Dois poemas de Gabriela Gonçalves

 

Foto:  Carlos Monteiro

A BURGUESIA


Em uníssono:

esse povo

que come restos e rastros

sai do esgoto 

como ratos


cadê o estado 

ausente

para dar nessa gente

 um trato decente?


isso não me pertence


levanto muros

blindo carros

porto armas

respiro riqueza

invisto na bolsa


voto no meu umbigo





A APOSENTADA



Dona Cida dos Santos, cardíaca, aposentada com salário mínimo, precisa fazer marmita para aumentar a renda familiar. Dona Cida empresta seu cartão de crédito para todos: filhos, netos, vizinhos e parentes, e eles até acertam no dia certo. Dona Cida é crente, acreditou na palavra do pastor, votou no impostor. Ela não sabia o significado de fascista, nem de milícia, mas era importante estar à direita de Deus. No novo ano, depois de um mês, novas leis: não tem SUS para tratar seu coração, seu salário indexado foi ao chão e cancelaram seu cartão. Todo mundo se ferrou. A família não gostou. Tiraram a bandeira verde amarela da porta e da janela. Abandonaram dona Cida, foram em romaria para Aparecida. 

Ela (a santa ) não estava lá 




Gabriela Gonçalves é mineira de Belo Horizonte, onde se formou em odontologia e é pós-graduada em acupuntura. Poeta, escritora, lançou em 2025 seu primeiro livro de poesias, "Palavras Prenhas", pela editora Literíssima. E, no mesmo ano, "O silêncio contido nos abismos", pela Inmensa Editorial, além de participar de diversas antologias poéticas.