por *Taciana Oliveira |
Deslumbre: histórias de obsessão musical, de Gaía Passarelli
Publicado em 2025 pela editora Terreno Estranho, Deslumbre — Histórias de obsessão musical é um livro híbrido, situado entre a crônica autobiográfica, o memorialismo cultural e o jornalismo musical. Escrito por Gaía Passarelli e ilustrado por Tiago Lacerda, o volume reúne 164 páginas que narram, em primeira pessoa, a formação afetiva, estética e política de uma mulher atravessada pela música alternativa entre o início dos anos 1990 e o presente. A estrutura do livro é um de seus aspectos centrais. Os capítulos principais são organizados cronologicamente e intitulados a partir de versos de canções, sempre acompanhados de um ano, recurso que evidencia, desde a forma, o papel estruturante da música na narrativa. Títulos como “1991: your city lies in dust, my friend”, “1994: there is a sound on the other side of this wall” e “2025: I can do it with a broken heart” funcionam como epígrafes musicais, instaurando um clima emocional e simbólico que orienta a leitura de cada período. Essas citações atuam como marcadores afetivos e temporais, conectando memória individual, repertório musical e contexto histórico.
Entre esses capítulos, surgem as seções intituladas Backstage, que aprofundam o pano de fundo cultural de cada fase. Nelas, a autora apresenta comentários extensos e contextualizados sobre álbuns, bandas, filmes, programas de TV e livros, compondo um arquivo afetivo da cultura alternativa. Esse movimento reforça o caráter curatorial da obra e amplia sua relevância para leitores interessados em história da música, cultura pop e jornalismo cultural. O ponto de partida de Deslumbre é a adolescência da autora, marcada por deslocamentos urbanos e afetivos, pela descoberta da MTV Brasil e pela música como eixo fundamental da construção identitária. A mudança da Vila Madalena para Moema, a solidão do quarto com a televisão ligada e o contato inicial com bandas como The Cure, Bauhaus, Joy Division, Siouxsie and the Banshees e Nick Cave são apresentados como experiências determinantes. A música surge, desde o início, não somente como trilha sonora, mas linguagem emocional capaz de nomear sentimentos difusos de inadequação, melancolia e desejo de pertencimento.
No livro, Passarelli também descreve sua imersão nas chamadas tribos urbanas do centro de São Paulo nos anos 1990, especialmente a cena gótica. Espaços como o Retrô e a região da Santa Cecília aparecem como territórios de sociabilidade alternativa, onde estética, música, amizade e sobrevivência se entrelaçam. A autora registra o fascínio quanto a precariedade desses ambientes, evitando idealizações fáceis e expondo conflitos familiares, evasão escolar, repressão policial e a vivência da rua como espaço simultâneo de liberdade e risco. Ao longo do relato, a música permanece condutor da experiência, organizando não apenas a memória, mas a própria percepção de mundo. Essa centralidade se reflete formalmente na escolha dos títulos-capítulos baseados em letras de canções, reafirmando o subtítulo do livro, histórias de obsessão música, como princípio narrativo e conceitual.
Na segunda metade da obra, o foco se desloca para a trajetória profissional da autora, especialmente sua atuação como apresentadora do programa Goo, da MTV Brasil, dedicado à música alternativa. Esse momento marca uma transição simbólica: da fã obsessiva à mediadora cultural. A visita à casa e aos estúdios de John Peel, figura fundamental da difusão da música independente na BBC, constitui um dos pontos altos do livro. Deslumbre se encerra no presente, refletindo sobre tempo, maturidade e permanência do entusiasmo. A citação de David Bowie que abre o livro — “Aging is an extraordinary process where you become the person you always should have been” (O envelhecimento é um processo extraordinário onde você se torna a pessoa que sempre deveria ter sido) — funciona como chave interpretativa da obra: envelhecer, aqui, não significa abandonar a obsessão, mas compreendê-la como força formadora. Em síntese, Deslumbre é um livro sobre música, mas sobretudo sobre formação, pertencimento e desejo de mundo. Gaía Passarelli nos oferece um testemunho sobre juventude urbana, cenas alternativas e a música como força organizadora da experiência contemporânea.
Gaía Passarelli é escritora, repórter e curadora de conteúdo. Desde muito jovem aprendeu que a música podia ser um mapa. Foi VJ da MTV Brasil, repórter de viagens, colaboradora de veículos como Folha de S.Paulo e Marie Claire, além de autora de Mas Você Vai Sozinha? (Globo Livros, 2016) e Tá Todo Mundo Tentando (Editora Nacional, 2024). Publica newsletters, apresenta podcasts e escreve ensaios sobre cultura e comportamento. Em Deslumbre: histórias sobre obsessão musical, Gaía revisita artistas, sons e cenas que moldaram sua vida — do rock alternativo dos anos 1990 às pistas de dança do início da internet. Nascida e criada em São Paulo, a autora mora em um apartamento antigo na região central da cidade com os gatos Meia-Noite, Jezebel e Café.
Título: Deslumbre — Histórias de obsessão musical
Autora: Gaía Passarelli164 páginas
Editor: Marcelo Viegas
Projeto gráfico: Renata Coelho
Ilustração: Tiago LacerdaISBN: 978-85-94260-11-6
*Taciana Oliveira — Natural de Recife–PE, Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector — A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023) livro de poemas.


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