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Estreia literária de Alice Puterman aborda violência sexual e saúde mental em Candura


Estreia literária de Alice Puterman aborda violência sexual e saúde mental em Candura


Alice Puterman, estreia na literatura com Candura, livro que reúne seis anos de escrita e propõe um mergulho em temas como violência sexual, saúde mental e reconstrução do corpo feminino em  território de resistência. Publicada pela editora Toma Aí Um Poema (TAUP), a obra será lançada durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2026, na Casa Gueto, no final de julho.


Candura nasce de uma urgência. “Há livros que nascem da vontade de contar uma história. Outros, da necessidade de continuar respirando”, afirma a autora no texto de apresentação. O processo de escrita começou quando Alice tinha 17 anos, após sobreviver a um estupro coletivo. Em seguida, o isolamento da pandemia intensificou o uso da escrita  em ferramenta de elaboração do trauma. Diagnosticada com Transtorno de Estresse Pós-Traumático, ela passou a registrar sua experiência não com intenção inicial de publicação, mas como forma de dar existência à dor.


Nos poemas, o corpo feminino  é destacado em um espaço de conflito: invadido, violado, mas também reconfigurado no lugar de resistência. A metáfora da casa permeia o livro, representando esse corpo que precisa ser habitado novamente após a violência. Em versos, Alice evidencia a dificuldade de reconstrução: ainda que se tente “redecorar as paredes”, trata-se da mesma casa que foi “arrombada e depredada”.


A obra não se limita à denúncia. Ao recusar o lugar de vítima passiva, a autora desenvolve uma poética que alterna entre a dor crua e momentos de delicadeza, articualndo a ideia de fragilidade feminina. No prefácio, ela afirma que não se interessa pela “força masculina” associada à violência, mas por outras formas de potência: a das mulheres que resistem, cuidam e recriam a vida.


O título Candura provoca à primeira vista, sobretudo diante da temática dos poemas. Para a autora, o termo remete à forma como mulheres são socialmente ensinadas a existir — de maneira dócil e ingênua —, condição frequentemente associada à vulnerabilidade. Alice, que é uma mulher autista, contesta essa leitura e ressignifica a candura como força. “Não importa quantos golpes me atinjam, é só por ela — a candura — que ainda estou de pé”, afirma.


A saúde mental constitui outro eixo central do livro. A autora aborda tentativas de suicídio, internações e tratamentos, incluindo eletrochoques, ao mesmo tempo em que destaca uma narrativa de permanência. Em um dos poemas finais, escreve sobre o contraste entre a vontade de morrer e o esforço contínuo de viver, apontando para uma possibilidade de reconstrução que não apaga as marcas, mas as incorpora.


Nesse sentido, Candura não propõe soluções fáceis nem encerra feridas. A escrita funciona como um gesto de nomeação  e, portanto, de enfrentamento. “Só somos capazes de lutar quando as violências têm nome”, afirma a autora, indicando a dimensão política de sua obra.


Natural de Petrópolis (RJ) e residente no Rio de Janeiro, Alice Monteiro Puterman é graduanda em Pedagogia, com passagem pelo curso de Letras da UERJ, e dedica-se também à área de inclusão. Autista com histórico de mutismo seletivo na infância, encontrou na escrita sua primeira forma de linguagem. Aprendeu a escrever aos três anos e, desde então, construiu nas palavras um espaço de existência.


Candura, seu primeiro livro, marca o encerramento de um ciclo e a afirmação de uma nova posição diante da própria história. “Eu finalmente me vejo sobrevivente, e não mais vítima”, declara. Atualmente, a autora prepara um novo trabalho também no campo da poesia.



Poemas do livro


1.


às vezes eu rezo mecânica quântica


se uma partícula pode estar em dois estados

isso significa que 

em alguma dimensão, você não foi embora

e parece estranho pensar

que esse desejo vem na frente de

não precisar ter medo dos homens

ou de não ter um cérebro que

tenta me enterrar viva

mas nenhuma quantidade de tragédia é maior

do que não ser amada por você


meus vinte anos nessa Terra

foram marcados

por feridas que nunca saram

que nunca param

eu estou sempre sangrando

seja lá de onde vierem os cortes

e ainda assim

eu não me encontro agora

implorando aos céus

pelo fim das agressões

eu rezo pelo amor


e não é lindo pensar

que por maior dor que contraia a nossa caixa torácica

e se espalhe pelo nosso ser

que

o amor

importa mais

do que a violência?


então, eu sei

que mesmo num mundo

que me põe em chamas

e ainda me pede pra dançar

enquanto eu viro pó

ainda assim

eu não preciso de escapatória


porque


o amor importa mais do que a violência


e isso,

é tudo que importa



2.


eu te prescrevo acupuntura

fratura de ossos calcificados da maneira errada

tilápias para tratar queimaduras

cirurgia sem anestesia

eu quero que você se cure

do jeito mais excruciante


pra você entender 

o que me fez passar


eu quero que você floresça

mas crescer dói

faz a gente ter que sair da gente

e virar parasita

pra entender o que é ser outro


eu quero que você se limpe 

de tudo aquilo que você nem sabe que fede


talvez assim

suas mãos parem de cheirar à morte


talvez assim

haja esperança pra você



3.


a partir de hoje,

vou acolher rachaduras em janela,

e deixar que toda a luz que vem de mim

reflita para fora


vou tatuar meu nome nas sombras,

batizar que elas não pertencem mais

a você


costurar cada ferida 

como quem remenda asas,

e chorar só onde as sementes 

esperam por chuva


não vou afogar no naufrágio 

nem deixar o furacão ser mais alto 

que a minha voz


vou recolher as águas da tempestade,

e lavar toda a imundice que você 

tentou 

deixar em mim


eu estou coberta de sujeira,

mas


a vida foi feita do barro, afinal 







FICHA TÉCNICA

Título: Candura: uma história de sobrevivência feminina
Autora: Alice Puterman
Gênero: Poesia
Editora: TAUP (Toma Aí Um Poema)
Ano de publicação: 2025
Número de páginas: 94

Disponível para vendas em: https://bit.ly/4rUZ6VO