Entre lápides e luzes, o espetáculo machadiano segue em cartaz

 por Iaranda Barbosa | 


Entre lápides e luzes, o espetáculo machadiano segue em cartaz

Algum tempo hesitei se deveria abrir esta resenha ressaltando a incontestável qualidade da escrita de Machado de Assis, a assumida mediocridade de Brás Cubas, a versatilidade na direção de Regina Galdino ou a potência cênica de Marcos Damigo, no espetáculo Memórias póstumas de Brás Cubas, o musical cômico-fantástico.

Decidi então começar pelo reconhecimento de como as artes são produtos vivos criados pelos seres humanos com o propósito de serem atemporais, universais e passíveis de interpretações. Sim, caro leitor, as temáticas presentes na obra machadiana atravessam o tempo, são traduzíveis a qualquer língua e adaptam-se a qualquer expressão. A linguagem utilizada por Machado é uma flecha que atravessa os séculos XIX, XX, XXI e muitos outros que surgem tal qual um anagrama, um jogo gráfico com os números-letras (ou com as letras-número?). Na ponta dessa flecha está a essência humana que apenas os sensíveis são capazes de perceber. Marco Damigo e Regina Galdino se enquadram nesse perfil.

  Erguendo-se de um caixão vazado e sem tampa no meio do palco, Marcos Damigo ressuscita mais uma vez o protagonista machadiano, assim como nós o ressuscitamos sempre que abrimos o livro. A expressão corporal do ator dirigida de forma enérgica e interativa com a plateia, tal qual o escritor interagia com os leitores, dinamiza o monólogo da primeira à última cena. A prosa se transforma em música, que se transforma em dança que se transforma em performance enquanto o texto é falado/cantado/bailado.

O cenário, montado com poucos objetos e simplicidade, dialoga com a forma enxuta e pouco descritiva através da qual Machado de Assis compunha personagens e ambientes. O figurino, composto praticamente por uma peça única, apresenta um macacão nacarado de gola rufo com mangas até os punhos e tornozelos. Ele nos permite compará-lo à pele putrefata do defunto, em frangalhos, deteriorando-se, descompondo-se. Nesse sentido, a carne, bastante roída por incontáveis vermes, na iminência de desprender-se dos ossos, movimenta-se em pequenas tiras, inclusive na gorgeira. A ausência de calçados e a maquiagem remetendo à palidez cadavérica nos levam a recorrer ao ditado popular: daqui nada se leva. As cores neutras e as poucas interferências nos induzem a incidir atenção e manter o foco apenas no ator que, por sua vez, sustenta freneticamente o monólogo de quase duas horas. Quanto menos se descreve ou se polui os olhos com informações, mais o leitor/espectador possui liberdade para imaginar e refletir sobre as mazelas sociais até hoje existentes.

Em meio a transições irreverentes entre os personagens interpretados por um único ator, os ares de tonicidade circense se encontram com a fina ironia e com a crítica cirúrgica às hipocrisias, aos malabarismos políticos, às convenções sociais e às classes econômicas abastadas que se utilizam dos privilégios para a manutenção do poder e das aparências. A movimentação no palco convida o espectador a refletir enquanto ri. Damigo nos apresenta um controle absoluto de voz e corpo ao interagir com as intervenções musicais em meio a uma prosa narrada através da corpoeticidade artística — haja vista a cena na qual ele, ou melhor, Brás Cubas, narra o encontro com Quincas Borba, enquanto executa uma mistura de baddha konasana e shirshasana.

As mudanças de entonação e do gestual são imprescindíveis para que possamos imaginar os personagens e a personalidade de cada um deles. É possível compreender os diálogos percebendo bem a diferença entre o protagonista e os antagonistas. Assim, em um monólogo longe de ser monótono, Damigo interpreta não apenas Brás Cubas, mas também outros papéis, até mesmo alguns secundários.

O fantástico do espetáculo se expressa através da sobrenaturalidade advinda do século XIX, por meio de um autor não defunto que resolve criar um defunto autor e confundir nossas mentes com a ausência de uma explicação lógica ou com o absurdismo da diegese. Mas não seria a realidade tão ou mais absurda que os seres de papel e as sociedades retratadas nos livros? O ressuscitado (ou reencarnado?) envivece por algumas horas, agora sem qualquer compromisso com tabus ou convenções, para nos revelar segredos, traições, pecados e crimes até então guardados no baú das lembranças. Se os demais acreditavam que suas atitudes e condutas morreram e se calaram com Brás Cubas, o livro, a peça e outras linguagens as tornam extremamente vivas.

Damigo é o médium, o demiurgo, o canal de transmissão entre as dimensões. Ele se entrega à sobrenaturalidade das artes e segue uma direção trabalhada a partir de um texto lacônico, cuja ausência de pompa e circunstância dos personagens é o que lhes faz grandes, embora mergulhados na mediocridade da vida burguesa/aristocrática, de nunca haver “comprado o pão com o suor do próprio rosto”. O anti-herói machadiano atravessa os portais dos mundos comunicantes e encontra em Damigo o ser psicopompo ideal para recontar uma biografia sem grandes feitos altruístas, nem representações de morais elevadas. A reverência no final do espetáculo, expressada a partir dos aplausos, é para o ator e para o autor, que nos brindam, sim, verbo no presente, com a escolha que ambos realizaram ao decidirem seguir o caminho das artes, revelando que elas, ao romperem com a ordem e o status quo, nos permitem enxergar o mundo caótico no qual estamos inseridos. 

Não pude rever o espetáculo, não reli o livro, não conhecia o ator nem a diretora, não tinha ouvido falar do musical, não havia ido a nenhuma peça a respeito de Machado de Assis, não escrevi esta resenha “com a pena da galhofa”. Mas saio com um saldo positivo neste parágrafo de negativas: li Machado de Assis na adolescência e, na vida adulta, não perdi a oportunidade de ver a fusão de duas obras-primas. Não morrerei sentindo a miséria do arrependimento de não ter assistido à peça.



Iaranda Barbosa é professora, escritora e crítica literária, doutora em teoria da literatura pela UFPE. É autora dos livros Salomé (2020) e Palavras de Silêncio (2022). Organizou e foi curadora das coletâneas: Antologia das Mulheres Pretas (2021), Artemísias: vozes de libertação (2021) — traduzido para o espanhol —, As várias faces da Perna Cabeluda (2023) e Nativas, mestiças e transoceânicas: o poderio feminino em Abya Yala (2023). Atualmente é professora adjunta da Universidade Estadual da Paraíba e está com o livro Ponto de Luz em pré-venda.