Janelas em cicatrizes , crônica de Anthony Almeida

 

 Anthony Almeida__



Foto: Michiel Annaert



Uma voçoroca imponente se mostra na beira da rodovia. Do ônibus que me leva, essa terra rasgada que avisto, uma terra cheia de cicatrizes, que uma voçoroca grande sempre vem acompanhada de outras menores, me lembra das cicatrizes que eu levo deste chão:

(Pela última vez, com o direito de dizer-me residente venceslauense, cruzei a Avenida Tiradentes, passei pelo viaduto, fiz a curva em laço e segui o rumo da rodovia Transpresidencial. É às margens dela que a voçoroca se rasga e me lembra dos rasgos que levo daqui).

Três são as marcas das incisões feitas em minha cabeça. Delas, cistos sebáceos foram removidos. Por mais de década guardei-os em meu couro cabeludo. Hoje, levo as cicatrizes duma pequena cirurgia. Vou-me embora — Adeus, Presidente Venceslau! —, mas levo estas marcas. Deixei um problema: os cistos, sob uma pancada na cabeça, poderiam se romper. Não podem mais. Minhas cicatrizes, que acaricio enquanto olho a cicatriz no relevo, confirmam este risco extinto.

Tenho mais cicatrizes, pequenas feridas que foram abertas e depois se fecharam ainda em Presidente Venceslau. Rememorar cada uma delas, e como foram adquiridas, é abrir algumas das janelas da vida vivida neste oeste paulista. Oeste agora abandonado. 

A janela do ônibus não me mostra mais Venceslau, que ficou para trás. As marcas que se desenharam na minha pele, entretanto, vão comigo. O gato Pisco fica. Suas garras que rasgaram o meu nariz, depois de um abraço forte demais, porém, vão traçadas no meu focinho. Vão comigo as lembranças dos copiosos abraços posteriores, dos cheiros e dos chamegos menos fortes, mas igualmente intensos. Destes abraços, cheiros e chamegos não levo cicatrizes.

Das minhas rotinas na cozinha, levo as impressões digitais lanhadas. A peixeira afiada cortou além dos ingredientes e ter, ainda hoje, os meus dez dedos com todas as pontas, mesmo que rasgadas, é uma grande sorte. No indicador esquerdo vai a marca de uma cabotiã que virou purê. No anelar canhoto, o vestígio dum suco de limão. Pelo corpo, vão as marcas das estrias deixadas pelas pizzas degustadas quando a vontade de cozinhar foi pouca.

Em breve, o ônibus cruzará Presidente Prudente. Lá, que também foi minha casa, mais uma cicatriz, esta aqui mais gaiata, uma cicatriz de carnaval, vai se abrir numa janela de lembrança.

Numa sexta-feira carnavalesca, na dispersão dum bloco, também minha dispersão prudentina — minha partida de Prudente a Venceslau estava já decidida —, uma confusão girou os brincantes. Quando entendi o que se passava, eu estava bem no meio do redemoinho. Minha reação instintiva foi tentar separar a "briga". 

Um homem bêbado, com ciúmes da esposa, ameaçava agredi-la. A briga não era briga, era uma covardia, e o redemoinho me colocou justamente entre o casal. Segurei o cara. A mulher chorava incrédula, as foliãs xingavam o homem e ele se enfezava comigo, por tentar conter a sua ira. Daí deu-se um empurra-empurra e, do meio do vuco-vuco, veio a dentada. O miserável tacou-me uma mordida no braço esquerdo. Enquanto eu gritava ai, ele fugiu na carreira.

A cicatriz carnavalesca vai comigo. Junto das outras. Junto das janelas que se abrem quando as vejo. Junto da certeza de que dizer adeus para um chão não significa deixá-lo para sempre.


Transpresidencial. Agosto, 2022.






Anthony Almeida
é geógrafo, professor e cronista. Nasceu em Caruaru/PE e mora no Recife/PE. Pesquisa a Geografia Literária, escreve e estuda a crônica brasileira. É cronista da Revista Mirada, doutorando em Geografia, pela UFPE, e editor adjunto da RUBEM – Revista da Crônica. Contato: anthonypaalmeida@gmail.com