Um pouco de luz nessa vida

 por Taciana Oliveira__



Um pouco de luz nessa vida


As escadarias que davam acesso às salas de aula do Colégio Santa Bárbara testemunharam o crescimento de uma boa parte dos moradores do bairro da Imbiribeira. Os melhores dias da minha infância e boa parte da adolescência se fizeram por lá. Nunca escondi da “família” que a escola era a válvula de escape, a melhor fuga para o inferno que legalmente eu habitava.


O pátio do recreio apinhado de vozes adolescentes ainda desperta em mim as doces recordações dessa época. Naquele espaço construí amizades, que ainda perduram apesar da distância. O padrinho do meu filho, Araújo*, é uma dessas figuras. Nosso primeiro encontro foi na terceira série do primário, quando ainda nem sonhávamos entender o que significava a palavra democracia. A nossa amizade sempre foi alimentada pelo gosto musical e depois, em menor escala, pela literatura.


Nunca pensei em ter um diário, mas tinha um caderno onde guardava letras de músicas, poemas e gravuras. Essa “cápsula do tempo” ainda existe e ostenta em suas páginas envelhecidas canções e versos de uma geração, que talvez não se adaptaria facilmente ao mundo das redes sociais. Éramos fortemente ligados, cada a um à sua maneira, ao dia a dia e à trilha sonora que surgia: Não tenho medo de escuro/ Mas deixem as luzes acesas.


Na sétima série a turma se dividiu em grupos e perdi um tanto de contato com Araújo, mas isso não o impediu de deixar sua marca no meu caderno. Ainda estão lá as letras completas de duas músicas do Scorpions e do Whitesnake. Sim, Araújo nessa fase era fã incondicional do gênero  heavy metal e de Cazuza, mas preciso abrir um parêntese para falar da sua paixão pela “maior banda do Brasil”: Roupa Nova. Em uma das nossas poucas conversas daquele ano, ele me atentou para a beleza que ressoava nas caixas de som durante o recreio: Codinome Beija-flor.


Sentamos nos degraus da escada que dava acesso às salas de aula e conversamos sobre Legião, Barão Vermelho e… Roupa Nova. A paixão de Araújo não era algo banal, rolava naquelas palavras um conhecimento amplo e técnico sobre a discografia da banda. Ele citava, empolgado, a qualidade dos arranjos, dos vocais e da potência musical dos seus integrantes. Baixo, guitarra e teclados e uma bateria sempre na pulsação exata. Confesso que vivia um outro momento, bem distante da menina que se apaixonara perdidamente pela delicadeza de Sapato Velho, Voo Livre e Canção de Verão. Na verdade já ancorava no meu coração outras possibilidades sonoras e artísticas.


Nesta última semana quando soube da morte do Paulinho, vocalista do grupo, lembrei de imediato desse episódio e de quando escutei pela primeira vez Clarear. Era um tempo ruim (1982), e quando digo isso não é nenhum exagero, mas essa canção chegava como um sopro de esperança, uma oração. Pensar que Paulinho se foi em um ano tão desastroso e infeliz, e de que novamente precisamos saber o real significado e importância de uma democracia, me fez chorar: Um pouco de luz nessa vida/Um pouco de luz em você.

Araújo estava certo. O Roupa Nova é uma banda sensacional que pontua e traduz a trajetória de milhões de brasileiros. Paulinho fará uma falta imensurável. Mas deixemos que a música nos salve de tanta tristeza:


Quando não houver

Mais o amor

Nem mais nada a fazer

Nunca é tarde

Prá lembrar

Que o sol está solto

Em você



 



*José Araújo Barros Jr é músico, professor de inglês e guitarra. Os amigos de hoje o chamam de Zeca Barros.




   



 Taciana Oliveira é mãe de JP, comunicóloga, cineasta, torcedora do Sport Club do Recife, apaixonada por fotografia, café, cinema, música e literatura. Coleciona memórias e afetos. Acredita no poder do abraço. Canta pra quem quiser ouvir: Ter bondade é ter coragem.