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Carregar-se é incendiar o tempo: Revoluteia de Mayk Oliveira | Andreia Santos

por Andreia Santos |



“Carregar-se é incendiar o tempo”: “Revoluteia” de Mayk Oliveira


A rotina silenciosa do homem cravada no trabalho infindo que lhe tolhe as asas. Como esvoaçar? Derrubando as catracas e rasgando as fardas, que nos deixam iguais, Mayk Oliveira em Revoluteia (Urutau, 2025), nos conduz a caminhos percorridos por esse ser que perdeu-se na potente falácia de que apenas o trabalho, árduo e repetitivo, dignifica o homem. 

Pode-se perceber, nos poemas, a figura de um sujeito que deve caber nas horas trabalhadas. E ao tentar encolher-se, não se dá conta que não é apenas a “prisão nossa de cada dia”, mas o que escolhemos não fazer (mesmo o que desejamos), por não ter tempo fazer. O tempo em que tudo nos é estabelecido priorizando o trabalho. Esse mesmo tempo que em sua trama e em várias camadas, por vezes nos paralisa, nos deixando inertes para o que está acontecendo. Em outras temos a consciência, mas temos a força e a coragem? Mayk vai nos provocando com sua voz poética que não grita sobre o urgente, mas que sussurra em nossos ouvidos como uma missão. 

Há na obra sessenta e três poemas. São “curtos e narrativos” e nos trazem a presença do que deveras ser significativo em nossa breve existência. “e o que era sonho? E o que era chama? Apagou-se, seco como o chão de fábrica”, trecho do belíssimo poema Homem. 

Um homem sem nome, engolido pela engrenagem, que esquece que ele próprio deveria produzir sua melodia para seguir sua própria jornada, mas para o ato de ser obrigado a ser produtivo, desfaz qualquer personalidade e contribui para a automação do homem que passa a viciar-se na “Canção da Máquina”, melodia ininterrupta. A chama da poesia de Mayk está em colocar o calor da provocação de um mundo centrado em uma máquina que precisa do homem para girar e que tira a própria rotação desse ser, despedaçando seus desejos e fazendo que ele pense que tudo que ele precisa é labutar para chegar em um lá invisível. 

Fica-se com a impressão de que Mayk desenhou suas letras com um lápis de ponta muito finíssima e deixasse sobre a superfície branca os sinais gráficos alinhados, mas que embaralharam-se, nos afrontando entoando verdades, muitas vezes veladas, em nome de uma vida “mais da mesma”.  Na obra ainda há o abrasamento nos desvelando um amor que não é contido e que é celebrado com  demasia (como o deve ser), “não quero o amor contido, quero o que explode, o que desafia as regras do dia, quero nós, no caos das horas, dançando contra o vendo, ardendo sem medo” (Rebeldia em chamas).

Ao sabor de belíssimos títulos, que agarram (sem machucar) e  deixam a obra ainda mais rica,  busquemos “A revolução do amor”, a nostalgia das “Lembranças do vento”, a revolução na “Subversão do teu beijo”, “Nessa terra de nós dois”, pois estamos salvos pois há  Poemas reais”. 





Andreia Santos é graduada em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), especialista em Literatura e Estudos Culturais (UEPB), mestre e doutora em Literatura e Interculturalidade (PPGLI/UEPB). Professora universitária.  Autora de contos, crônicas em antologias e coletâneas. Autora do livro de contos: As letras que deixei partir (Editora M.inimalismos, 2025) e dos livros de poesia, ambos no prelo, Da Pureza do Sensível (Editora Caminhos Literários) e Que venham as histórias: as palavras eu as escolho (Editora Xará).



Mayk Oliveira nasceu em Delmiro Gouveia, sertão de Alagoas. Poeta, escritor, músico e professor de História e Letras, é membro do movimento artístico Arborosa, situado no alto sertão nordestino. Com produção literária iniciada nos anos 2000, publicou os livros de poemas Livro dos Delírios (Parresia, 2020) e Pétrino Astéri (Parresia, 2021). Revoluteia (Urutau, 2025) é seu mais recente livro. Ambientalista por essência, cultiva uma roça orgânica com flores e plantas nativas, enquanto atua na linha de frente contra os riscos sanitários do mundo moderno.