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Pular da ponte | Davison da Silva Souza

por Davison da Silva Souza |

Foto de Guilherme Hilton na Unsplash

Esses dias eu estava rolando o feed do TikTok — ação usada para avançar nos vídeos — quase no automático, subindo e descendo o dedo indicador sobre a tela sem-vida do celular, buscando algo interessante que valesse uma pausa na turbulência de informações que eu ignorava. Foi então que parei em um vídeo com imagens da cidade de Fortaleza — minha terrinha —, mais especificamente da ponte do Poço da Draga: uma ponte velha, de madeira, que fica dentro do mar e da qual as pessoas pulam para mergulhar naquela imensidão azul. 

Fiquei por longos minutos naquele vídeo, fixo na frase: 

“Fortaleza é o único lugar do mundo em que ‘pular da ponte’ significa vida.” Refletindo sobre a frase, sem perceber cantarolei baixinho: 

“O mais próximo de casa 

Que eu estive foi o mar 

Boto os meus pés na água 

E me lanço a pensar 

Como é a vida aqui 

Como é a vida lá” 

(Thiago Elniño) 

Naqueles instantes, passei a imaginar as inúmeras simbologias da vida, as subversões do que é viver e as tantas pessoas que ousaram transformar esse verbo em ação contínua. “Pular da ponte significa vida”, assim como fizeram nossos ancestrais ao atravessar a calunga grande, em meio ao mar de violências impostas pelos colonizadores. Diante daquela realidade de não vida, pular do barco era sinônimo de vida e viver era/é ser livre. 

Refletindo sobre essa simbologia, fui levado a um domingo qualquer: saindo de casa, descendo as escadas e gritando “Bença, mãe”, correndo pela rua de asfalto quente, chegando à parada de ônibus na esperança de que o 353 passasse logo. Ao dobrar a esquina, ele aponta para a brisa do mar. Subo, sento na janela e fico apreciando as inúmeras manifestações de vida que se revelam enquanto atravesso a cidade. 

A cada esquina que o ônibus se curva, vejo pessoas conversando logo cedo enquanto varrem a calçada; cadeiras são colocadas na rua, onde senhoras se acomodam para apreciar o vai e vem da ordinariedade cotidiana. Crianças correm e gargalham, com linhas nas mãos e a imaginação no azul-céu — brincam de vida. Dentro do ônibus, jovens conversam alto, riem e se abraçam; alguém cede o lugar para um senhor parado ao fundo do transporte; uma mulher aprecia o novo álbum de sua artista favorita e, a cada faixa, sorri e se deleita com a sonoridade nova. Olho pela janela novamente, estamos nos aproximando da praia, no vermelho-sinal, uma mulher com a cara pintada e um nariz vermelho, sorri ao fazer malabarismo e a cada moeda conquistada a certeza que irá levar vida para casa hoje. 

E eu, apenas observo, como um espectador atento a cada detalhe simples da grandiosa arte de viver, que acontece a todo instante, materializando-se bem ali, diante de mim. Então penso: 

Há inúmeras maneiras de pular da ponte em Fortaleza — e todas elas significam a verbalização da vida.



Filho do seu José e da dona Maria, me chamo Davison da Silva Souza, mais um Silva, da periferia de Fortaleza. Mestre em Educação e Ensino (Maie-Uece), professor-alfabetizador da Rede Municipal de Ensino de Fortaleza, ilustrador, cronista e andarilho da imaginação.