por Mariana Quevedo |

Foto de Raphael Souza na Unsplash
Eu adoro amarelo
“Você nunca vai saber
Quantas noites eu passei
Buscando encontrar num doce olhar o amanhecer
Quando vai ser a nossa vez de ser feliz?”
— Sutil Modelo Novo
Botafogo, Copacabana, Flamengo, Ipanema, Leblon, Barra da Tijuca. Tô tão longe de casa, mais de 2.000 quilômetros de distância do lugar que ouso chamar de lar. Ah, minha Fortaleza, terra banhada pelo sol, dos verdes mares bravios… que saudade de você! Que saudade de casa, do meu quarto excessivamente branco, com toques de madeira e umas telas mal pintadas — que realmente não são a coisa mais linda de se ver, mas são minhas.
Fortaleza, hoje tô no Rio. É sábado. Andei por Botafogo, fui à padoca do seu Augusto, vi gente, conheci lugares, fiz uma amiga de 96 anos que pratica Tai Chi Chuan e beijei um carioca. Vim pra essa terra de mar gelado, de bar de esquina, de resquícios de Império, pra ver meu pai — e o vi. Me agarrei a ele como uma criança perdida no shopping que finalmente encontra os pais na praça de alimentação.
Fortaleza, eu tava com tanta saudade de me sentir em casa. Não vou negar: amo quando estamos juntas, in(se)paráveis. Mas, por também amar o mundo, me sinto em casa em qualquer lugar. Quero coisas maiores, novos afetos e amores, um novo eu. Aqui, fui menos inconstante, mas mais inconsequente. Imagina só, Fortaleza: sair quase meia-noite com um rapaz desconhecido, numa cidade que não é a minha, e ainda compartilhar a localização com uma amiga que tá aí, contigo? Fortaleza, eu sou louca?
A gente riu, bebeu cerveja, se encontrou na filosofia — e eu não vou mentir: amei ouvir ele falando sobre Lacan. E olha que odeio psicanálise, você sabe. Teve uma hora, Fortaleza, em que ele puxou a cadeira pra perto de mim e olhou no fundo dos meus olhos — e eu me vi ali, refletida. Me vi, Fortaleza, num oceano castanho-claro, claro como mel. Ri, porque você sabe que eu só sei rir quando tô nervosa ou com vergonha. Ri muito, muito, muito mesmo — e ele me beijou. Pô, Fortaleza, depois que ele me beijou, não existia mais nada na minha cabeça.
A gente se apaixona tão rápido quando sabe que vai partir em breve, né? Eu me apaixono. Adoro distâncias e despedidas. Cheirei o cangote dele, beijei ele de novo e de novo, e falei: “Você tem gosto de bombom de laranja com chocolate, um dos meus favoritos.” E aí foi só ladeira abaixo, Fortaleza. A gente se beijou mais, mais e mais. Conversamos. Rimos. Ele sussurrou no meu ouvido que queria me beijar de novo, que parecia que só tinha a gente ali, naquela rua lotada — e eu me abri. Ri. Olhei pro lado e vi um mercantil amarelo, um táxi amarelo, uma menina de blusa amarela, e disse com pressa: “Eu adoro amarelo.” Ele riu. Riu e me perguntou por que eu amava amarelo — e a gente mergulhou mais fundo um no outro. Foi gostoso de ver, de sentir.
Depois que eu disse que amava amarelo, Fortaleza, ele cantou uma música pra mim, com a voz suave e aquele chiado gostoso e irritante ao mesmo tempo: “Tento entender o porquê de o seu amarelo brilhar mais que o dos outros.” Caí como um patinho naquela conversa fiada. Fui parar em Copacabana, uma friaca desgraçada no Rio — e eu de saia. Eu, de saia, beijando ele em pé na esquina. Um frio na barriga gostoso, um desejo do novo.
Fui pra Copacabana e vivi várias noites em uma. Conheci o apartamento dele, me agarrei naquele cabelo castanho, curiei o quarto dele. Me apaixonei. Me apaixonei tantas vezes por ele que lembrei da Carla Madeira, falando que amar é um monte de gostar junto. É tão bom amar um desconhecido de uma cidade desconhecida, né? Se jogar nos braços dele e ser quem a gente é, quem a gente quer ser.
Roubei um livro dele. Surrupiei na cara dura e disse que devolvia em dezembro. Nós dois não sabemos se teremos dezembro — mas ao 22 a gente paga pra ver, né?
Mariana Quevedo é, antes de tudo, uma leitora voraz desde os 6 anos, começou a se aventurar pela escrita a(r)teando versos e frases no bloco de notas aos 11 anos e desde então nunca parou. É professora de Língua Portuguesa, graduada em Letras pela Universidade Federal do Ceará, e é completamente apaixonada por palavras-verbos.

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