por Taciana Oliveira |
Quando faleceu, eu estava com vinte cinco anos. E desses vinte cinco, pelo menos treze foram de uma convivência distante, recortada, quase sempre interrompida. Meus irmãos foram criados por ele. Eu, por ser mulher, fui destinada a morar com a família da sua sobrinha, filha de sua irmã mais velha. Não me faltaram recursos para a educação e apoio financeiro nesse período. Mas, por outro lado, faltou cotidiano e cumplicidade. Nem tudo foi perfeito. Morei com ele apenas aos dezenove anos. Cheia de ressentimentos, rebeldia era o meu nome. Morávamos ao lado do Cinema São Luiz, no décimo segundo andar do Edifício Santa Alice. Fiquei somente dois anos dividindo o mesmo teto, mas, nunca deixei de visitá-lo nos últimos anos de sua partida precoce.
Aquariano, brincalhão, intenso. Meu pai preparava-se para a folia em quase um ritual. No final da década de mil novecentos e oitenta há um episódio bem pitoresco. Ele estava se recuperando dos famigerados problemas cardíacos, e mesmo assim apareceu no meio da multidão, filmado com um cachimbo na boca, dançando frevo no Galo da Madrugada, na Avenida Guararapes. Meu pai, ali, inteiro. Vivo. Na tela da Rede Globo, no NE TV Segunda Edição.
Euclides de Oliveira Melo era real. Nada a ver com o personagem de mesmo nome do filme O Agente Secreto. Antes de exercer a profissão de contador, foi barbeiro, e no Salão onde trabalhava transitavam nomes como Procópio Ferreira, Lúcio Mauro, Arlete Sales, Chico Anísio e tantos outros dessa geração. Dividiu quarto de pensão com Sivuca. Conviveu com boa parte dos personagens do rádio pernambucano, em uma cidade que já não existe mais: a metrópole dos ônibus elétricos, das passeatas na pracinha do Diário, dos encontros na feirinha de Boa Viagem, da sopa do Beco Fome e do Parque de Diversões na Rua da Aurora.
Nascido no interior de Pernambuco, passou a infância em Goiânia e foi morar com a irmã mais velha aos dezessete anos. Não sabemos muito da sua história nesse intervalo de tempo. Há um vácuo imenso em nossas trajetórias, sempre acreditamos que merecíamos mais. Resta a mim e aos meus irmãos um monte de recordações para compartilhar e enaltecer. Dentro do que foi possível, Euclides nos fortaleceu. Essa crônica nasce na chuvosa sexta-feira de carnaval. E se Seu Euclides estivesse vivo, diria na próxima quarta-feira de cinzas, sem pudor algum:
— Faltam exatos 356 dias para o carnaval do próximo ano.
*Para os meus irmãos Rodolpho e Ronaldo. Para meu filho, João Oliveira Melo
Taciana Oliveira — Natural de Recife–PE, Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector — A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023) livro de poemas

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