Para um mal que não tem cura | AdrianoEspíndola Santos

Foto de Jr Korpa na Unsplash

Para um mal que não tem cura


Era nada, quase nada, e se tornou um problema colossal. Apesar do meu dever de urgência em saber, faço como todos os seres humanos: adio, ilimitadamente. Ou seja, estou jogando contra mim, me enganando. Mas sempre a memória apela por discernimento. Ter de escolher entre a vida e o trabalho é um componente difícil. Se passo uma semana sem pegar nos livros, me vem a ansiedade brutal, atacada por todos os lados, como sendo eu um ser vulnerável ao menor sismo. E, para completar, tem muita gente que quer o meu cadáver frio e rijo. Que mal fiz para merecer esse destino? Dolores Duarte, minha amiga, professora do departamento, me pergunta por que não vou pela última vez ao médico de sua confiança. São todos insensíveis e gananciosos, pretensos semideuses. No passado, nas terríveis crises de nervo, ia ao médico da família, um sujeito que parecia ter saído de um hospício: um médico louco. Abri a sua porta, na primeira vez, e ele exagerou num sorriso enigmático, para decerto me hipnotizar. Fui somente porque meu pai estava prestes a morrer e eu precisava tomar alguma droga para suportar o peso dos dias. Ele, no ato, me diagnosticou com bipolaridade. “O seu histórico não nega: você é bipolar como o seu pai!”. Não houve conversa. Foi uma sentença que ceifou metade do meu corpo; não sentia nada da cintura para baixo. Os remédios que me receitou eram tão fortes que, além da sensação de disforia, me impediam de comer. O organismo estava farto de vento e de vontade de morrer. Quase perdi o emprego. Faltei dias sucessivos. Tive de ir ao INSS para justificar. Foi um suplício. A morte do meu pai não me doeu tanto. A suposta bipolaridade me tornou um ser mais obcecado pela comprovação de um diagnóstico, e o dito médico não queria me dar um laudo. Na terceira consulta, ele me revelou que era um “palpite quase certo”. Minha família o endeusava, porque ele era isso e aquilo, o bambambã da psiquiatria na nossa pequena província – e eu só pensava em desmascarar o porco alienista. Eu não era como o meu pai, que tinha fases de extrema excitação e outras de depressão. Nunca saí do patamar da depressão. Minha ex-esposa dizia que eu não me animava com nada. A minha euforia só se deu em dois momentos, na ida à Bélgica e no nascimento do meu filho. Fora isso, foram pequenos episódios de satisfação, como concluir o doutorado e resolver as pendências do fim do casamento, que duraram, incrivelmente, dois anos. Só pude viver com certa tranquilidade quando dei um apartamento para a minha ex morar com o meu filho. Não é que ela tenha me demandado, mas eu sentia essa obrigação – e queria que ele morasse num lugar bacana, tranquilo e arborizado. Não sei se fiz certo, porque hoje ela está casada, mora com o atual em outro apartamento e aluga o que dei. Não pude e não posso lutar contra isso. São frustrações que me aperreiam, com as quais não sei como lidar. A vida é um fardo. Já pensei em fazer a eutanásia na Bélgica. Mas amo muito o meu filho, e ele ainda é um estudante secundarista, depende de mim. Vou amadurecer a ideia com calma. Quero ir quando ele estiver bem, trabalhando, se sustentando, casado etc. e tal; num cenário em que eu possa dizer, “sim, fiz a minha parte e posso ir em ‘paz’”. Não há remédio para exaustão, disse a Dolores, e ela me questiona sobre essa fadiga sobre-humana. Já apresentei todos os argumentos que refutam a ideia de fadiga, tem a ver mais com o fato de estar esgotado para simplesmente resistir aos infortúnios. Veja bem: há um mês recebi uma cobrança de R$ 2.500,00, feita por um escritório de advocacia, uma despesa extraordinária por “termos” sido vencidos numa ação coletiva da qual sequer pedi para fazer parte. Simplesmente coloquei no fundo de uma gaveta. Não posso olhar sem passar dias em claro pensando na safadeza humana, na aptidão de passar a perna uns nos outros, no castigo que é conviver com seres assim. Meu digno pai dizia que não era desse mundo. Não era santo, nem nada; pelo contrário, era ateu. É que ele – e eu – não se sentia parte do sistema, desse todo mesquinho. Faz um mês que não falo com a Dolores. Na nossa última conversa, ela falou que lavaria as mãos comigo, e eu a retruquei, com certa raiva, que “para esse meu mal não há cura”. Ela tacou o telefone na minha cara. E ainda sou perturbado pelo fardo de ter de (mentir) vestir uma fantasia de paizão maior legal para meu filho não perceber o desastre da minha vida. Nesses meses ele tem querido estar mais comigo, porque o clima na casa da mãe não anda bom. Declarou que precisa estudar para o vestibular e que seja num ambiente tranquilo. Veja só, ele quer ser médico. Quiçá um médico humano, amigo, é a isso que eu o incentivo. Pode ser uma redenção. Mas, sinceramente, ainda não sei no que vai dar. Acho que ele já tem idade para saber da minha morte em vida. Odeio mentir. Era para lhe poupar. Quem sabe, depois do vestibular. E ele virá, um dia, com mais um prognóstico de cura?




Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, e em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir — sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram: @adrianoespindolasantos | Facebok:adriano.espindola.3 email: adrianoespindolasantos@gmail.com