| Fotografias de Carlos Monteiro |
Volta, Sol!
Há mais
de quinze dias o Rio parece ter esquecido de si mesmo. O céu amanhece cinza.
Continua cinza. E termina cinza. Uma chuva miúda, insistente, dessas que não
chegam a ser tempestade, mas também não deixam a cidade respirar. O carioca
olha para cima, procura uma nesga azul e não encontra. Abre o aplicativo do tempo.
Nada. Chuva. Mais chuva. Talvez chuva. E vai ficando meio triste.
Porque carioca sem sol é quase uma contradição geográfica.
A praia fica com pouca gente. As
cadeiras recolhidas. O calçadão perde seus corredores, seus ciclistas, seus
caminhantes. Os corpos desaparecem das areias. Os óculos escuros dormem nas
gavetas. O mate não circula com a mesma alegria. Até o cachorro parece passear
mais depressa, como se quisesse voltar para casa. Há uma certa apatia espalhada
pela cidade.
O trânsito parece mais pesado. As pessoas falam menos. O sorriso
demora. O dia começa sem começar. O relógio anda, mas o Rio parece parado.
Talvez porque a gente tenha aprendido a medir o tempo pela luz. O carioca não
precisa olhar o calendário. Basta olhar o céu. Sabe quando é manhã pela maneira
como o sol bate no Cristo. Reconhece a hora pelo brilho nos prédios de
Botafogo. Sabe que a tarde chegou quando a luz dourada se deita sobre Ipanema.
E conhece o entardecer antes mesmo que o horizonte fique vermelho.
O sol é nosso relógio. Nosso despertador. Nossa decoração. Nossa
fotografia. Sem ele, a Cidade Maravilhosa perde um pouco da sua cor. As
montanhas ficam distantes. O mar, metálico. As fachadas, sem brilho. O verde
das árvores parece mais escuro. Até o azul, essa cor tão carioca, parece ter
sido levado pela chuva.
Adriana Calcanhotto percebeu isso antes de nós: “…cariocas não
gostam de dias nublados”. Não gostam mesmo. Porque o Rio foi feito
para a luz. Para a sombra das folhas desenhada na calçada. Para o reflexo do
sol no mar. Para a pele dourada depois da praia. Para a fotografia contra o céu
aberto. Para o Cristo recortado na claridade. Para o Pão de Açúcar surgindo
nítido atrás da janela. O sol acende a cidade. Acende as cores. Os rostos. As
montanhas. Os desejos.
Com ele, o carioca muda de humor. Sai de casa. Caminha. Pedala.
Corre. Nada. Encontra amigos. Senta-se numa mesa de bar. Vai à praia mesmo que
seja só para molhar os pés. Fotografa o horizonte como se fosse a primeira vez.
É como se o sol devolvesse à cidade uma espécie de confiança.
Por isso,
nesses quinze dias de cinza, há uma espera silenciosa espalhada pelas janelas.
O carioca olha para o céu. Espera. Um pequeno azul aparece entre as nuvens.
Depois outro. E, de repente, uma lâmina de luz atravessa a paisagem. Pronto! O
Rio volta.
A praia
respira. O mar brilha. As montanhas reaparecem. As pessoas sorriem. A cidade
ganha volume, cor, movimento.
E alguém, certamente, vai dizer: “Até que enfim!”. Porque aqui,
onde a beleza depende tanto da luz, o sol não é apenas uma estrela. É um estado
de espírito.
Volta,
sol! O Rio está com saudade de ser Rio.
Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade.
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