Fotografia de Carlos Monteiro
Aromas cariocas
O Rio também se fotografa pelo nariz. Basta
fechar os olhos. A cidade aparece. Primeiro, o sal. Esse cheiro de mar que
chega sem pedir licença, invade a orla, passeia pelas calçadas de Ipanema e
deixa na pele uma lembrança de maresia. Mistura-se ao protetor solar, à areia
quente, ao mate gelado e ao biscoito de polvilho. Cheiro de verão. Mesmo quando
o calendário diz inverno.
Há um Rio que desperta pelo aroma. Nas
primeiras horas da manhã, o orvalho ainda repousa sobre as folhas. A terra
úmida respira. Na Floresta da Tijuca, a Mata Atlântica exala seus perfumes
escondidos: folhas molhadas, cascas, raízes, flores discretas. Um cheiro verde,
profundo, quase ancestral. Ali, a cidade parece esquecer que existe asfalto. A
floresta guarda um pedaço significativo da natureza brasileira dentro da
metrópole. É sombra, frescor e vida. Uma imensa fotografia em tons de verde,
revelada pela umidade da madrugada.
Mais abaixo, nas ruas, outros aromas
anunciam o dia. O café recém-passado escapa das padarias. O pão quente perfuma
a esquina. Há manteiga derretendo na chapa, queijo tostado, pão na chapa e o
cheiro inconfundível do café com leite servido no balcão. O carioca pode até
sair apressado, mas há aromas que conseguem fazê-lo parar.
Nas feiras livres, a cidade ganha tempero. Coentro,
salsa, cebolinha. Pimentas. Alho. Gengibre. O perfume das ervas se mistura ao
das frutas maduras. Laranjas abertas pelo sol, mangas doces, abacaxis
recém-cortados. O cheiro da feira é colorido. Tem vermelho, amarelo, verde. É
como se a natureza tivesse decidido fazer uma exposição a céu aberto, sem
molduras nem paredes.
Entre uma barraca e outra, a memória também
circula. O pastel fritando no óleo quente. O caldo de cana moído na hora. O
peixe fresco. A conversa do feirante. Tudo se mistura numa alquimia que não
cabe em laboratório. É cheiro de rua. De gente. De cidade viva.
E há o perfume dos almoços cariocas. O alho
dourando na panela. O feijão que cozinha devagar. O arroz soltinho. A couve
refogada. A farofa. A laranja cortada para acompanhar a feijoada de sábado. Nos
quintais e nas cozinhas, o cheiro atravessa janelas e corredores, desperta
apetites e convoca lembranças. Há aromas que alimentam antes mesmo da primeira
garfada.
À tarde, o vento muda. Traz o perfume das
amendoeiras, das mangueiras, das flores escondidas nos jardins. Depois da
chuva, o asfalto molhado ganha voz própria. A terra exala seu hálito antigo. As
pedras da calçada parecem respirar. E a cidade, por alguns instantes, cheira a
recomeço. No fim do dia, a brisa marinha volta a dominar a paisagem. Nos
botequins, o aroma dos petiscos fritos mistura-se ao da cerveja gelada, do
limão espremido, da conversa sem hora para acabar. Há alho, cebola, pimenta e
cheiro de churrasquinho na calçada. O Rio noturno também se reconhece pelo
nariz.
Talvez seja isso que torne a Cidade
Maravilhosa tão inesquecível. Seus cheiros não ficam presos a um lugar. Viajam.
Entram na memória. Reaparecem muitos anos depois, quando um café, uma fruta ou
uma rajada de maresia nos devolve uma rua, uma pessoa, um instante. O fotógrafo
guarda a luz. O cronista guarda as palavras. Mas há lembranças que dispensam
imagens e frases. Basta um aroma. Porque o Rio tem cheiro de mar, de mata, de
feira, de café, de chuva e de comida feita com afeto. Tem cheiro de natureza e
de concreto. De manhã e de noite. De infância e de saudade. A Cidade
Maravilhosa não se limita a ser vista. Ela se respira. E, quando seus aromas
ficam guardados dentro da gente, o Rio continua presente. Mesmo longe do mar.
Mesmo distante da floresta. Mesmo quando a vida nos leva para outras paisagens.
Há cidades que a gente visita. O Rio, a gente inspira. E nunca mais esquece.
Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade.





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