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| Foto de Alexander Lunyov na Unsplash |
FELINO
Lambuzo os dedos
e lambuzo todo o
mal
que escrevo
com dedos tortos.
Lambuzo os dedos
e lambuzo o suor
de uns sete apertos
de mão
durante todo o dia.
Lambuzo os dedos
por distração e euforia.
Lambuzo os dedos sujos
e saboreio o meu veneno
e o veneno de mais sete pessoas.
Lambuzo os dedos
por falta de cafuné.
Lambuzo os dedos
que ainda hoje
não encontraram
abrigo.
Lambuzo os dedos
como gato lambe os pelos.
Lambuzo os dedos gigantes
porque ainda não encontraram
carinho em outros dedos.
O CORVO MAIS TRISTE DO MUNDO
Meu pensamento é um tsunami
que atinge uma aldeia de sonhos.
Ontem amei; hoje derramo
lágrimas de Urano.
Do amanhã já não espero mais nada —
queimei todas as páginas em branco,
despachei meus planos numa jangada.
Tenho sangrado demais,
tenho morado num cemitério
de palavras
não ditas,
mal-ditas
e equivocadas.
Quero fazer novos amigos,
quero um curativo,
um bálsamo,
alguém que me conte piadas.
(Leia-me nas entrelinhas,
enxergue minha alma)
Então você chega,
pronto para me ensinar novos voos.
E me sorri como quem abre
uma janela depois da chuva.
E me aquece feito o mar de Ipioca
no verão.
E me beija com seus lábios de cereja,
macios como travesseiros.
E faz o corvo preso em meu peito
dormir tranquilo.
Você
Você
Você
Você
Como um disco arranhado
Como meu poema preferido.
SE UM DIA VOCÊ DECIDIR VOLTAR
Vou deixar minhas últimas palavras
no útero da lua,
na sílaba que me falta,
na noite marginalizada.
Vou deixar meu último beijo
no gosto da sua cerveja preferida,
na gola da sua camisa invisível,
no sumo de uma tangerina ácida.
E, por fim, vou guardar meu abraço
na porta de casa,
no fogo que consome meu ventre,
no lado vazio da cama.
UM LUGAR NO INFINITO
Teus olhos
telescópios
me levam
à solidão
das galáxias.
Meus braços,
um santuário,
acolhem
a inquietude
da tua alma.
João Vitor Ferreira escreve com a intensidade do fogo e a fluidez da água — uma característica que atravessa não apenas sua poesia, mas também sua forma de compreender o mundo. Seu encontro com a literatura aconteceu ainda na infância, quando descobriu a poesia em uma coletânea de poemas românticos presenteada à sua mãe durante uma internação hospitalar. O encantamento foi imediato e, aos nove anos, já escrevia seus próprios versos e participava de recitais na escola. Natural de Maceió (AL), terra de Jorge de Lima e Lêdo Ivo, é jornalista, roteirista, arte-educador e dedica seus estudos a temas como saúde mental, espiritualidade, infância, território e cultura. Em 2020, publicou Do Avesso ao Verso, livro digital autobiográfico em que narra sua experiência com a depressão. Desde então, passou a utilizar a escrita como ferramenta de sensibilização para o cuidado com a saúde mental e o bem-estar psíquico.


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