Amor Tarja Preta: Heron Coelho explora os conflitos do desejo e as marcas da ausência

por Taciana Oliveira |



Obra lançada pelo Selo Neomarginal, reúne poemas que exploram a musicalidade e as possibilidades da linguagem.

Entre os excessos da paixão e a persistência da saudade, as relações afetivas revelam seus contrassensos. Essa dualidade está presente em "Amor Tarja Preta" (Selo Neomarginal, 2026), primeira publicação literária de Heron Coelho..Desejo, ciúme, solidão e ausências ganham forma em poemas que revelam os conflitos da experiência afetiva e o sofrimento provocado pelos excessos da paixão. A referência aos medicamentos de tarja preta, presente no título, reforça essa perspectiva ao sugerir um sentimento que entorpece, cria dependência e torna cada vez mais tênues os limites entre prazer e dor. 

Organizado em três partes — Comprimidos, Diluídos e Drougs —, o livro utiliza parâmetros farmacológicos para representar diferentes estados emocionais. O ciúme, a culpa e a solidão surgem em versos que recusam a mitificação romântica. No poema que dá nome à obra, a separação é associada à abstinência, enquanto "Danos" recorre a imagens de violência, medo e condenação para revelar o lado mais perturbador dos vínculos afetivos.

Essa perspectiva ganha novos contornos em poemas que abordam a perda e a permanência das lembranças. Em “O pó dos seus ossos”, a morte transforma objetos, espaços e recordações em vestígios de uma relação que resiste ao desaparecimento físico. Já em “Exílio”, a solidão assume dimensões mais densas, descrita através de imagens de abandono, silêncio e desamparo. A sucessão de metáforas intensifica a sensação de isolamento e apresenta a ausência enquanto experiência que atinge tanto o corpo quanto a memória.

A coletânea, entretanto, não se limita às manifestações de sofrimento. Em “O aeroplano e Betinha", o autor apresenta o companheirismo, a permanência e a celebração dos encontros. Esses poemas oferecem um contraponto às sequências de ruptura e destruição, revelando uma poética capaz de reconhecer diferentes possibilidades das relações afetivas. Em "Bora F1?", por sua vez, uma conversa aparentemente despretensiosa expõe a atração entre duas pessoas e a dificuldade de expressar sentimentos, recorrendo à informalidade da linguagem cotidiana.

Heron Coelho explora jogos sonoros, rimas internas, repetições e variações de ritmo, transferindo à escrita uma cadência que remete à música e à performance. Sua experiência como compositor, roteirista e diretor teatral se manifesta na oralidade dos poemas e na escolha de palavras que valorizam a sonoridade. Em determinadas passagens, a leitura sugere uma interpretação em voz alta, característica que conversa com o fato de que alguns textos terem dado origem a composições musicais.

A experimentação da linguagem é uma das características mais importantes da obra. Heron Coelho explora metáforas, sonoridades e imagens dramáticas, criando uma escrita que exige atenção e disposição para acompanhar seus diferentes ritmos. Embora a intensidade verbal por vezes pareça sobrecarregar os versos, há passagens em que a escolha das palavras e das imagens confere uma expressividade singular aos poemas. É nessa combinação de ousadia estética e domínio da linguagem que se destacam os momentos mais significativos da publicação.

Embora as experiências pessoais predominem, a crítica social e política ganha destaque em poemas como "Reza anti-genocida", no qual Heron Coelho denuncia a violência contra a população palestina e evoca outros episódios históricos marcados pela opressão, pela desigualdade e pela violação dos direitos humanos. O tom de protesto evidencia o posicionamento político do autor e sua preocupação com o sofrimento coletivo. O poema revela a amplitude de uma escrita voltada à denúncia das injustiças sociais e à defesa da arte como forma de resistência e contestação. 

Concebido pelos poetas Henrique Pitt, responsável pelo projeto gráfico, e Vitor Miranda, autor da apresentação e integrante do Movimento Neomarginal, Amor Tarja Preta marca os 25 anos de carreira artística de Heron Coelho. Formado em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), o escritor possui uma trajetória ligada ao teatro, à música e à produção cultural. Em sua estreia literária, o poeta  faz da palavra  espaço de experimentação, no qual a musicalidade dos versos revela uma escrita definida pela irreverência. Entre momentos de ternura, erotismo, indignação e desalento, a obra revela um autor interessado em dissecar as fragilidades  sem esconder suas contradições. A publicação encontra sua solidez quando a experimentação poética dá forma a experiências reconhecíveis, permitindo que os conflitos pessoais adquiram significado para além da vivência individual.


AMOR TARJA PRETA

                         heva

amor tarja preta

você não precisa ir

nem se diluir

em desculpas

no conta-gotas

da culpa.


amor tarja preta

também não venha

se despedir

de mim

antes que eu caia

de cara e de quatro

no vão da sarjeta

d'uma constelação de leões,

cometas e lexotans.


amor tarja preta

nunca peça pra eu ficar

te quero te crivo proscrito,

e prescrito te rivo de

trio los panchos a

zimbo trio

regado à múltiplas

doses de benadryl.


amor, não cometa o erro

de me suicidar:

não haverá mais jeito

nem formas, nem modo

nem meios de eu te tomar.

amor tarja preta:

a saudade será

a abstinência

desse nosso amor.





Formado em Letras pela USP, com especialização em história da arte e psicanálise, Heron Coelho dedica-se à poesia como uma escuta a se expressar nos ofícios de diretor teatral, redator, compositor e roteirista, músico e escritor de sua própria história por meio da criação artística. Com êxitos em peças premiadas, produziu ícones da música e da literatura brasileira, motivado sempre pelo foco marioandradino da necessidade de se "abrasileirar o brasileiro". De Ferreira Gullar a Francis Hime, de Gianfrancesco Guarnieri a Paulinho da Viola, Heron agrega outros imponentes nomes em seu trajeto e agora se encontra focado no trabalho literário e dramatúrgico, intrínseco ao Movimento Neomarginal, atento sempre ao poder de transformação social concernente à arte, ferramenta para democratizar o poder de pensamento e consciência social e política às massas populares.



 *Taciana Oliveira – natural de Recife (PE), é bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, diretora e produtora cinematográfica, é criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada Janela Cultural, além de coordenar o Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário Clarice Lispector – A Descoberta do Mundo e integra a direção do longa-metragem de ficção O Rio de Clarice, no qual assina o segmento Amor. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.