Clara Chotil lança Tekoha no Brasil e fala sobre território, ancestralidade e resistência indígena


A quadrinista franco-brasileira Clara Chotil está no Brasil para apresentar
Tekoha, publicado pela Editora Veneta. Inteiramente pintada em acrílico, a obra acompanha a história de três gerações de duas famílias no Mato Grosso do Sul e aborda a colonização, as expulsões territoriais e a resistência dos povos guarani-kaiowá.

Em entrevista, a autora fala sobre os encontros que deram origem ao livro, os desafios de narrar essas experiências e os aprendizados que transformaram sua compreensão sobre a relação entre os povos indígenas e a terra.

Confira a programação dos próximos encontros com a autora:

São Paulo – SP
22 de outubro, às 19h
Loja Monstra
Bate-papo e sessão de autógrafos.

Belo Horizonte – MG
6 de novembro, pela manhã
FIQ – Feira Internacional de Quadrinhos
Mesa com Clara Chotil e Evandro Alves.

Leia a entrevista completa com Clara Chotil e conheça os bastidores da criação de Tekoha.

1. O título Tekoha remete a uma compreensão do território que não se limita à posse da terra, mas envolve memória, ancestralidade, identidade e modos de vida. Durante suas viagens e encontros com comunidades indígenas no Mato Grosso do Sul, o que você descobriu sobre esse conceito que transformou sua própria maneira de compreender a relação entre as pessoas e o lugar onde vivem? 

A cosmologia guarani-kaiowá foi uma descoberta total para mim. Quando estamos imersos na sociedade ocidental, não é fácil questionar profundamente nosso próprio modo de vida: de onde ele vem, quais são seus fundamentos, o que o justifica... Aprender sobre a cosmologia guarani-kaiowá agiu para mim, nesse sentido, como um espelho. Me interessei a escritos sobre a colonização, entendendo que essa questão não é periférica, e sim constitutiva da nossa sociedade. Enfrentá-la exige uma revisão profunda da maneira como vivemos e nos relacionamos com o mundo. Diante das mudanças climáticas, sabemos que essa transformação é inevitável. Como incorporar esses aprendizados sem perder de vista nossas próprias realidades sociais e econômicas? Não tenho uma resposta simples. Mas acredito que podemos escutar os povos guarani-kaiowá e nos inspirar em seus conhecimentos e saberes.

2. A história de Tekoha atravessa diferentes períodos de violência colonial, expulsões e resistência dos povos indígenas. Como você trabalhou os relatos de Ana e Jorge para transformar essas experiências em uma narrativa em quadrinhos? Quais foram os maiores desafios de contar histórias que pertencem a outras pessoas, respeitando suas vozes e perspectivas? 

Para mim, estava claro que uma história como essa exigia uma forma narrativa polifônica. O tema é vasto, a história é complexa e densa, e só podemos dar conta de alguns de seus fragmentos. Queria que esses fragmentos fossem apresentados por meio de uma galeria de personagens. Ao mesmo tempo, continuo sendo a autora, e tudo o que enceno será necessariamente atravessado pelo meu olhar. Por isso, era importante criar também uma personagem próxima de mim e do meu ponto de vista, que acaba tendo mais espaço de fala. Assim, construí uma galeria de personagens que se articulam em torno de dois protagonistas: Ana, filha de colonos nordestinos, e Jorge, de uma família guarani-kaiowá. Cada um deles interroga seus familiares, especialmente os pais e os avós, que lhes revelam fragmentos da história nos quais mergulhamos com eles. Também era importante transmitir a velocidade impressionante com que o território foi transformado, acompanhando o ritmo das gerações. Os primeiros colonos ainda estão vivos: pertencem à geração dos nossos avós. A narrativa acompanha, portanto, a trajetória de três gerações dessas duas famílias, cujos destinos se cruzam e se entrelaçam ao longo do tempo.

3. O que a levou a escolher a pintura em acrílico como linguagem visual de Tekoha? Como as cores, as paisagens e os elementos gráficos contribuem para transmitir a relação dos povos guarani com seu território, suas tradições e sua espiritualidade? 

Percebi que os habitantes da região, sejam eles guarani-kaiowá ou descendentes de colonos, falam da terra com muito afeto, com amor. Queria transmitir esse sentimento por meio das imagens e das cores. O Mato Grosso do Sul é marcado por uma luz muito intensa, e a natureza tem cores fortes, francas, vibrantes. Queria que essa intensidade estivesse presente no livro.

Também buscava criar uma obra imersiva, na qual o verdadeiro protagonista fosse o próprio território e sua transformação ao longo do tempo, mais do que os personagens individualmente. A pintura em acrílico me permitiu pintar em formatos muito grandes. Algumas passagens formam afrescos quando colocamos as páginas lado a lado. Acredito que essa sensação de amplitude e imersão permanece, mesmo quando a obra é transposta para o formato do livro.

4. Você nasceu na França e já abordou personagens e episódios da história brasileira em Ópera Negra, sobre a cantora Maria d’Apparecida. Agora, em Tekoha, volta seu olhar para as lutas indígenas no Mato Grosso do Sul. O que despertou seu interesse por essas histórias brasileiras? Como sua experiência entre os dois países influencia as escolhas dos temas que investiga? 

Como não moro no Brasil, minha ligação com o país se dá por meio da minha família e das comunidades brasileiras que vivem no exterior. É uma conexão que precisa ser cultivada ativamente, como resultado de uma escolha: meu cotidiano europeu não me conecta automaticamente com a realidade brasileira. Nos meus trabalhos mais recentes, decidi transformar meu espaço de criação e pesquisa em um lugar de exploração dessa conexão. Esse desejo não surgiu do nada. Minha mãe plantou as sementes dessa atenção à transmissão: por um lado, investigou a história de seus próprios pais; por outro, cuidou de nos transmitir a língua, a história e a cultura brasileiras, mantendo vivos os laços familiares por meio de inúmeras viagens.

Meu trabalho também é uma tentativa de responder a uma pergunta: o que fazemos com esse tipo de herança quando pertencemos à segunda geração? Tenho percebido que é bastante comum que justamente essa segunda geração passe a investigar, escrever e pesquisar, fazendo com que sua herança continue viva por meio de uma obra, seja ela de que natureza for.

5. A disputa pelos territórios indígenas permanece atual no Brasil, especialmente diante das pressões econômicas e dos conflitos ambientais. Ao apresentar Tekoha ao público brasileiro, que reflexões você espera despertar sobre a colonização, os direitos dos povos originários e a responsabilidade da sociedade diante dessas questões? 

Essa é, de fato, uma questão muito sensível. O território sobre o qual falo é palco de violências que continuam acontecendo hoje: assassinatos, ataques, ameaças. Os Guarani-Kaiowá vivem sob ameaça constante e não têm outra escolha senão permanecer em luta ativa, simplesmente para garantir seu direito de existir.

Essas questões precisam estar presentes em todos os espaços, inclusive no da história em quadrinhos. Mas também é importante compreender que a história dos tekoha e das retomadas não é apenas uma história de violência. Ela constitui um campo muito rico de aprendizagem para todos nós. Podemos aprender a repensar nossa relação com a terra e com os recursos naturais, assim como nossas formas de habitar o mundo. Podemos também aprender sobre luta e resistência, pois os povos Guarani-Kaiowá possuem uma longa experiência nesse campo. Suas trajetórias nos ensinam não apenas sobre a violência colonial, mas também sobre a capacidade de se organizar coletivamente e de resistir.



Clara Chotil (nascida em 1992, em Paris, França) é artista visual, pesquisadora e autora de histórias em quadrinhos. Arquiteta de formação, é co-fundadora do coletivo Dynamorphe, com o qual desenvolveu arquiteturas aéreas. Mais tarde, retorna ao desenho por meio do teatro, realizando performances gráficas ao vivo com o coletivo F71 e, posteriormente, com a Colonie Bakakaï. Formou-se em histórias em quadrinhos na École européenne supérieure de l’image, em Angoulême, na França, e atualmente é doutoranda em pesquisa-criação na Universidade Paul-Valéry Montpellier 3. Clara é autora de Ópera Negra (Actes Sud, 2022/ Veneta, 2023), que narra a vida da cantora brasileira Maria d’Apparecida, e de Le Blanc du drapeau (com roteiro de Julie Scheibling, Albin Michel, 2026), uma investigação ficcional sobre os desdobramentos da extrema direita francesa.