por Pedro Matos |
Rua da Glória 4
“Rua da Glória” é uma tetralogia escrita pelo geógrafo Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, na qual o autor almejou contar a história de Teresina, cidade em que nasceu, a partir das riquíssimas vivências de sua própria família. Uma longa narrativa que começa com seus bisavós, em meados de 1850, e se finaliza com a partida de Monteiro para o Rio de Janeiro, em 1945, aos dezoito anos, em busca de uma vida melhor. O livro que conclui essa jornada, nomeado pelo autor como “O tamanho de uma esperança”, é onde sua própria história se torna romance. O pródigo geógrafo, que colecionou inovações centrais para a ciência (Análise rítmica do clima, sistema clima urbano “SCU”, além de ser o pai da chamada “Escola Brasileira de Climatologia Dinâmica”), foi também um cidadão do mundo que conheceu da França à Rússia, do Japão à Nigéria, da Austrália ao México; um homem que vagava pelo globo, pela ciência, pelas artes, em busca de algo que lhe aquietava profundamente. Ao estudar a história de si, de sua família, de sua Teresina tão amada, pôde despachar um peso que tanto lhe asfixiava por tantos lugares. Está aí a beleza da Rua da Glória. Para o historiador, ela é uma benção que narra em mínimos detalhes os personagens, de inegável carisma, que habitaram aquele espaço tão rico para a mente de um jovem, em contraste com o contexto externo à cidade, que também é abordado de forma incrível. Para o psicanalista, é um estudo de caso precioso, algo que mesmo Monteiro admite ao contar a tensa relação que teve com o pai (de nome Mundico), sua breve viagem à casa de Freud em sua visita à Tchecoslováquia, e ao dizer que entre Marx e Freud, seria tomado a escolher o segundo. E finalmente, para o geógrafo, em especial, aquele que se liberta das correntes do positivismo “epistemofágico”, admirando os heróis da própria ciência, está diante de uma obra espetacular. Ela faz da palavra “monteiriana” um adjetivo próprio para as brilhantes criações do autor, que perpassam as paisagens, os fluxos, a memória, o espaço vivido, além claro, das elegantes interações com a Filosofia que expressam sua erudição. Monteiro e sua forma singular de geografar, abrilhantam o texto regado de poesia, potência e genialidade.
Pedro Matos, 19 anos, vive em Delmiro Gouveia, Alagoas. Interessado por Literatura, Geografia e Filosofia, almeja unir os três em uma nova forma de ver o Nordeste e o Sertão. Estuda Geografia na Ufal, Campus do Sertão e publicou "Panthalassa" pela editora Parresía em 2025.


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