Peter Peuker revisita 76 anos de histórias entre a imigração, a engenharia e a literatura

 por Taciana Oliveira | 

Montagem realizada com IA

Peter Peuker: entre a memória, a imigração e as muitas paisagens do Brasil

Nascido em Viena, na Áustria, Peter Istvan Wilhelm Peuker chegou ao Brasil aos três anos, acompanhado dos pais, que buscavam reconstruir a vida após a Segunda Guerra Mundial. Foi no Rio de Janeiro dos anos 1950, entre as ruas do Leblon, as brincadeiras de infância e as amizades de bairro, que encontrou seu lugar no mundo. Hoje, aos 76 anos, o engenheiro civil e pintor autodidata revisita essa trajetória em Aventura Tropical (Novo Arco Design & Editorial), seu primeiro livro.

Ao longo de 560 páginas, Peter recupera lembranças familiares, experiências pessoais e episódios de uma carreira que o levou a diferentes regiões do país. Formado em engenharia civil em 1973, participou de obras como a Ponte Rio-Niterói, o Projeto Grande Carajás e empreendimentos ferroviários e portuários no Maranhão. A convivência com diferentes paisagens e populações brasileiras ampliou sua percepção sobre um país que, segundo ele, reúne enormes contrastes culturais, naturais e sociais. A escrita nasceu de uma inquietação diante da finitude e da possibilidade de desaparecimento das histórias familiares. Durante quatro anos, Peter reuniu lembranças que ultrapassaram sua própria existência e o levaram a recuperar também as trajetórias dos pais. Entre elas, a de Ilona Peuker, responsável por introduzir e difundir a ginástica rítmica no Brasil.

Embora tenha nascido na Áustria, Peter conta que sempre se sentiu brasileiro. Na infância, fazia questão de ser chamado de Pedro, numa tentativa de aproximar o próprio nome do universo ao qual pertencia. Sua identidade foi sendo formada nas relações cotidianas, especialmente entre os amigos da infância, que lhe ensinaram desde a língua portuguesa até os primeiros códigos de convivência. A experiência da imigração ocupa um lugar importante no livro. Para Peter, a palavra que melhor traduz esse movimento é recomeçar. Ao recuperar a história de sua família, ele também chama a atenção para a diversidade de origens que contribuíram para a formação da sociedade brasileira.

Pintor autodidata desde 1969, Peter encontrou na literatura outra maneira de registrar experiências e sentimentos. Escrito em linguagem leve, com passagens de humor, Aventura Tropical percorre transformações sociais, culturais e tecnológicas de diferentes épocas, sem perder de vista as pessoas e os encontros que deram sentido à sua trajetória. Na entrevista à Mirada Janela Cultural, Peter Peuker fala sobre a construção de suas memórias, a infância no Leblon, as experiências nas grandes obras de engenharia e o significado de pertencer a um país. Também reflete sobre a imigração, as amizades e o desejo de transformar suas lembranças em histórias capazes de atravessar gerações.

1. A ideia de escrever Aventura Tropical surgiu de uma reflexão sobre a finitude e o risco de as histórias familiares desaparecerem com o passar das gerações. Como foi revisitar 76 anos de lembranças para transformá-las em um livro?

Foi bastante interessante, pois com o andamento das lembranças, cheguei a conclusão que deveria iniciar o livro com as histórias de meus pais, antes mesmo das minhas, em que acabei revisitando mais que 76 anos. Foi muito prazeroso revisitar estes anos todos.

2. Você chegou ao Brasil aos três anos de idade, vindo de uma família austríaca que buscava reconstruir a vida após a Segunda Guerra Mundial. Ao longo do livro, a questão do pertencimento aparece em diferentes momentos. De que forma você compreende hoje sua identidade e o que significa sentir-se brasileiro sem perder os vínculos com suas origens?

Na verdade, sempre me senti um brasileiro, tanto que quando era criança, fazia questão de ser chamado de Pedro, mas o meu nome real sempre me denunciava, era interessante, pois quando as pessoas me conheciam não notavam que eu era estrangeiro, só quando viam o meu nome, ficavam um pouco curiosas. O vínculo com as origens perdi logo, tanto que sempre que visitei a Áustria, tentava descobrir esta química, e não a encontra.

3. Em Aventura Tropical, você recupera o Leblon dos anos 1950, as brincadeiras de rua, os cinemas, as relações de vizinhança e as diferenças sociais que já faziam parte do cotidiano. Ao revisitar essas lembranças, que mudanças no Rio de Janeiro mais chamaram sua atenção e o que você sente falta daquela cidade?

O Leblon dos anos de 1950 foi o nosso grande playground, e foi essa turma de garotos,a esquina, que nos forjou. Foi com eles que aprendi a falar português, pegar onda na praia, como me defender dos outros garotos, como conquistar uma menina, e aí por diante. Também percebi na construção deste livro, que o que somos é o que os amigos nos ajudam a perceber e a forjar o nosso jeito de ser.  No lançamento do livro, que foi numa livraria no Leblon, meu amigo daquela época, o Álvaro, definiu bem – “sim uma relação verdadeira e despretensiosa, o bem pelo bem”

4. Sua carreira como engenheiro civil permitiu conhecer diferentes regiões do Brasil e participar de obras importantes, como a Ponte Rio-Niterói e o Projeto Grande Carajás. Além dos desafios profissionais, essas experiências proporcionaram encontros com pessoas e realidades muito distintas. De que maneira essa convivência modificou sua percepção sobre o país e seus habitantes?

Realmente, como se diz na construção, rodei muito trecho, como verdadeiro pião de trecho. O Brasil é um país muito incrível, a gente esquece que é um enorme continente, com suas grandes diferenças culturais e naturais. Eu sempre tive uma grande curiosidade pelo desconhecido e isto me ajudou bastante, pois no início era a solidão e terminava com a festa de inauguração e as novas amizades. Acho que o grande desafio do Brasil, e descobrir o “por que” que certas regiões não conseguem se desenvolver ou se desenvolvem muito devagar.

5. Você também é pintor autodidata e compara a escrita do livro ao processo de criação de uma pintura. Como a experiência com as artes visuais influenciou sua maneira de organizar as lembranças e narrar os acontecimentos? E o que você espera que os leitores encontrem em Aventura Tropical, para além da história de sua própria vida?

Acredito que o fato de eu pintar, naquele momento do início da tela, a ação vira contemplação, algo mais intimista, e demonstra muito como você está se sentindo. Tento também trazer a tona, um assunto hoje muito combatido no mundo, que é a imigração, que sempre fez parte da história da humanidade, cuja palavra que melhor explique seja recomeçar. O Brasil é um exemplo evidente desta imigração, onde há um pouco de português, africano, indígena, italiano, alemão, japonês, árabe, espanhol, polonês, austríaco, húngaro, francês, holandês e tantas outras origens.  Este meu livro, apesar de atravessar muitas mudanças ocorridas em nosso planeta, foi escrito numa linguagem leve com toques de humor, com o intuito de divertir o leitor.



Peter Istvan Wilhelm Peuker nasceu em Viena, na Áustria, em 1949, e chegou ao Brasil aos três anos de idade. Engenheiro civil formado em 1973, atuou em obras de grande porte como a Ponte Rio-Niterói e o Projeto Grande Carajás, além de projetos de infraestrutura e terminais marítimos em diferentes regiões do país. Também é pintor autodidata desde 1969 e realizou exposição individual no Museu de História Natural de Corumbá. Atualmente, mora na Gávea, no Rio de Janeiro. “Aventura Tropical” é seu primeiro livro.



Ficha técnica

Título: Aventura Tropical

Autor: Peter I. W. Peuker

Editora: Novo Arco Design & Editorial

Páginas: 560

ISBN: 978-65-82817-22-9

Formato: 16 x 23 cm

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Taciana Oliveira – natural de Recife (PE), é bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, diretora e produtora cinematográfica, é criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada Janela Cultural, além de coordenar o Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário Clarice Lispector – A Descoberta do Mundo e integra a direção do longa-metragem de ficção O Rio de Clarice, no qual assina o segmento Amor. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.