O aranho no ônibus, crônica de Anthony Almeida

 por Anthony Almeida__



                                     
             Indo pra Caruaru. Eu tô.

Como é fácil ir pra Caruaru partindo-se do Recife. Enrolei o sábado inteiro. Preparei a mochila da viagenzinha na velocidade duma aranha que faz a sua teia: bem despreocupada. Aranho, decidi que a mochila devia ser feita, sem pressa, no sábado mesmo. Tive uma sexta-feira de noite à toa, o que é boa toada pra preparar bagagem. Nãm, sábado dá — à toa, pensei. Deu, mas me atrasei.

Perdi a manhã enrolando. Perdi, assim, a Feira de Caruaru numa manhã de sábado. A melhor manhã de sábado que se pode passar à toa é uma manhã de sábado que se passa passeando à toa na Feira de Caruaru. Não passeei. Passei foi a manhã preparando a mochila pra poder viajar de tarde. Tarde que também não viajei.

Saí de casa ainda com dia claro. Alvíssaras! Mas, no caminho até a rodoviária, fui me demorando. E, mesmo assim, já de noite, estou indo pra Caruaru. Minha lentidão fez de tudo pra que eu não fosse. Ir pra Caruaru, partindo-se do Recife, porém, é fácil. Vejo a noite pela janela do ônibus e, ainda hoje, ainda que no escuro noturno, estarei lá em Caruaru.

Quando eu moravestava no distante oeste paulista, não importava a vontade e a empolgação que tomassem conta de mim. Ainda que eu fosse veloz como a aranha quando dá o bote e enteia a sua presa, ainda assim, era difícil ir pra Caruaru. Agora, sendo aranho rápido ou vagaroso, basta que eu me movimente e Caruaru estará, em poucas horas, sob os meus quatro pares de patas.

De lá, vez em quando, eu me pegava querendo comer alguma besteira. Não era mosca nem grilo. Pensava num Pippo's. Ninguém nem sabia o que era Pippo's. Agora, acendo a minha lâmpada individual, sobre a poltrona 33 do ônibus que me leva, e ilumino a mochila. De seu interior, puxo um pacote de Pippo's Vitaminado. Apago a luz e lambuzo os meus dedos e bigodes com o salgadinho sabor churrasco, comprado no metrô, a caminho da rodoviária.

Eu queria mesmo era um Pippo's sabor cachorro-quente. O ambulante não tinha. Tem nada não. Pippo's de churrasco também é Pippo's. Pra comer um de cachorro-quente é fácil, basta que eu vá em qualquer mercadinho recifense ou caruaruense. Farei isso amanhã, no domingo de Caruaru. A Feira, contudo, vai ficar pra outro sábado. Terei muitos.

Se eu fosse apreciador da fruta, também poderia estar me lambuzando com uns belos bagos de jaca. Na saída do metrô, outro ambulante vendia pedaços de sua apanha. Um carrinho de mão lotado das jacas ladeava o vendedor. Meia jaca, dez reais; um quarto, cinco — mas posso fazer esse pedaço aqui por quatro, pra senhora. A senhora parecia uma boa apreciadora de jaca. Não cheguei a ver se ela comprou um quarto ou uma banda: mas comprar, comprou, isso é certo. Eu vim-me embora e trouxe comigo foi só o cheiro cheiroso da jaca.

Deixei eles pra trás e acelerei até a bilheteria. Comprei passagem na rodoviária, emburaquei no último ônibus do dia e viajo pra Caruaru. Lá, tenho meu pai e minha mãe. Amores bonitos pra eu abraçar. Tenho muitos braços pra abraçar os dois. Bem forte!


BR-232. Dezembro, 2023.



Anthony Almeida nasceu em 1989, em Caruaru/PE. É cronista, geógrafo, professor e editor-adjunto da RUBEM – Revista da Crônica. Atualmente desenvolve pesquisa de doutorado em Geografia Literária na UFPE, campus Recife, sobre o tema ‘Geograficidades do mundo vivido-escrito na crônica brasileira’. É autor do livro "Um pé lá, outro cá" (Aboio, 2023) e escreve para os portais Mirada e Cena. Saiba mais em: https://linktr.ee/anthonypaalmeida