O Recife de Lolita: memória, transgressão e resistência no romance de Cícero Belmar

por Taciana Oliveira | 



“Quem não conhece Lolita não conhece o Recife”, recria a trajetória de uma figura irreverente e revisita, entre humor, preconceito e resistência, a vida de quem desafiou os costumes de uma cidade que nem sempre soube conviver com suas diferenças
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Há personagens que sobrevivem ao tempo pela grandeza de seus feitos. Outros permanecem na memória coletiva porque desafiaram as convenções de sua época. Lolita pertence a essa segunda categoria. Figura conhecida nas ruas do Recife entre as décadas de 1950 e 1980, Ivo Alves da Silva, homem negro, homossexual, pobre e de temperamento explosivo, transformou sua existência em um permanente confronto com os códigos morais de uma sociedade que pouco espaço reservava àqueles que ousavam viver fora de suas regras. É essa personagem, cercada de histórias, contradições e episódios que atravessaram gerações, que o escritor e jornalista Cícero Belmar recupera no romance "Quem não conhece Lolita não conhece o Recife", publicado pelo Selo Mirada em 2026. 

Diante da escassez de documentos e testemunhos sobre a vida de Lolita, Belmar recorre à ficção para preencher as lacunas deixadas pelo tempo. O próprio autor esclarece que apenas 5% da história corresponde a registros reais. Os demais acontecimentos são resultado de um trabalho de recriação que combina pesquisa histórica, observação social e imaginação. É nessa liberdade de criação que se encontra um dos maiores acertos do livro. Sem se prender aos limites de uma biografia documental, Belmar restitui a Lolita a complexidade de uma existência feita de desejos, afetos, conflitos e contrassenso. A personagem deixa de ser somente uma lembrança curiosa das ruas do Recife e passa a ocupar, com todas as suas imperfeições, o lugar de protagonista de sua própria história.

O autor escolhe apresentar Lolita através de uma entrevista. Desde as primeiras respostas, a personagem revela seu temperamento irreverente, a língua afiada e a disposição para falar de si sem constrangimentos. Suas lembranças se misturam a provocações, comentários sarcásticos e episódios narrados com um humor que desafia até mesmo as situações mais adversas. Ao lhe conceder a palavra logo nas páginas iniciais, Belmar permite que o leitor conheça Lolita por sua própria versão dos acontecimentos, sem a interferência de quem pretende explicá-la ou enquadrá-la. É uma escolha narrativa acertada: antes de ser apresentada enquanto figura lendária do Recife, Lolita surge como alguém que reivindica o direito de contar a própria história. 

Não há complacência nem qualquer esforço para conquistar a simpatia de quem a escuta. Lolita fala com o orgulho de quem enfrentou humilhações sem abrir mão da própria irreverência. A idade, a pobreza e o distanciamento dos tempos em que era reconhecida pelas ruas do Recife não lhe retiram o humor mordaz ou a disposição para desafiar seus interlocutores. Ao contrário, suas palavras deixam entrever alguém que conhece o peso das experiências e parece pouco disposta a pedir licença para ocupar seu lugar. 

A relação de Lolita com a própria identidade é outro aspecto relevante do romance. Em uma época de rígidas convenções sobre gênero e sexualidade, ela rejeitava a obrigação de se definir exclusivamente como homem ou mulher. Essa postura contrariava os padrões morais do Recife de então e despertava reações que iam da hostilidade à violência. As agressões, as abordagens policiais e a discriminação faziam parte de seu cotidiano, revelando o tratamento dispensado a quem não correspondia às expectativas sociais daquele período na memória da cidade.

Um dos méritos de "Quem não conhece Lolita não conhece o Recife" está na decisão do autor de transformar em romance a trajetória de alguém cuja história sobreviveu principalmente em relatos dispersos e lembranças de quem conheceu o Recife de outras décadas. Diante da escassez de registros, o escritor não pretende apresentar uma biografia definitiva. Prefere explorar as possibilidades da ficção, sem perder de vista o contexto histórico e social em que Lolita viveu.

A distinção entre realidade e invenção é assumida desde o início da obra. Belmar não reivindica a precisão de um historiador, mas procura atribuir credibilidade à narrativa através da caracterização das personagens, da linguagem popular e da recuperação de hábitos, ambientes e episódios do cotidiano recifense. O cuidado com esses elementos permite que a história imaginada converse com uma realidade reconhecível, sem confundir criação literária com registro documental.

Com essa abordagem, o romance não se limita à trajetória individual de Lolita e oferece ao leitor um retrato das relações sociais, dos preconceitos e das formas de convivência no Recife entre as décadas de 1950 e 1980. A experiência de uma pessoa negra, pobre e homossexual ganha espaço em uma narrativa que examina as desigualdades da capital pernambucana e questiona por que determinadas figuras permanecem na memória coletiva enquanto outras desaparecem dos relatos oficiais.

No prefácio, o poeta, professor, escritor Raimundo de Moraes destaca o trabalho de Cícero Belmar ao recuperar uma figura que, apesar da notoriedade nas ruas do Recife, deixou poucos registros sobre sua trajetória. Conhecida pelas brigas, provocações e comportamento irreverente, Lolita ganha no livro uma história que vai além dos episódios que alimentaram sua fama. O escritor procura compreender quem era a pessoa por trás da personagem pública, suas relações afetivas, as dificuldades de sobrevivência e os conflitos com uma sociedade pouco tolerante às diferenças.

Publicado em 2026, "Quem não conhece Lolita não conhece o Recife" também permite revisitar questões que permanecem atuais, como a discriminação racial, a violência contra pessoas LGBTQIAPN+ e a exclusão social. A história de Lolita mostra que o enfrentamento às normas de gênero e sexualidade não começou com os debates recentes. Décadas antes de essas reivindicações alcançarem maior visibilidade, Lolita e tantas outras pessoas já contrariavam convenções e enfrentavam as consequências de suas escolhas. 

Ao longo das 425 páginas, Belmar combina diálogos bem-humorados, personagens de diferentes origens sociais e referências à vida cultural recifense. A narrativa explora as contradições de Lolita, sem tentar transformá-la em heroína exemplar. Sua agressividade, suas atitudes provocadoras e vulnerabilidades convivem no mesmo retrato, atestando credibilidade à personagem.

Longe dos cartões-postais e das versões idealizadas da cidade, Belmar percorre pensões, bares, cinemas e ruas frequentadas por trabalhadores pobres, prostitutas, marinheiros e outros personagens pouco presentes nos relatos tradicionais. São espaços e experiências que ajudam a compreender tanto a trajetória de Lolita quanto a sociedade em que ela viveu.

Ao escolher o protagonismo dessas personagens, Belmar recupera um capítulo pouco conhecido da vida recifense e oferece uma leitura que reflete  entretenimento, crítica social e memória urbana. O título do livro, "Quem não conhece Lolita não conhece o Recife", entrega assim uma interpretação bastante concreta: a história de uma cidade também pode ser contada a partir das pessoas que frequentaram suas ruas, desafiaram seus costumes e raramente tiveram a oportunidade de registrar a própria versão dos acontecimentos.


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CONFIRA A ENTREVISTA COM O AUTOR

1. O romance começa pelo desaparecimento de Lolita, em 1988, e só depois retorna ao passado para apresentar a história de Ivo Alves da Silva. Por que você decidiu começar pelo fim e de que maneira essa escolha influenciou a estrutura do livro?

Sim, é verdade. O romance começa pelo fim. Quem conhece a história de Lolita, sabe que ele sumiu. Até hoje não há notícias do seu paradeiro, e esse é um dos mistérios que compõem o interesse pelo personagem. Então, o final real é conhecido e isso deixaria o final desinteressante. Logo, eu teria que trabalhar com esse empecilho. O que também era um desafio para a construção da narrativa. Além disso, e para tornar ainda maior o meu esforço, a história de Lolita é uma biografia ficcional. Como se espera, uma biografia tem começo, meio e fim. E eu queria fugir dessa linearidade. Por isso, antes de começar a escrever, eu tive que planejar a estrutura, para fugir do mesmismo. Investi um tempo me perguntando como a história do livro seria contada de forma a fugir das regrinhas determinadas pelas técnicas. A forma passou a ser tão importante quanto o conteúdo, virou uma estratégia de sedução do leitor.


2. O romance começa com uma entrevista fictícia em que Lolita revela sua personalidade irreverente, provocadora e bem-humorada. Como você desenvolveu a voz desse personagem, especialmente sua maneira de falar, suas expressões e seu modo tão particular de enxergar o mundo?

Existiam dois jornais no Recife para os quais Lolita deu entrevistas. Uma delas foi concedida ao Jornal da Cidade, em 6 de julho de 1975. E a outra, para um jornal de humor, o Rei da Notícia, em outubro de 1983. Essa última foi a base de um texto de Amin Stepple. Eu li as duas. E tive a ideia de fazer uma entrevista fictícia como forma de apresentar o personagem. O meu livro é um romance de personagem, um romance de formação. A entrevista do meu livro é uma ficção e é outro diferencial daquilo que os manuais da técnica recomendam: nela eu digo tudo o que o livro vai contar. O leitor segue lendo pela força de um personagem que é ousado, dramático e engraçado ao mesmo tempo. Preciso sublinhar que a Lolita do meu livro é baseada naquela que existiu. Mas não é a cópia da Lolita que existiu. É uma ficção. Noventa e cinco por cento do livro é mera ficção.


3. Uma das passagens mais interessantes do romance é a transformação de Ivo em Lolita, identidade que ele associa ao cinema de chanchada e à literatura de cordel. Que significado essa mudança de nome adquiriu durante a escrita e o que ela revela sobre a maneira como o personagem desejava ser reconhecido?

Tanto o filme quanto o cordel foram fatos; eu apenas coloquei um molho. Para fazer a transição do nome, eu imaginei o que uma pessoa precisa fazer para matar um mundo. Imaginei as lutas que o indivíduo trava e enfrenta, imaginei as dificuldades para alguém deixar de ser uma pessoa e ser vista como outra, com um novo nome. Esse é um problema de hoje, de pessoas trans, que enfrentam preconceitos, sobretudo junto daqueles que estão mais próximos. Quando uma pessoa muda de nome, é porque já houve uma mudança mais profunda e interna. Para Ivo morrer e Lolita nascer, eu tive que “afastar” Lolita por uns seis anos, numa prisão domiciliar. Mudar de nome equivale a uma revolução.  


4. Rita do Cabelão é uma personagem fundamental na recuperação da história de Lolita. Em uma conversa com o jornalista, ela questiona a própria ideia de verdade e sugere que a invenção também faz parte da maneira como contamos nossas vidas. Como você trabalhou essa relação entre memória, testemunho e imaginação? Em que momento percebeu que as lacunas da pesquisa poderiam se tornar parte da própria narrativa?

Quando iniciei o projeto de Lolita, pensei numa biografia. Mas, quando passei a levantar os fatos, percebi que havia muitas “ilhas” na informação. Faltavam fatos que unissem os acontecimentos e eu não teria como fechar uma biografia por falta de fontes. Então, parti para uma biografia ficcional e assim daria para eu escrever a história. Vista por esse lado, a ficção salvou a memória de Lolita. Com a ficção, eu poderia resgatar o personagem, embora ele deixasse de ser real. O que escrevi não é a Lolita de fato. Eu criei uma Lolita com base nas informações que colhi e no que a minha criatividade ditou. Dei ao personagem uma maneira de ser, uma personalidade. Uma entidade indomável, atrevida, com uma força espiritual e, às vezes, bem humorada.. Talvez algumas pessoas até discordem da Lolita que está nas palavras, mas eu acho que assim eu salvei Lolita de um esquecimento futuro.


5. O livro revela um Recife de cinemas populares, mercados, pensões, bares, casas de prostituição e festas de rua. Personagens como Rita do Cabelão e dona Ninón também ganham histórias próprias. Qual foi a importância dessas figuras femininas na elaboração do romance e o que elas permitiram contar sobre a cidade e a vida de suas populações marginalizadas?

Antes de tudo, quando escrevi Lolita, percebi o quanto cada pessoa, da mais requintada à mais simples, da mais rica à mais pobre, compõe a história de uma cidade. Somos todos parte de uma engrenagem; tudo está interligado. A história de uma cidade é a história das pessoas. Você só resgata a história de uma pessoa se você resgatar também um cenário e uma cidade onde ela esteja inserida. Caso contrário, perde o sentido. Nós estamos para o Recife, assim como o Recife está para nós. Em relação às mulheres, eu sou um escritor que gosta de escrever sobre as mulheres. As figuras femininas determinam o que eu escrevo. Eu gosto de escrever sobre mulheres, a luta de um gay é a mesma luta de uma mulher. No romance, eu trabalho, inclusive, a violência contra as mulheres.


6. No encerramento, em “El Cid pernambucano”, Lolita é comparada a uma figura lendária, embora sua vida tenha sido determinada pela pobreza, pela violência e pela exclusão. Após tantos anos de pesquisa e escrita, quem é Lolita para você? E o que espera que permaneça com os leitores ao terminarem o romance?

No começo do livro, eu falo de um clássico, Lolita, de  Vladimir Nabokov. E, no final, outro clássico, El Cid, o herói espanhol, peça de teatro de Pierre Corneille. Comparo a El Cid porque esse herói morre e o seu cadáver segue no campo de batalha sobre o cavalo, como se o personagem estivesse ainda vivo. E vira uma lenda. Lolita virou lenda urbana. No livro, eu coloquei uma fala em que Lolita diz assim: “O que eu diria se encontrasse Ivo?” E ele mesmo responde: “Eu perguntaria a ele: o que dizer dos covardes?”. Lolita é destemor, coragem, um guerreiro.




Cícero Belmar nasceu em Bodocó, no Sertão de Pernambuco, em 1963. Jornalista, escritor e dramaturgo, é membro da Academia Pernambucana de Letras, onde ocupa a cadeira 33 desde 2017. Trabalhou em veículos como Diário de Pernambuco, Jornal do Commercio e Jornal do Brasil. Sua produção literária reúne romances, contos, crônicas, biografias, obras infantis e peças teatrais. Entre seus livros estão Umbilina e sua grande rival, Rossellini amou a pensão de Dona Bombom, O livro das personagens esquecidas e Ainda há uma brisa. Recebeu duas vezes o Prêmio Literário Lucilo Varejão e o Prêmio de Ficção da Academia Pernambucana de Letras. Em 2026, publicou pelo Selo Mirada o romance "Quem não conhece Lolita não conhece o Recife”.


 

*Taciana Oliveira – natural de Recife (PE), é bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, diretora e produtora cinematográfica, é criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada Janela Cultural, além de coordenar o Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário Clarice Lispector – A Descoberta do Mundo e integra a direção do longa-metragem de ficção O Rio de Clarice, no qual assina o segmento Amor. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.