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A vitrine de vidro | João Gomes da Silva

 por João Gomes da Silva |



A vitrine de vidro


Havia, no gesto de ir à banca de jornal, algo que hoje nos parece quase impensável. O leitor se aproximava devagar, olhava de soslaio, esperava o vendedor ser chamado por outro cliente, e então, com a mão que fingia indiferença, puxava aquela revista que ficava meio escondida, entre as de culinária e as de automóveis, como se o mundo a tivesse colocado ali exatamente para que a vergonha e o desejo se encontrassem num ponto de fricção.

A internet democratizou o corpo masculino de um modo que nenhum movimento social jamais conseguiu. Qualquer rapaz que tenha o molho e uma mandíbula afiada, braços definidos e abdômen cultivado pode, hoje, abrir um perfil em qualquer plataforma (OnlyFans, Instagram, TikTok, o que preferir) e construir uma renda, uma audiência, às vezes até uma carreira, sem que para isso precise absolutamente nada além de si e de uma conexão razoável com o Wi-Fi. Não é prostituição, dizem. Talvez não seja. Mas também não é inteiramente outra coisa. É uma forma de comércio do corpo que encontrou um vocabulário que a classe média consegue pronunciar sem engasgar: criador de conteúdo, influenciador, modelo digital.

Quando a revista tinha preço de capa e exigia um gesto físico de aquisição, o corpo desejado tinha peso e gramatura. Ocupava espaço na gaveta, precisava ser escondido, às vezes destruído, as páginas grudavam. O desejo tinha consequências materiais, por menores que fossem. Hoje, o mesmo corpo aparece de graça, na tela que você consulta para ver as horas, entre um meme e uma notícia sobre o congresso. O erotismo se tornou conteúdo. E conteúdo, como qualquer economista de plataforma explicaria sem hesitar, perde valor na exata proporção em que se torna abundante.

Existe uma frase que se ouve às vezes em conversas entre homens de meia-idade, ditas com uma mistura de ironia e melancolia que é quase um gênero literário em si: “No meu tempo, ao menos a gente precisava se mexer.” Hoje quem se mexe são os garotos com calção, sem cueca, e provocantes no olhar. Lógico que nunca houve tantos corpos bonitos acessíveis, e nunca o desejo pareceu tão cansado. Fica-se olhando. Rola-se a tela. Salva-se a foto que não se voltará a ver. Dá-se o like que não significa nada. E ao fim da noite, fecha-se o aplicativo com a sensação vaga de ter comido muito sem ter sido alimentado e também dizem, pagando o encontro, que quem está liso dorme.

Mas o homem bonito que se exibe nas redes é, nessa equação, uma figura ao mesmo tempo, mais poderosa e mais estranha do que o modelo da revista. Mais poderosa porque está vivo, fala, às vezes responde comentários, cria a ilusão de proximidade que a fotografia estática nunca conseguiu. Mais estranha porque essa proximidade é fabricada em referências gringas, calibrada por algoritmo, distribuída para milhares de pessoas simultaneamente, cada uma delas sentindo a ilusão de uma atenção exclusiva que não existe.

E assim chegamos ao que talvez seja o diagnóstico mais desconfortável: não é que a abundância nos saciou. É que ela nos ensinou a nos bastar com menos e substituir o encontro pela contemplação. A trocar o verbo por um substantivo: não mais desejar alguém, mas ter desejos quietos, contidos, que não precisam ir a lugar nenhum porque a tela já oferece uma resolução suficiente, mesmo que falsa e vazia. 


Lambe-se o celular, como disse alguém certa vez com a crueldade precisa que a verdade às vezes exige. Ou pelo menos é o que nos dizemos enquanto rolamos a tela mais uma vez, procurando algo que não sabemos bem nomear, num arquivo infinito de imagens que nunca terão o calor de uma mão.




João Gomes da Silva nasceu no Recife–PE em 1996. Autodidata, é escritor, poeta e social media. Publicou em algumas antologias, como Granja, Sub-21, Capibaribe vivo, Tente entender o que tento dizer, No entanto: dissonâncias, etc. Edita a revista de literatura e ideias Vida Secreta. Revezamento Secreto (Selo Mirada, 2025) é seu primeiro livro de poemas.