Juliana Galbetti apresenta em Veneza instalação que transforma resíduos de tiros em vestígios arqueológicos do presente

Juliana Galbetti, Era do Ruído | Foto: Paolay Renato

Finalista do Arte Laguna Prize, artista brasileira leva à Itália a obra “Era do Ruído”, composta por cápsulas, projéteis e fragmentos de munições dispostos sob vitrines de vidro sobre as quais o público poderá caminhar.

O que os vestígios de uma sociedade podem revelar sobre seu tempo? E como seriam interpretados, no futuro, os objetos que hoje fazem parte de nossa realidade? Essas questões orientam a instalação Era do Ruído (Age of Noise), da artista brasileira Juliana Galbetti, que será apresentada em Veneza, na Itália, entre 6 e 29 de novembro de 2026. A obra integra a exposição dos finalistas do Arte Laguna Prize, realizada no Arsenale Nord, com a participação de artistas de 50 países.

Selecionada entre mais de três mil inscritos de diferentes partes do mundo, Juliana está entre os 120 finalistas da 21ª edição do prêmio. A exposição reunirá 240 artistas selecionados nas duas últimas edições, sob curadoria de Xiaoyu Weng e Jemima Kulumba.

Com 16 metros quadrados, Era do Ruído apresenta uma coleção de cápsulas de munição deflagradas, projéteis deformados e outros resíduos recolhidos em locais de prática de tiro. Os materiais são organizados em vitrines horizontais, com estruturas metálicas e tampos de vidro temperado, formando uma superfície sobre a qual os visitantes poderão caminhar.

A disposição dos fragmentos remete aos procedimentos de catalogação e exposição de objetos arqueológicos. Entretanto, em vez de vestígios de uma civilização desaparecida, a instalação apresenta materiais provenientes de uma atividade que permanece em curso.

“A apresentação em vitrines de chão caminháveis aproxima os fragmentos dos modos de exposição da arqueologia, mas aquilo que está sob nossos pés não pertence a uma civilização desaparecida. São vestígios de uma prática ainda em operação. Tratamos o nosso presente como se ele já pudesse ser encontrado em uma escavação futura”, explica a artista.

Desenvolvida a partir de uma pesquisa iniciada há cinco anos, Era do Ruído foi concebida originalmente para a 7ª Bienal do Sertão, realizada em Diamantina, Minas Gerais, em 2025. Para a apresentação em Veneza, a instalação será ampliada e adaptada às características do espaço expositivo.

Ao longo da investigação, Juliana Galbetti reuniu em seu ateliê mais de 300 quilos de resíduos provenientes de locais de tiro. Entre os materiais estão chumbo, cobre, bronze, latão, componentes plásticos de munições e fragmentos de cerâmica de pratos utilizados como alvos.

Os objetos passam por processos de limpeza, classificação e agrupamento, seguindo procedimentos semelhantes aos empregados em acervos museológicos. Essa organização permite observar diferenças de forma, marcas de impacto, deformações e padrões de repetição.

“Não procuro reconstituir uma cena. Trabalho com os resíduos de uma prática: estojos deflagrados, projéteis deformados e fragmentos recolhidos em locais de tiro. Limpar, classificar e organizar esses materiais não apaga as marcas do disparo que carregam. Ao contrário, a ordem torna essas marcas do impacto mais perceptíveis”, afirma.

A pesquisa também contou com o diálogo do arqueólogo Danilo Ribeiro Zardo, com quem a artista investigou os procedimentos e questionamentos que poderiam orientar a análise desses objetos caso fossem encontrados em uma escavação arqueológica.

O resultado é uma instalação que aproxima tempos distintos. Ao caminhar sobre os fragmentos, o visitante observa os vestígios de uma atividade atual como se fossem objetos de um passado distante. A experiência provoca reflexões sobre a violência, sua permanência nas sociedades e os registros materiais que deixamos para as próximas gerações.

“Imagino uma escavação do futuro na qual vestígios do presente seriam examinados como indícios de uma prática atual já transformada. A instalação cria essa distância temporal, mas a desfaz quando reconhecemos o que está sob nossos pés: vestígios de uma prática que continuamos a repetir. Estamos diante de um passado que ainda estamos produzindo”, observa Juliana.

A artista também questiona quais transformações seriam necessárias para que esses materiais passassem a representar uma atividade definitivamente encerrada. Nesse contexto, a paz surge como uma possibilidade de futuro, em contraste com os sinais de violência preservados na obra.

A experiência visual também desempenha um papel importante. O brilho dos metais e a disposição meticulosa dos fragmentos despertam a curiosidade do público, enquanto a identificação da origem dos materiais modifica a percepção inicial.

“Interessa-me quando aquilo que nos atrai também nos faz interrogar o que estamos vendo – e os critérios com que estamos olhando”, destaca a artista.

Arte brasileira em exposição internacional

Criado pela Associação MoCA, o Arte Laguna Prize completa 20 anos em 2026 e se dedica à promoção de artistas emergentes de diferentes países. A seleção da 21ª edição foi realizada por um júri internacional que contou com o curador brasileiro Hélio Menezes, cocurador da 35ª Bienal de São Paulo, Coreografias do Impossível, além de Sarah Crowe, Yuko Hasegawa, Wang Chunchen, Gianluigi Ricuperati, Linzi Stauvers e Jemima Kulumba.

A exposição dos finalistas das 20ª e 21ª edições acontecerá durante as últimas semanas da Bienal de Veneza, colocando a instalação de Juliana Galbetti em diálogo com a intensa programação artística da cidade italiana.

Nascida em Joinville, Santa Catarina, em 1976, Juliana Galbetti vive e trabalha em São Paulo. Formada em Moda pela Faculdade Santa Marcelina, iniciou sua trajetória nas artes visuais em 2018. Sua produção abrange instalações, esculturas, desenhos, fotografias, processos têxteis e práticas participativas.

A artista desenvolve pesquisas sobre materialidade, memória, percepção e os sistemas utilizados para classificar e atribuir valor aos objetos. Em seus trabalhos, procedimentos como coleta, comparação e reorganização de materiais revelam aspectos históricos, culturais e simbólicos que passam muitas vezes despercebidos.

Em Era do Ruído, essa investigação ganha uma dimensão especialmente inquietante. Ao transformar resíduos de disparos em objetos de observação, Juliana Galbetti convida o público a examinar os sinais materiais de seu próprio tempo e a imaginar como eles poderão ser interpretados pelas gerações futuras.


Juliana Galbetti | Foto: Gui Gomes

Juliana Galbetti (Joinville, 1976. Vive e trabalha em São Paulo) é formada em Moda pela Faculdade Santa Marcelina. inicia sua trajetória nas artes visuais em 2018. A relação com materialidade, aparência e corpo se amplia, em sua pesquisa, para sistemas de classificação, arquivo, valor, ritual e representação. Sua produção transita entre instalação, escultura, desenho, fotografia, processos têxteis e práticas participativas. Os trabalhos se articulam por um modo recorrente de investigação: observar, coletar, comparar, classificar, deslocar e reorganizar. Trabalha os lapsos da percepção humana por meio da matéria e do tempo. Seu trabalho investiga como sistemas de ordenação – arquivos, classificações, dispositivos expositivos e formas de apresentação – produzem visibilidade, valor, memória e apagamento. A partir de materiais carregados de densidade histórica, cultural e simbólica, constrói situações em que esses sistemas são deslocados, reencenados ou tensionados.

SOBRE O ARTE LAGUNA PRIZE

Criado em 2006, o Arte Laguna Prize é um concurso de arte contemporânea que acolhe e apresenta artistas emergentes de todo o mundo. Criado a partir do desejo da Associação MoCA de valorizar a arte em todas as suas formas, o prêmio mantém, desde 2006, sua missão de promover artistas no cenário internacional. Os finalistas e vencedores são selecionados anualmente por um júri de especialistas, e as obras são expostas no Arsenale Nord, em Veneza, durante um mês. Reunindo diferentes linguagens, mantém parcerias para residências, exposições e outros projetos artísticos. Segundo a organização, recebe mais de 3 mil inscrições por ano e seleciona 120 finalistas por edição.

Juliana Galbetti, Era do Ruído | Foto: Paolay Renato


Serviço: Juliana Galbetti na exposição de finalistas do Arte Laguna Prize 20ª e 21ª edições

De 6 a 29 de novembro de 2026

Arsenale Nord - Sestiere Castello, 6611, Veneza, Itália

Diariamente, das 10h às18h

Organização da mostra: MoCA APS —Modern and Contemporary Art

Informações e reservas: https://artelagunaprize.com/exhibition-2026/

Entrada gratuita