rosto, o mundo se partiu em dois: pelo olho são, a caatinga continuava seca e impiedosa; pelo buraco recém-selado, porém, ele não enxergava a luz, mas sombras invertidas, como se as entranhas da terra se projetassem no ar.
Beto-laço-certo morreu naquela noite. Ajustou o bentinho no peito e tomou para si um novo nome: Betume. Sobreviver a tal brutalidade da natureza trouxe coragem e o desejo de tratá-la com o mesmo medo que sentiu ao ser ferido.
Quase chegando em casa, a visão direita começou a embaçar com o calor do sol. Tapou-a com a mão em formato de concha. Sobrou-lhe apenas a percepção da crosta escura. Nesse instante, um pesado cheiro de óleo cercou todo o lugar e o chão parecia areia movediça.
O olho metamorfoseado não mirou os cajueiros nem a cacimba seca, mas penetrou as fendas do chão, enxergando uma veia escura que subia das profundezas. Apoiado sobre os joelhos, Betume escavou um pouco a terra árida com as próprias mãos. O solo cedeu e, entre seus dedos, ouro negro emergiu.
Barbara Assim (Barbara Caroline Gonçalves) é uma poeta alagoana de Maceió, autora do livro de poemas Palavras Pesadas Carregadas por Borboletas (2021). Tem poemas lançados no Mirada da Janela e na Revista Laudelinas. Ultimamente, tem se dedicado também à escrita de contos que tratam a relação entre corpo e mito dentro da cultura popular.
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