por Taciana Oliveira |
Entre o lado A e o lado B: dias cinzentos
Nos últimos dias, pensei em escrever algo sobre o EP “Days Of Ash”, lançamento da quarta-feira de cinzas do grupo irlandês U2. Fiquei um tanto chocada com a abordagem de alguns veículos da imprensa tradicional em omitir o apoio da banda à causa palestina e com os comentários venenosos e rasos das redes sociais sobre esse e outros temas. É inacreditável que um tanto de internautas desconheçam a natureza ativista da banda e que a acusem de oportunismo ou de permanecer em cima do muro.
Os anos de 1980 foram marcados por uma explosão de nomes na cena musical nacional e internacional, favorecidos pelo crescimento da MTV, a consequente veiculação de videoclipes na programação de TV (Super Special, Clip Clip e Fantástico). Nas emissoras de rádio, por exemplo, transitavam nomes que redefiniram não apenas a música, mas o comportamento de gerações.
Conheci Bono, The Edge, Larry e Adam, através do meu irmão Ronaldo. Ele, naquele momento, era a minha referência para o mundo cultural. Não morávamos juntos, mas quando nos encontrávamos, de alguma forma, era Naldo que me alimentava de informações e me doava, logicamente, a sua revista Bizz, publicação mensal da Editora Abril especializada em música. É nesse contexto que o U2 entra no meu mundinho particular de se salvar da rotina e da tristeza tão peculiar daqueles anos. Nasci na década de 1970 e, na minha adolescência, convivi com a rejeição e omissão tão peculiares de uma convivência travestida de “lar doce lar”. Foi na literatura e na música que encontrei um refúgio emocional para superar as adversidades. É nesse contexto que a sonoridade e as letras do grupo fomentaram a minha formação. Desde sempre, a banda explicitava o compromisso com os direitos humanos e destacava sem amarras a complexidade dos relacionamentos afetivos e sociais.
Ressalto que, apesar de falar sobre o impacto desolador do uso da heroína, a canção “Bad” me acalentava sob outros aspectos: o afetivo e existencial. Sendo assim, a voz de Bono ecoava nas minhas noites de insônia e, com o passar dos anos, foi a trilha perfeita para o caos ou a euforia. Quero deixar registrado que nada supera a experiência de ouvir um álbum em uma radiola. Os inúmeros streamings oferecem a facilidade do acesso, mas perdemos muito em qualidade sonora e artística. Um álbum não continha apenas músicas, mas todo o conceito de produção da obra: designer gráfico, encartes e muitas vezes faixas que se interligavam como uma única composição. Lado A e Lado B eram muito mais que virar o vinil.
Quando passei no vestibular, poucos meses depois, finalmente fui morar com meu pai e meus irmãos. Agora a convivência era diária. Em um sábado qualquer do ano de 1989, novamente meu irmão Ronaldo (sempre ele) me procurou pela manhã para irmos a um sebo localizado na Rua da Glória, especializado em adquirir livros acadêmicos. Ele precisava se desfazer de uma boa quantidade de livros, já que havia trancado o curso de Ciências da Computação e pensava em não retornar à Universidade.
Vendemos tudo e fomos à antiga loja Pernambucanas da Rua Imperatriz e compramos toda a discografia do U2 em uma só tacada. Entramos no apartamento na surdina, meu pai não poderia sonhar em saber da tamanha loucura que proporcionamos. Durante os quase dois anos que morei ali, perdi a conta de quantas vezes ouvi The Joshua Tree, War,The Unforgettable Fire… Mas antes disso tudo já havíamos assistido ao documentário, Rattle and Hum, dirigido por Phil Joanou, em sessões no extinto Cine Art Boa Viagem e no clássico Cinema São Luiz. O filme trazia gravações ao vivo e novas músicas de estúdio, focando mais na turnê americana, incluindo sessões de ensaio e a visita da banda a Memphis. Saímos embasbacados da sala de cinema e conseguimos a proeza de repetir a dose pelo menos mais duas vezes. Algo que se repetiria depois com o lançamento no mercado de vídeo e DVD.
Quem conhece o U2 em profundidade sabe que o conjunto de sua obra traduz angústias e resiliências diante dos grandes temas do nosso tempo. Desde a relação conflituosa entre Inglaterra e Irlanda, marcada por nacionalismo, unionismo, religião e violência, até a defesa explícita do fim do conflito e da construção da paz, a banda sempre tratou essas questões sob a perspectiva da reconciliação.
Não se pode esquecer da condenação aberta ao apartheid sul-africano, sustentado durante anos com a complacência de governos como o britânico e o norte-americano; das campanhas humanitárias contra a fome na África; dos fundos de prevenção e combate à AIDS; e da canção em apoio às Mães da Praça de Maio, símbolo da resistência contra as ditaduras latino-americanas.
Os integrantes do U2, principalmente seu vocalista, já foram duramente criticados pela veracidade do seu ativismo, vide Rita Lee, que por diversas vezes fez questão de expressar: “Aliás, existe alguém mais chato do que o Bono Vox?” Mas dito tudo isso, não sou insana de afirmar que o U2 sempre tem razão. Ninguém é perfeito e sinceramente aguardava ansiosa um posicionamento contundente sobre o genocídio palestino e as outras questões que desabam sobre a dignidade humana. Repito então os versos iniciais de “American Obituary”, faixa que abre o EP Days of the Ash: “Você tem o direito de ficar em silêncio ou não.” Fico feliz que eles optaram pela segunda opção.
Em um planeta atravessado pela devastação ambiental, pelo extermínio de mulheres e crianças, pelo trumpismo e o renascimento pavoroso da extrema-direita, o U2 escolheu se posicionar. Bono canta em “One Life At A Time”: “You say you wanna save the world / Well how you gonna get that right?” (Você diz que quer salvar o mundo / Bem, como você irá fazer isso, certo?)
Não tenho mais 15 anos, sigo buscando um sentido nas coisas que não entendo ou não consigo suportar. Partilho agora um trecho do "Poema da Necessidade", do Drummond: "É preciso viver com os homens /é preciso não assassiná-los."
Torço bravamente para não assistir ao fim do mundo. Vida longa aos homens e mulheres de bom coração.
*Abaixo segue uma breve retrospectiva
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| Foto: Anton Corbijn |
U2: quatro décadas entre o rock de arena e o engajamento político
Formado em 1976, em Dublin, o U2 nasceu do anúncio colocado pelo baterista Larry Mullen Jr. no mural da Mount Temple Comprehensive School. Ao seu chamado responderam Bono (Paul David Hewson), The Edge (David Howell Evans) e Adam Clayton. Quase cinco décadas depois, a formação permanece a mesma, feito raro na história do rock. A banda surgiu durante o período conhecido como The Troubles, conflito entre nacionalistas irlandeses (majoritariamente católicos) e unionistas pró-Reino Unido (majoritariamente protestantes) na Irlanda do Norte. Desde o início, o grupo recusou-se a adotar uma postura sectária. Em vez disso, construiu uma identidade artística que condenava a violência de ambos os lados e defendia a reconciliação.
O marco definitivo dessa postura foi “Sunday Bloody Sunday”, do álbum War (1983). A música não glorifica o conflito, pelo contrário. Bono frequentemente a apresentava ao vivo com a frase: “This is not a rebel song.” Era um lamento pelas vítimas do massacre de 1972 em Derry e um apelo pela paz. Durante a War Tour, a imagem de Bono erguendo uma bandeira branca tornou-se símbolo da banda. Essa recusa em apoiar o IRA ou qualquer braço paramilitar gerou críticas na própria Irlanda, além de ameaças recebidas após a condenação pública do atentado de Enniskillen, em 1987. U2 apoiou ativamente o voto favorável ao Acordo da Sexta-Feira Santa em 1998, realizando apresentações em Belfast para incentivar jovens eleitores.
O grupo lança o EP U2 3 (1979) antes de estrear em álbum com Boy (1980), trabalho que já apontava sua marca registrada: guitarras atmosféricas, bateria marcial e letras que mesclavam espiritualidade e inquietação juvenil. A consolidação veio com War (1983), impulsionado por “Sunday Bloody Sunday”, canção que denunciava a violência do conflito na Irlanda do Norte sem aderir à retórica paramilitar.
A segunda metade dos anos 1980 transformou o U2 em fenômeno mundial. Com produção de Brian Eno e Daniel Lanois, The Unforgettable Fire (1984) expandiu a paleta sonora da banda. Mas foi The Joshua Tree (1987) que a elevou ao topo do rock global. O álbum liderou a Billboard 200, vendeu cerca de 25 milhões de cópias e produziu clássicos como “With or Without You” e “I Still Haven’t Found What I’m Looking For”.
Em 1985, a apresentação no Live Aid tornou-se um divisor de águas. Durante a execução de “Bad”, Bono desceu do palco do Estádio de Wembley para dançar com uma fã, num gesto improvisado que consumiu o tempo previsto para outro sucesso da banda, mas que acabou sendo considerado um dos momentos mais emblemáticos do evento — ao lado do show do Queen
Reinvenção nos anos 1990
Após o híbrido ao vivo/estúdio Rattle and Hum (1988), o grupo promoveu uma ruptura estética radical com Achtung Baby (1991). Influenciado por música eletrônica e industrial, o disco marcou o início de uma fase multimídia e performática, consolidada na turnê Zoo TV. Essa experimentação continuou em Zooropa (1993) e Pop (1997), este último inicialmente recebido com críticas divididas, mas reavaliado ao longo do tempo como um dos trabalhos mais ousados da banda.
Nos anos 2000, o U2 retomou uma sonoridade mais direta com All That You Can’t Leave Behind (2000), considerado por muitos críticos como um “retorno à forma”. O álbum rendeu múltiplos Grammys, incluindo “Gravação do Ano” e “Canção do Ano” para “Beautiful Day”.
Em 2004, How to Dismantle an Atomic Bomb se destaca com o sucesso comercial, com “Vertigo” e “Sometimes You Can’t Make It On Your Own”. No ano seguinte, a banda foi introduzida no Rock and Roll Hall of Fame em seu primeiro ano de elegibilidade (2009–2011) e tornou-se, à época, a mais lucrativa da história da música ao vivo.
Em 2014, o grupo surpreendeu ao lançar Songs of Innocence gratuitamente para usuários do iTunes, numa parceria com a Apple. A estratégia gerou críticas pela distribuição automática do álbum nas contas dos usuários. A sequência Songs of Experience (2017) reforçou o caráter introspectivo da fase recente, com letras em forma de cartas escritas por Bono a pessoas próximas.
“Miss Sarajevo” e a tradição das canções de protesto
Cinema, política e trilhas sonoras
A relação do U2 com o cinema nunca foi apenas estética, mas muitas vezes profundamente política. Em 1993, Bono participou da trilha de Em Nome do Pai (In the Name of the Father), dirigido por Jim Sheridan. O filme narra a história real dos “Guildford Four”, injustamente condenados por atentados do IRA nos anos 1970. Na trilha, Bono se envolve de duas formas diferentes: como compositor e como intérprete. A canção “You Made Me the Thief of Your Heart”, escrita por ele com Gavin Friday e Maurice Seezer, foi gravada por Sinéad O’Connor e lançada como single; já “In the Name of the Father”, faixa-título registrada por Bono e Gavin Friday, aparece na trilha como um dos momentos em que música e contexto político se cruzam de maneira frontal.
Ao longo dos anos, Bono amplia sua presença no audiovisual. Em 1988, o documentário Rattle and Hum, dirigido por Phil Joanou, acompanhou a turnê do álbum homônimo e registrou a aproximação da banda com a tradição musical norte-americana, do blues ao gospel, ao mesmo tempo em que refletia sobre identidade cultural e política.
Em 1993, o U2 contribuiu com “Stay (Faraway, So Close!)” para o filme Faraway, So Close!, dirigido por Wim Wenders. A canção, presente também no álbum Zooropa, tornou-se uma das mais líricas da banda, dialogando com a narrativa existencial do longa.
Bono escreve com The Edge a canção-tema de GoldenEye, interpretada por Tina Turner. Participou da trilha de The Million Dollar Hotel (2000), projeto idealizado com Wim Wenders. Gravou “Ordinary Love” para o filme Mandela: Long Walk to Freedom (2013), canção que venceu o Globo de Ouro. Mais recentemente, protagonizou o documentário Bono: Stories of Surrender, dirigido por Andrew Dominik, adaptando sua autobiografia e mesclando narrativa íntima e versões acústicas de clássicos do U2.
O novo ciclo: “Days of Ash”
Em fevereiro de 2026, o U2 lançou o EP Days of Ash, com seis faixas de forte teor político. O trabalho aborda episódios recentes de violência internacional e retoma a veia de protesto explícito da banda. Segundo Bono, as músicas “não podiam esperar”. Para o baterista Larry Mullen Jr., o material está entre os melhores da carreira do grupo. O lançamento foi acompanhado pelo relançamento da revista Propaganda, publicação histórica da banda criada nos anos 1980. Days of Ash, é definido como coleção “autônoma” de cinco músicas e um poema. O repertório é direto e nominativo: “American Obituary” homenageia Renée Good; “Song of the Future” se volta à jovem iraniana Sarina Esmailzadeh; e “One Life At A Time” remete ao ativista palestino Awdah Hathaleen. Entre essas narrativas, “Wildpeace” musicaliza um poema de Yehuda Amichai (lido por Adeola, com música do U2 e Jacknife Lee), enquanto “Yours Eternally” reúne a banda a Ed Sheeran e Taras Topolia, em uma colaboração que aproxima o EP do presente de guerras e polarizações.
Desde o Band Aid e o Live Aid até campanhas como RED e ONE, o U2 constrói uma trajetória em que música e ativismo caminham lado a lado. Ao longo das décadas, Bono tornou-se uma das vozes mais influentes do cenário político-cultural internacional, defendendo causas humanitárias, combate à AIDS e alívio da dívida externa africana. Críticos apontam contradições (mudanças fiscais da banda para a Holanda), mas é inegável que o U2 manteve o debate público como parte central de sua identidade artística.
Com mais de 170 milhões de discos vendidos, 22 prêmios Grammy e uma presença constante nas listas de “maiores artistas de todos os tempos”, o U2 permanece como uma das bandas mais influentes do rock contemporâneo.
Linha Cronológica — U2
1976 — Formação em Dublin
1979 — EP U2 3
1980 — Boy
1981 — Octobe
1983 — War
1983 — Under a Blood Red Sky (ao vivo)
1984 — The Unforgettable Fire
1987 — The Joshua Tree
1988 — Rattle and Hum
1991 — Achtung Baby
1993 — Zooropa
1993 — Trilha de Em Nome do Pai
1995 — Original Soundtracks 1 (Passengers)
1997 — Pop
1998 — The Best of 1980–1990
2000 — All That You Can’t Leave Behind
2002 — The Best of 1990–2000
2004 — How to Dismantle an Atomic Bomb
2006 — U2 18 Singles
2009 — No Line on the Horizon<span class
2014 — Songs of Innocence
2017 — Songs of Experience
2023 — Songs of Surrender
2026 — EP Days of Ash
Taciana Oliveira — Natural de Recife–PE, Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector — A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023) livro de poemas.


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