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| Fotografias de Carlos Monteiro |
É tempo de limpar gavetas
(segunda
parte …continuação)
Cartas
de amor mal-escritas em bem traçadas linhas de paixão, ‘qui bene amat, bene
castigat’, são lidas e relidas; nem eram lembradas, ainda trazem o bolor em
letras garrafais, sintonia de amor não correspondido, sequer foram postadas,
sequer foram levadas adiante, sequer foram completadas, era bem capaz não ter
valido a pena… se nem eram lembradas… Epístolas incompreendidas, cartas não
trocadas. Escondem poemas dedilhados, musas líricas, rimas pobres, lusos
pobres, rimar é riqueza de amar, sutil arte da narrativa do coração. Cornucópia
perene em moto-contínuo onde, ao invés de frutas saem palavras, pura docilidade
representativa da deusa do Olimpo dos escribas, velhos papiros
naufragados.
O
ranger dos cacifos, seja pela lubrificação inexistente, seja pelo ranço do
empeno cujo tempo fez senão, madeiras nobres já tão surradas do vai e vem
oblíquo, mas inconstante, guardam o tom das notas musicais ajuntadas nas velhas
fitas K-7, trilhas sonoras que embalaram viagens no tempo, tocadas no TDK do
Puma conversível vermelho. Jornada no século de apenas alguns minutos. Uma
espécie de hipnose, transe em reminiscência. Carole King e James Taylor, Stevie
Wonder, Jose Feliciano, dois ‘pra’ lá, dois ‘pra’ cá em Manzanero, um Sinatra e
Aznavour, “Et si tu n'existais pas / Dis-moi pourquoi j'existerais... // ...Hier
encore j'avais vingt ans / Je caressais le temps et jouais de la vie...” e como
a vida acaricia, e como ela brinca.
Estão
mais ao fundo, antigas imagens, fotografias desbotadas ainda em preto e branco,
bordas debruadas, detalhes ‘picuetados’. A velha foto do álbum de família,
desgastado pelas folheadas, charneiras descoladas, amarelecido papel manteiga;
quantas lembranças bem-vividas, quantos sonhos projetados nos slides esmaecidos
ao longo dos anos, alegorias metafóricas, máquina do tempo em movimento nos
rolos de Super-8 e nas fitas VHS.
Mais
ao fundo, sob o assoalho das memórias engavetadas, a bela máscara negra usada
em um certo Carnaval em Veneza, che bella città! O pequeno saco de tule
recheado dos confetes que deixaram de salpicar aquela noite e um rolo de
serpentina, apenas um, dos tantos que foram atirados ao léu, apenas um conta
aquela história de amor, aquele fusco, aquela máscara negra.
A gaveta
está vazia, a vida continua cheia de vida, linda e exuberante!
Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade Maravilhosa.





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