Do castelo ao processo de kafkancelamento – Iaranda Barbosa

 por Iaranda Barbosa__




Nota da autora: A intenção deste conto, inicialmente, era parodiar a obra-prima de Kafka, daí a decisão de conservar algumas passagens do texto original. Contudo, assim como toda literatura fantástica, o sobrenatural se infiltrou e permitiu a irrupção do insólito: a realidade foi parodiada. As fronteiras do real e do irreal mais uma vez se dissolveram, os portais se abriram e os mundos comunicantes se sobrepuseram. Bem-vindos ao absurdismo das redes sociais.



Quando certa manhã Franz Kafka acordou de sonhos intranquilos, ainda na cama, entrou nas redes sociais e encontrou-se cancelado. Estava deitado sobre lençóis trocados por @s e, ao levantar um pouco a cabeça, leu, atônito, #kafkapornográfico, em diversos perfis. Os numerosos seguidores, lastimavelmente, caíam diante dos seus olhos, que tremulavam.

O que aconteceu comigo?

Não era um sonho. Num autêntico quarto de digital influencer, só que um pouco pequeno demais, permanecia calmo entre as quatro paredes onde pendiam as plaquinhas de prata, ouro e diamante, que o legitimavam criador de conteúdo. Sobre a mesa, numa bela moldura dourada, estava a capa do primeiro best seller, vendido em formato digital. 

O olhar dirigiu-se então para a janela e o tempo turvo. Ouviam-se os gritos de Kafka pervertido, escritor devasso, advindos de uma dúzia de desocupados segurando cartazes na calçada — sentiu-se inteiramente melancólico. 

Que tal se postasse fotos TBT da última viagem ao Nordeste, acompanhadas de uma legenda bíblica ou motivacional? Mas isso era completamente irrealizável, no seu estado atual não conseguia se colocar nessa posição. Qualquer que fosse a força com que se jogava para o politicamente correto, balançava sempre de volta ao cancelamento. 

Ah, meu Deus! Que profissão cansativa eu escolhi. Entra dia, sai dia postando, influenciando. A excitação comercial é muito maior que a vida real e, além disso, me é imposta essa canseira de viajar, engajar, a preocupação com a troca social medias, fotografar refeições irregulares e ruins, um convívio humano hipócrita, amizades efêmeras que jamais perduram mais que trinta segundos, abraços que nunca se tornam calorosos. O diabo carregue tudo isso! 

Sentiu uma leve coceira na parte de cima do ventre; deslocou-se devagar sobre as costas até mais perto da guarda da cama para poder levantar melhor a cabeça; encontrou o lugar onde estava coçando, coberto pela cinta que protegia a lipoaspiração, feita em parceria com um famoso consultório de estética.

Deslizou de volta à antiga posição. 

Acordar, assim, cancelado, deixa a pessoa completamente embotada. Alguns influencers vivem como mulheres de harém. Outros, com mulheres em haréns. Tentasse eu fazer diferente. Aliás, quem sabe não seria muito bom para mim? Se não me contivesse, se não cedesse à tortura do meu desejo sexual. Teria me postado diante do público e dito o que penso do fundo do coração. Bem, ainda não renunciei por completo à esperança. Assim que juntar o dinheiro para viver de investimentos, deve demorar ainda de cinco a seis anos, vou fazer isso sem falta. Chegará então a vez da grande ruptura. Por enquanto, porém, tenho de me levantar, pois meu engajamento está caindo. 

E acionou a assistente virtual, que lhe informou a hora. 

Pai do céu! Eram seis e meia e as polêmicas avançavam exponencialmente. E agora, o que deveria fazer? O próximo golpe seria os patrocinadores romperem os contratos. Para impedi-lo, precisaria se apressar como louco. Gravaria um vídeo com efeito dramático e, com semblante abatido, pediria desculpas com a voz embargada. E se anunciasse que estava doente? Mas isso seria extremamente penoso e suspeito, pois durante os cinco anos de redes sociais, Kafka não tinha adoecido uma única vez, sobretudo porque era o muso fitness de uma rede de produtos naturais. Certamente o acusariam de propaganda enganosa.

Enquanto refletia sobre tudo isso na maior pressa, sem poder se decidir a deixar a cama, bateram cautelosamente na porta. 

— Franz. Você já entrou na internet hoje?

Kafka quisera responder em minúcia e explicar tudo, mas nestas circunstâncias se limitou a dizer: 

— Sim, sim, obrigado, mãe, já vou me levantar. 

A mãe se tranquilizou com essa explicação e se afastou arrastando os chinelos. Mas a breve conversa chamou a atenção dos outros membros da família.

— Franz, Franz, o que está acontecendo? — Era o pai.

E depois de um intervalo curto advertiu outra vez, com voz mais profunda: 

— Franz, Franz! 

Na outra porta lateral, a irmã lamuriava baixinho: 

— Franz? Você não está bem? Precisa de alguma coisa? 

Kafka respondeu para os dois lados:

— Já estou pronto — e através da pronuncia mais cuidadosa e da introdução de longas pausas entre as palavras se esforçou para retirar da voz tudo que chamasse a atenção. 

O pai voltou ao café da manhã, mas a irmã sussurrou: 

— Franz, abra, eu suplico, em nome de Deus, Todo Poderoso.

Kafka, entretanto, não pensava absolutamente em abrir. Queria primeiro levantar-se, calmo e sem perturbação, vestir-se e, sobretudo tomar o café da manhã, e só depois pensar no resto, pois percebia muito bem que, na cama, não chegaria, com as suas reflexões, a uma conclusão sensata. Lembrou-se de já ter sofrido, várias vezes, o julgamento virtual por alguma declaração infeliz, mas que depois, ao se retratar, as notícias gradativamente se dissipavam. 

— Não fique inutilmente aí na cama — disse Kafka a si mesmo. 

A princípio quis sair, mas os gritos na calçada haviam aumentado. Largou o celular e abriu o computador. Digitou o próprio nome e se espantou com a quantidade de notícias expondo sua vida pessoal. Por que deixou de seguir o outro influencer? Por que não parou de beber antes que a língua se debatesse, incontrolável, e revelasse seus instintos mundanos? Por que gostava tanto de ir àquele inferninho?

Ficou deitado na mesma posição, suspirando, e não encontrou nenhuma possibilidade de imprimir calma e ordem àquele descontrole. Dirigia o olhar com a maior agudez possível à janela, mas infelizmente só era possível receber pouca confiança e estímulo dos gritos que invadiam o quarto. Permaneceu deitado, com a respiração fraca, como se esperasse talvez o silêncio pleno, o retorno das coisas ao seu estado real e natural. 

Soou a campainha na porta do apartamento. 

— É alguém da agência. Eles não vão abrir — disse Kafka consigo mesmo, preso a alguma esperança absurda. Quase gelou.

Mas aí a empregada, natural como sempre, caminhou com passos firmes até a porta e abriu. Kafka só precisou ouvir a primeira palavra de saudação do visitante para saber quem era.

— Franz, a militante do supremacismo feminino está aqui — falou então o pai, do aposento — junto com os defensores da família tradicional, os patriotas, o companheiro da esquerda pequeno-burguesa e o representante do movimento antipornografia. Ahh... e os fiscais de cu alheio também. 

— Eu sei — disse Kafka a si mesmo, mas não ousou erguer a voz a um ponto que a irmã pudesse ouvi-lo. 

— Bom dia, senhor Franz Kafka — bradou moralista de esquerda, num tom amigável. 

— Ele não está bem — disse a mãe ao grupo quando o pai ainda falava junto à porta. — Ele não está bem, acredite em mim. Esse moço não tem outra coisa na cabeça a não ser editar fotos e vídeos com dancinhas ridículas para subir todos os dias nas redes sociais. Eu quase me irrito por ele sempre sair à noite; agora esteve oito dias na cidade, mas não passou nenhuma em casa. Fica sentado à mesa conosco digitando no celular em silêncio ou enviando mensagens de texto.

— Já vou — disse Kafka lenta e cautelosamente, e não se moveu para não perder uma palavra da conversa. 

— De outro modo, cara senhora — disse o fiscal de cu alheio — não sei como explicar isso. Esperemos que seja uma fakenews. Embora por outro lado eu tenha de dizer que nós, cidadãos de bem, feliz ou infelizmente, precisamos muitas vezes, por considerações de ordem moral e dos bons costumes, simplesmente superar um ligeiro mal-estar. 

— O grupo pode, então, entrar no seu quarto? — perguntou o pai, impaciente, e bateu de novo na porta. 

— Não — disse Kafka. 

No cômodo vizinho após um silencio penoso, no aposento contíguo, a irmã começou a soluçar, chorar e falar em línguas estranhas.

Por que a irmã não ia juntar-se ao demais? Certamente ela tinha acabado de se levantar da cama e ainda não havia começado a se vestir. Por que então chorava? 

— Senhor Kafka — bradou então a militante, elevando a voz, — o que está acontecendo? O senhor se entrincheira no seu quarto, responde somente sim ou não. Falo aqui em nome dos seus pais e do tribunal virtual e peço-lhe com toda a seriedade uma explicação imediata e clara. Estou perplexa, estou perplexa. Criei páginas de fã clube, legendava minhas fotos com frases suas, fazia sorteios dos seus livros, acreditava conhecê-lo como um homem calmo, um fado sensato. E agora o senhor parece querer de repente começar a ostentar estranhos caprichos. A militância me insinuou esta manhã uma possível explicação para as suas depravações, mas eu quase empenhei minha palavra de honra no sentido de que essas acusações não podiam estar certas. Interpretei sua solteirice como uma forma de apoio à não-monogamia. Porém, vendo agora sua incompreensível obstinação, perco completamente a vontade de interceder o mínimo que seja pelo senhor. E o seu perfil não é de forma alguma o mais seguro. No começo eu tinha a intenção de lhe dizer tudo isso a sós, mas uma vez que o senhor me faz perder o meu tempo inutilmente aqui, não sei por que os senhores seus pais não devam ficar também sabendo.

— Mas, cara usuária X — exclamou Kafka fora de si, esquecendo tudo o mais na excitação — a senhora há de entender a opressão machista da qual sou vítima, desde o tamanho do membro fálico até a obrigação de saber onde se localiza o clitóris. Isso sem falar nos assédios de broderagens que os incels e os redpils todos os dias me enviam por mensagens. Não há motivos para censuras. Podemos fazer uma collab, voltarmos a nos seguir.

E enquanto Kafka expelia tudo às pressas, mal sabendo o que falava, aproximou-se do armário com facilidade.

— Será que ele nos está fazendo de bobos? — indagava no chat o representante do movimento antipornografia aos seguidores durante a live.

— Pelo amor de Deus! Talvez ele esteja seriamente cancelado e nós o atormentamos — exclamou a mãe já em lágrimas.

— Mamãe? — bradou a irmã do outro lado. 

Elas se comunicavam através do quarto de Kafka. 

— Você precisa agendar imediatamente um podcast para o seu irmão. Kafka está cancelado.

— Mamãe? A culpa disso tudo é minha. Eu vazei os áudios e os prints. Eu entreguei tudo ao FOFO-OK! Não foi maldade. Queria que meu irmão se livrasse das coisas do mundo para honra e glória do Senhor SHISHARAPATAYHALABASHURIAS

— Ouçam — disse o moralista — ele está girando a chave.

À medida que a chave ia girando, ele ouvia mais pessoas chegando e ocupando a sala. As vozes distorcidas se confundiam com chiados, ruídos indistintos e passadas que arranhavam o assoalho. 

Soltou um angustiante “oh”! quando se deparou com leitores de frases soltas, militantes, pseudointelectuais, moralistas, críticos analfabetos, subcelebridades flopadas, diretores de realities e uma gama de juízes do Tribunal da Internet. Sobre colônias das mais variadas, todos eles balançavam as antenas, mordiscavam as patas, raspavam o exoesqueleto, arrastavam-se pelas paredes, expeliam gosmas e lambiam as asas uns aos outros, ansiosos e sedentos pelo linchamento virtual.



I
aranda Barbosa,
 formada em Letras Português-Espanhol, pela UFPE, possui mestrado e doutorado em Teoria da Literatura pela mesma instituição. Salomé (selo Mirada), novela histórica é sua primeira obra ficcional longa. A autora possui contos em antologias e revistas de arte, assim como diversos artigos científicos publicados em periódicos especializados em crítica literária. O livro de contos Palavras de Silêncio (Selo Mirada, 2022) é o seu próximo lançamento.