por Alzira Umbelino Cardillo |
O frustrado compositor que queria ser poeta: a confissão de Belchior
O frustrado compositor que queria ser poeta: a confissão de Belchior
Dizer que Belchior era um compositor mais apaixonado pela literatura que pela música não é exagero. Em palavras sinceras, ditas no tom confidencial de uma conversa íntima (que poderia ter acontecido ao som do vinil tocando Mina) ele se declarou sem pudor, jogado aos pés da arte de Drummond, Poe, Pessoa e Dante.
A nossa conversa aconteceu por telefone, lá pelas tantas da noite. O canto da musa de Belchior, a cantora italiana Mina, é uma imaginação de agora. Porém, caso não estivesse ele em São Paulo e eu em Minas Gerais, poderia ter sido assim, como veio a ser em outras ocasiões.
Foi no ano 2002, a convite da revista Em Foco, uma publicação de Itabira, minha terra natal e do poeta Carlos Drummond de Andrade, que vesti-me de jornalista para entrevistar Belchior, tendo como um dos assuntos a explorar a presença instigante da literatura em suas composições.
Todavia, uma boa conversa sempre vai mais além, e aquela foi bem mais longe que eu pudesse sonhar. Belchior estava falante naquela noite. Ele parecia feliz com a oportunidade de contar sobre suas raízes e sobre suas inspirações mais caras, as colhidas na literatura, nos poemas dos seus admirados escritores nacionais e universais.
Tantos escritores foram, para Belchior, poetas e romancistas de cabeceira, das malas de viagem, das esperas nos aeroportos, dos traslados, das leituras solitárias do dia e da noite. A poesia drummondiana, especialmente, fascinava o compositor cearense, provocava-o e o inspirava a compor.
Naquela noite, pelo telefone, eu ouvi sua voz grave dizer-me assim: “... Vim para a música por causa da literatura. Sou um poeta frustrado, um escritor que tem a utopia de escrever um livro e não a realiza. O que me levou a fazer música foi ter percebido, especialmente na música que estava sendo feita pela minha geração, uma proximidade muito grande com a poesia. Eu fiz música por causa do Drummond de Andrade, mas também por causa do João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Jorge de Lima, poetas que me atraíram. Também porque não soube ou não consegui fazer um belo livro de poesia.”
Na humildade dos grandes, um dos maiores compositores do Brasil, o letrista e cantor respeitado e amado pelo seu talento genuíno, confessou-se frustrado por não ter conseguido realizar o sonho de escrever um livro de poesia. Por isso inspirou-se nos escritos dos seus escolhidos, homenageou-os fazendo referências em suas composições, na maioria bem escondidas, “pepitas incrustadas”, ele me disse.
Belchior afirmou-me preferir a alusão, o modo sutil de referenciar mais adotado em suas letras. E explicou sua preferência de uma maneira tão poética que, para mim, vale o livro que ele não escreveu: “... antes de tudo, a sutileza é bastante drummondiana. O requinte, o saber ocultar bem o que se quer dizer, é uma espécie de gentileza literária.”
Alzira Umbelino Cardillo é escritora, professora, cantora lírica, amiga de Belchior e autora de “Um Cearense no Meio do Meu Caminho”, em que registra as memórias ao lado de um dos grandes nomes da música brasileira


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