por Manoel Tavares Rodrigues-Leal |
O orvalho cai em beleza; as rosas
florescem e o suave cerefólio
e o florido trevo de cheiro.
[ἀ δ’ ἐέρϲα κάλα κέχυται, τεθά- / λαιϲι δὲ βρόδα κἄπαλ’ ἄν- / θρυϲκα καὶ μελίλωτοϲ ἀνθεμώδηϲ‧]
Safo [Σαπφώ], do fr. 96 – tradução de Frederico Lourenço
Descansa em escura terra o sagrado estrangeiro.
Em delicada flor a abrir
Cresceu no jovem o espírito divino,
A ébria melodia da lira
Que se apagou em rosada flor em botão.
Um poema de Georg Trakl, intitulado “Novalis” – tradução de João Barrento
I
meu trabalho insubmisso de poeta
ninguém o inaugura
a vigilante rosa rubra (23-7-76) mais atrai
mas ana – convido-te – amar sem meta
desgosta o gosto ___ não atrai
papéis poemas e em busca de – que sutura
de sofrimento insofrido no poema o protagonista até se queima
Lx. 17-9-76 – caderno Fragmentos de um livro dividido (Anónimo do séc. XX)
II
quando morrerdes, de mim, mortalmente, esquecei-vos,
quais crinas aderentes a ventos vários, quais celestes águas apagadas,
quais nuas rosas reabrindo-se, agora murchando, magoei-vos.
Lx. 17-9-76 – caderno Fragmentos de um livro dividido (Anónimo do séc. XX)
III
abstracta idade de uma flor,
flor a rodar toda distraída.
e em meu olhar glacial, perfume ou rara dor,
que o visita quando o outono se inicia e as folhas estão dispersas e caídas.
Belas – 24-9-76 – caderno Fragmentos de um livro dividido (Anónimo do séc. XX)
IV
oh exílio do ser, oh rosas exóticas e extáticas…
e essa claridade alada, que alaga teu corpo de mármore?
e essa sede de beber teus lábios, feitos fontes feridas.
Lx. 26/1/81 – caderno Rumor de Inverno
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| Manuscrito do poema IV |
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| M. T. R-Leal e L. de B. Tavares em casa do poeta – c 2012 |
Nota – O terceiro poema foi escrito na Casa de Saúde do Senhor da Serra, em Belas. Sobre a loucura ver revista Triplov e Caliban com outros reenvios.
Poemas de M. T. R.-Leal abordando as rosas na revista Caliban
*Poemas coligidos por Luís de Barreiros Tavares
Manoel Tavares Rodrigues-Leal (Lisboa, 1941–2016). Foi aluno das Faculdades de Direito de Lisboa e de Coimbra até ao 5.º ano, não concluindo. Conviveu em jovem com Herberto Helder no café Monte Carlo frequentando “as festas meio clandestinas, as parties de Lisboa dos anos 60 e 70”. Conheceu Sophia (era primo do marido da poeta, Francisco Sousa Tavares), Gastão Cruz, Maria Velho da Costa, José Sebag, Pedro Tamen, José Bação Leal, entre outros. Trabalhou na Biblioteca Nacional como “Auxiliar de Armazém de Biblioteconomia”. “A minha chefe deixava-me sair mais cedo para acabar o meu primeiro livro”, A Duração da Eternidade (2007). Cinco livros de edição de autor (de 2007 a 2011). Poemas na “Nova Águia”, “Caliban”, “Triplov”, “Mirada (BR)”, “Pessoa Plural (Brown University, University of Warwick, Universidad de los Andes)”, “A Ideia”, “Ameopoema (BR)”, “Occaso: voci poetiche dal Portogallo” (IT), “Athena”, etc. Os últimos dias de vida foram trágicos. Caído no quarto, morreu absolutamente só no Natal e passagem de Ano 2015–2016.

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