por Davison da Silva Souza |
Lembro que, ao acordar cedo, costumava caminhar com meu pai pelo bairro e, a cada pessoa que ele cumprimentava, abria um grande e AMARelo sorriso. Olhava para mim e dizia: “Esse é meu caçula”. Eu sorria encabulado, baixava o olhar para o chão e pensava: “Quando crescer, quero ser assim.” Naquele tempo, eu ainda não sabia nomear certos sentimentos ou sensações, mas lembro que era bom.
Depois de me apresentar a meio mundo de amigos e conhecidos, íamos à casa da vó, dona Petinha. Subíamos a calçada, descíamos o batente da porta da frente e, dali, já sentíamos o cheiro da cozinha invadir nossas percepções. Lembro do som da passarinha fritando. Entrávamos, pedíamos a bênção e, em meio a inúmeros abraços familiares, experimentávamos sua negra-culinária apimentada, até conseguir subir a rua e voltar para casa.
Ao chegar à casa 205, eu trocava de roupa e ia jogar bola. Retornava no fim da manhã para almoçar a quente-comida de minha mãe. À tarde, meu pai cochilava, e minha mãe anunciava que não fizéssemos “zuada” para não acordá-lo. Assim fazíamos: brincávamos em silêncio. Seu cochilo era rápido, mas, para duas crianças, parecia durar horas e horas.
Trabalhando como artesão desde os oito anos, meu pai garantia — assim como minha mãe, que cortava pontas de linhas das peças de roupa de uma confecção na nossa rua — que tivéssemos uma roupa nova para usar na transição dos anos. Ir ao centro comprar essas roupas e comer um cachorro-quente em frente ao Teatro José de Alencar, com uma Coca-Cola KS gelada, era uma tradição, uma das expressões do extraordinário presentes no fim de ano. No começo da noite nos arrumávamos e a sensação de vestir algo ainda com cheiro de novo era incrível.
Quando todos, inclusive minha mãe, estavam prontos, andávamos do Parque Veras até a Maraponga. No caminho, a cena da manhã se repetia: meu pai conversava com inúmeras pessoas — desconhecidas para mim, mas parte de seu passado ou de seu presente. Após levarmos o dobro do tempo habitual, chegávamos à casa da minha avó materna, chamada por mim de “Mãe Delaide”. Lá encontrávamos meus primos e brincávamos ansiosos, esperando a meia-noite para assistir ao espetáculo visual dos fogos, cheios de brilho e cor. Como eu acordava cedo, raramente conseguia ver a virada do ano; dormia antes, bem antes, no colo-casa de minha mãe.
Ainda assim, aproveitava cada segundo acordado com meus primos. Corríamos e, principalmente, comprávamos bombas com as moedas que nossos pais nos davam, acendendo-as com fósforos que pegávamos escondidos da cozinha da Mãe Delaide. Após um tempo — que minha cabeça de menino não sabia mensurar —, meu pai chamava um fotógrafo e tirávamos um retrato: ele e as crianças, eternizando aquelas memórias na concretude de uma fotografia.
Depois da meia-noite, quando a família se abraçava — inclusive pessoas que, naquele dia, deixavam de lado intrigas ou que não costumavam demonstrar afeto, uma das mágicas do fim de ano —, nos despedíamos e caminhávamos de volta ao Parque Veras. Antes de ir para casa, porém, passávamos na Tia Maria, a irmã mais velha do meu pai. Ali se reunia minha família paterna. Comíamos um pratinho de vatapá de frango acompanhado de São Geraldo long neck, trincando de tão gelada. Meus olhos, já pesados, iam se fechando lentamente em meio aos sons de conversas e risadas altas.
Quando acordava, já estava deitado na rede, olhando para cima e vendo as telhas da nossa casa, ouvindo o canto do bem-te-vi. Descia, calçava a chinela branca, ligava a televisão e assistia a desenhos animados. Já era dia primeiro, o primeiro dia de um novo ano. Ano após ano, repetíamos algo parecido — às vezes invertendo ordens, outras subtraindo um lugar ou acrescentando outro —, mas, no geral, era igual. Ou quase.
Até o dia 31 de dezembro de 2019.
Naquele dia, eu estava cansado. Foram meses indo e voltando de hospitais, atravessando noites de internação, tudo isso carregando o peso enorme da esperança: a de que o paciente que eu acompanhava vencesse mais uma batalha. Na semana do fim do ano, meu pai recebeu alta de sua última internação. Levei-o para casa. Debilitado, em uma cadeira de rodas, ele já não conseguia falar, mas seu olhar atento ainda conversava conosco. Demos banho nele, vestimos uma roupa confortável e o deitamos na cama. À noite, abracei-o, pedi a bênção a ele e à minha mãe e fui à casa de conhecidos ver a virada do ano.
Cheguei em casa no começo da manhã do dia primeiro. Preparei sua comida, ajustei a sonda e ele se alimentou. Às nove horas, olhou para nós, sorriu e tentou nos dizer algo — algo que até hoje suponho, mas do qual não tenho certeza. Seu olhar se apagou, sem brilho, e se desfez.
Seis anos depois, perdi junto a ele a capacidade de enxergar o extraordinário no fim do ano, o encanto da travessia temporal e a expressão mágica do novo. O dia 31 de dezembro carrega agora significados diferentes daqueles presentes no imaginário da minha meninice. A melancolia, como uma neblina, opaciza minha visão, e atravesso esse espaço-tempo carregando a tristeza da ausência.
Filho do seu José e da dona Maria, me chamo Davison da Silva Souza, mais um Silva, da periferia de Fortaleza. Mestre em Educação e Ensino (Maie-Uece), professor-alfabetizador da Rede Municipal de Ensino de Fortaleza, ilustrador, cronista e andarilho da imaginação.


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