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Irene ou da tensilidade, de Danilo da Costa-Cobra Leite

 por Taciana Oliveira | 



Irene ou da tensilidade, de Danilo da Costa-Cobra Leite



Publicado pela Kafka Editora, em 2025, Irene ou da tensilidade apresenta-se como um projeto poético de alta exigência formal e conceitual. O livro se configura como um único poema em fluxo, cujas divisões internas operam como zonas de intensidade, variações de um mesmo movimento de linguagem e experiência. Assinado por Danilo da Costa-Cobra Leite, autor cujo o estilo revela forte inclinação à experimentação linguística e ao hibridismo de registros, a obra destaca uma poética que se constrói na fricção. É possível reconhecer, na tessitura do texto, um autor atravessado por referências diversas (da tradição literária, a exemplo de García Lorca, presente na epígrafe, à mitologia e à filosofia), comprometido com uma escrita que desarticula os limites entre pensamento e sensação.


O título oferece uma chave interpretativa decisiva. “Tensilidade” não se limita a um conceito temático, mas atua em  princípio estruturante. Trata-se de um estado de estiramento contínuo, da narrativa, do corpo, do afeto, no qual nada se fixa plenamente. Essa condição atravessa o poema em múltiplos níveis: na linguagem, que oscila entre sentido e som, entre construção e desagregação; na relação amorosa, marcada por aproximações e rupturas, fusões e distâncias; e no sujeito poético, que se constitui instável, poroso, permanentemente em trânsito. Nesse sentido, a “tensilidade” pode ser entendida em uma espécie de ética da escrita, que parece contaminar o próprio gesto autoral: escrever, aqui, implica tensionar , esticar a linguagem até seus limites de significação.


Trata-se de um longo poema de amor que se elabora em aglutinação de temas e experiências. Ao invés de organizar-se de forma linear, o texto acumula, desfaz e refaz seus próprios movimentos, em um processo que espelha a dinâmica dos próprios relacionamentos que tematiza. O verso, assim, não se reduz a suporte, mas se impõe enquanto encenação: o amor emerge como algo que se compõe e se decompõe continuamente, enviesado por luto, memória, medo e coragem.


A dimensão erótica é central, mas não se restringe à representação do desejo. O erotismo opera enquanto matéria organizadora do poema, atravessando corpo e pensamento de maneira indissociável. O encontro entre os corpos não produz síntese, mas intensificação: os sujeitos se fundem e, simultaneamente, se desfazem. O verso sugere a dissolução das fronteiras entre ação e pensamento, instaurando um campo no qual o sensível e o reflexivo coexistem sem hierarquia.


Formalmente, o livro aposta na aglutinação como procedimento, mais do que a fragmentação. Há uma coerência interna que se estabelece na recorrência de imagens, ritmos e tensões. Neologismos, recombinações lexicais e jogos sonoros (“entrassair”, “olholhar”, “bilábios”) não operam enquanto ornamento, mas tentativa de capturar uma experiência que escapa à linguagem estabilizada. Em diversos momentos, o poema parece buscar um estado anterior ao sentido pleno, uma zona na qual a palavra ainda é corpo, respiração, impulso…


Outro eixo fundamental é a conexão entre erotismo e finitude. A morte atravessa o livro não enquanto interrupção, mas um horizonte constante da experiência. Em uma das passagens mais significativas, o sujeito poético procura nomear a morte e o amor para o filho, evidenciando a dificuldade, e a necessidade, de dar forma ao indizível. O poema, nesse contexto, constitui-se espaço de elaboração existencial, no qual linguagem e experiência se entrelaçam. A obra também se destaca pelo uso de múltiplas línguas e registros, incorporando trechos em inglês e espanhol. Essa heterogeneidade não é gratuita: reforça a experimentação do discurso e amplia o campo de ressonâncias do poema.


Trata-se de uma escrita que exige disponibilidade para o deslocamento e para a perda de referências estáveis, o que, por um lado, constitui sua força e, por outro, pode limitar sua acessibilidade para alguns. Visualmente, o projeto gráfico e a imagem inicial — um pássaro em ambiente sombrio — dialogam com a atmosfera do texto, sugerindo um corpo em suspensão, entre luz e sombra, presença e desaparecimento.


Em síntese, Irene ou da tensilidade afirma-se pelo vigor e risco. Ao se configurar  um poema único à deriva, Danilo da Costa-Cobra Leite propõe uma experiência estética que desarticula os limites da linguagem e do sujeito. Não se trata de uma poesia de conforto, mas de confronto: com o outro, com o corpo, com a morte e com a própria possibilidade de definição.


Ao final da leitura, permanece não a sensação de entendimento pleno, mas de atravessamento, como se o leitor também tivesse sido esticado, ainda que por instantes, pela mesma força que move o poeta e o poema.



Trecho do poema



você não fosse me buscar e me encontrara

a a o r t a vejo a dor que causei e o sofrimento que sou e fui.

Disseram-me que poderia haver sido, ora – o que é mais remoto? – e de que adianta unir poder, haver, ser?

Tudo é fogo nesta palha, ágil consumido. imagino-te uma ave pousada, o bico bege, olhos piche pretos, purpúreo crânio, rosa choque, calada com remígeas cinzas, encravadas nas asas pretas, branco o minúsculo peito, que cabe na palma de minha destra, pousada, aí te desejo sempre, como você veio aqui ter parada? de repente você desaparece.





Danilo da Costa-Cobra Leite nasceu na porção ocidental da Cidade de São Paulo do Rio Tamanduateí, lançou outros 5 livros: "Paralithomaquia", "Nhe'enga a more quixotesco", "Nenhuma chuva em vão: quebra-cabeça"," Epyka", "24 horas-haiku". É servidor público municipal e doutor em letras.






Taciana Oliveira — Natural de Recife–PE, Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector — A Descoberta do Mundo”. Publicou "Coisa Perdida" (Mirada, 2023) livro de poemas.