por Taciana Oliveira |
Em 18 narrativas, a escritora e psiquiatra aborda relações familiares, preconceito, perdas e as consequências de experiências que permanecem vivas na memória.
Em 18 narrativas, a escritora e psiquiatra aborda relações familiares, preconceito, perdas e as consequências de experiências que permanecem vivas na memória.
As relações humanas, com suas contradições, fragilidades e acontecimentos inesperados, são o ponto de partida de "Flor azul e outros contos", da escritora, psiquiatra e psicoterapeuta junguiana Fabíola Luz. Publicado pela Ilíada Editorial, o livro reúne 18 histórias que exploram conflitos familiares, envelhecimento, desigualdades, disputas profissionais e a dificuldade de lidar com experiências do passado.
A autora parte de situações aparentemente comuns para desenvolver narrativas. Em “No quintal”, Dona Zefa enfrenta as dificuldades de criar os filhos sem a presença do pai e o sentimento de culpa alimentado pelas cobranças sociais. Já em “As abelhas”, a médica Valentina se depara com o preconceito relacionado à idade, inclusive no exercício da profissão. São histórias que expõem comportamentos e julgamentos muitas vezes naturalizados nas relações cotidianas.
O fantástico e a ironia também encontram espaço na obra. Em “Instintos”, uma reunião de executivos de uma empresa de agroquímicos revela a competição e o medo diante da ameaça de demissões, enquanto os animais que acompanham os personagens reproduzem, de maneira simbólica, seus impulsos mais agressivos. No conto “Flor azul”, que dá título ao livro, as lembranças de uma relação amorosa ultrapassam os limites da vida e da morte.
A experiência de Fabíola Luz na psiquiatria contribui para sua percepção dos conflitos, mas não determina os caminhos de sua literatura. Na entrevista concedida à Mirada, a escritora explica que as ideias surgem espontaneamente e que a liberdade da ficção prevalece durante o processo criativo. Também comenta como experiências pessoais, relatos e situações observadas no cotidiano inspiraram histórias sobre maternidade, etarismo, comportamento e memória.
Com uma escrita que alterna realismo, fantasia e observação psicológica, "Flor azul e outros contos" apresenta personagens confrontados por circunstâncias que os obrigam a reconsiderar suas escolhas, seus afetos e a maneira como compreendem a própria existência.
Leia a entrevista completa na Mirada e descubra o que a autora revela sobre o processo de criação, as inspirações e os temas de "Flor azul e outros contos".
1 - Em "Flor azul e outros contos", você apresenta personagens que enfrentam perdas, conflitos familiares, inseguranças e situações que os obrigam a rever suas escolhas. Como sua experiência como psiquiatra e psicoterapeuta junguiana influencia a criação dessas personagens? Em que momento o olhar clínico dá lugar à liberdade da ficção?
A minha experiência como psiquiatra e psicoterapeuta junguiana influencia os personagens às vezes, principalmente no direcionamento do enredo. A ideia nasce sozinha e vai tomando o seu rumo. No decorrer da trama, aparecem vários aspectos dos personagens, espontaneamente. Às vezes são pedaços de histórias que ouvi nos relatos de pacientes. Diria que, no processo da escrita, a liberdade da ficção é preponderante. A experiência clínica faz alguns ajustes apenas nas releituras necessárias, antes do final.
2 - No conto “No quintal”, Dona Zefa enfrenta as dificuldades de sustentar a família e a culpa diante dos problemas de um dos filhos. A narrativa também revela como a sociedade costuma responsabilizar as mães pelos caminhos escolhidos pelos filhos. O que a levou a abordar essa relação entre maternidade, ausência paterna e culpa?
O conto “No quintal” foi inspirado na mulher brasileira, guerreira, que enfrenta a batalha de criar e sustentar os filhos sozinha. Esse é um cenário muito comum no nosso meio. Diria que ‘o pai’ é ausente na cultura brasileira. A mãe, por outro lado, de qualquer parte, sempre sente culpa. Ela tem uma ideia daquilo que seria o ideal a oferecer ao filho, e claro, mãe nenhuma alcançará essa perfeição, então se culpa. Isso piora muito quando ela está sobrecarregada com outras funções, pela ausência paterna. O conto traz uma esperança, na medida em que o personagem Nando constrói o pai no espaço íntimo da família, o quintal, mostrando também que essa função paterna pode ser desenvolvida no futuro, em alguma geração.
3 - Em “As abelhas”, a médica Valentina enfrenta o preconceito relacionado à idade, inclusive no exercício da profissão. A partir dessa personagem, você aborda uma forma de discriminação muitas vezes naturalizada. O que despertou seu interesse pelo etarismo e como você observa seus efeitos sobre a identidade e a autoestima das pessoas?
Em “As abelhas”, quis trazer à tona o tema do etarismo. Meu interesse apareceu por mim mesma e por minha geração, que vive situações parecidas. A cena da farmácia eu mesma presenciei. E dali veio a ideia do conto. Os efeitos do etarismo sobre a autoestima das pessoas são avassaladores. Essa pressão é tão forte no nosso meio que, muitas vezes, em conversas, as colegas, ou mesmo minhas pacientes, começam o discurso colocando ‘a velha’ antes de qualquer consideração sobre a vida.
4 - O livro navega entre situações cotidianas e acontecimentos fantásticos. Em “Instintos”, por exemplo, uma reunião de executivos de uma empresa de agroquímicos revela tensões profissionais, interesses econômicos e comportamentos que encontram paralelo nas reações dos animais. Por que você escolheu recorrer ao fantástico e à ironia para abordar questões sociais e aspectos do comportamento humano?
Recorri ao fantástico porque não são quaisquer aspectos do comportamento humano. São aspectos instintivos, e nada melhor do que os animais para representá-los. No caso, esses aspectos dizem respeito à competição maciça e à sobrevivência ameaçada, conforme é discutido no conto. Quanto mais ameaçado se encontra o ser humano, mais os aspectos instintivos aparecem no seu comportamento, muitas vezes de modo bestial, avassalador.
5 - No conto “Flor azul”, que dá título ao livro, a memória de uma relação amorosa ultrapassa os limites da vida e da morte. Em outras histórias, o passado também permanece presente, influenciando sentimentos e decisões. O que a levou a explorar essa relação entre memória, afetos e finitude? E por que escolheu justamente “Flor azul” para representar o conjunto dos 18 contos?
Porque muitas vezes tem-se a impressão de que certas histórias não terminam com o tempo, nem sequer com a morte. “Flor azul” deu nome ao livro por sugestão do meu mentor de escrita na época, que considerou esse o melhor conto entre os 18, em termos literários.
Fabiola Luz é médica pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e doutora em Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo (USP). Em consultório, trabalha como psiquiatra e psicoterapeuta de orientação junguiana. Como escritora, publicou os livros “Entendendo a Depressão”, “A história de Tobias – um estudo sobre o animus e o pai”, “Abandono, Vício e Preconceito”, “O apego dos adictos – uma visão evolucionista”, “Minha mãe e a mãe dos outros”, “Kiá, a gaivota” e Flor azul e outros contos.. Instagram: @fabiola.luz.psiquiatra | Site: www.fabiolaluz.com.br
FICHA TÉCNICA
Título: Flor azul e outros contos
Autora: Fabiola Luz
Editora: Ilíada Editorial
ISBN: 978-65-5563-647-5
Páginas: 115
Preço: R$ 45 (físico)
Onde comprar: Amazon | LF Editorial
*Taciana Oliveira – natural de Recife (PE), é bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, diretora e produtora cinematográfica, é criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada Janela Cultural, além de coordenar o Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário Clarice Lispector – A Descoberta do Mundo e integra a direção do longa-metragem de ficção O Rio de Clarice, no qual assina o segmento Amor. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.



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