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Poemas do livro Asfixia, de Danielle Freitas

 


necrófagos


bombardeadas

pelo desespero

seus corpos exalam

a fragrância do medo

em notas de cádmio e arsênico


mais uma das muitas mães

que pariram seus filhos

envoltos de cobre

e mercúrio


dos seus seios,

metais pesados

nutrem de câncer

seus recém-nascidos


dos seus olhos,

lágrimas libertam

o amianto

em cóleras imersas


buscam sobreviver

ao caos da guerra

ao ódio


que contamina o solo

aos déspotas

que devoram o mundo

com a fome dos abutres





eletrochoque


Se eu sumir desaparecer eles me procuram onde eu estiver

Pra estar olhando pro gás pras paredes pro teto

(Stella do Patrocínio, Reino dos bichos e dos animais é o meu nome)


meus gritos ecoam

pelos corredores

corpo em transe

trêmulo

incrédulo

corpo-pássaro atropelado

a debater-se

no asfalto quente


tem cheiro de éter

a angústia

o medo

tem sabor de morte

o desespero


sinto o movimento

dos pássaros no peito

a obstruir

minha respiração



sufocada entre

paredes brancas


desfaleço


é só o prenúncio

de mais uma sessão





bumerangue 


meu pai para evitar 

uma guerra 

fez um acordo político

 me entregou de presente

 ao seu inimigo

mal sabia meu pai

que quis evitar 

o derramamento de sangue 

que eu sou um 

bumerangue





agarrada 


minha mãe

antes de sair

para trabalhar

me abençoava

“fique com Deus!”


assim que

ela saía

da frente da TV

ele se levantava


e a Deus eu

me agarrava

mas Deus nunca

me escutava

sendo agarrada




perdida


vivo a procurar por mim

esse eu que se esconde

e se revela

em pedaços

estilhaços

de espelhos

nunca inteira

sempre

em partes

em interditos sutis

e contradições ardis

na mais perfeita

incompreensão

nesse inferno interior

insone noturno

vislumbro o vazio

desamparada

sempre à procura

do caminho de casa






Danielle Santos de Freitas, nasceu e mora em São Luís, é doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Pesquisadora, escritora e poeta. Asfixia (2025) é seu livro de estreia, publicado pela Editora Patuá.