necrófagos
bombardeadas
pelo desespero
seus corpos exalam
a fragrância do medo
em notas de cádmio e arsênico
mais uma das muitas mães
que pariram seus filhos
envoltos de cobre
e mercúrio
dos seus seios,
metais pesados
nutrem de câncer
seus recém-nascidos
dos seus olhos,
lágrimas libertam
o amianto
em cóleras imersas
buscam sobreviver
ao caos da guerra
ao ódio
que contamina o solo
aos déspotas
que devoram o mundo
com a fome dos abutres
eletrochoque
Se eu sumir desaparecer eles me procuram onde eu estiver
Pra estar olhando pro gás pras paredes pro teto
(Stella do Patrocínio, Reino dos bichos e dos animais é o meu nome)
meus gritos ecoam
pelos corredores
corpo em transe
trêmulo
incrédulo
corpo-pássaro atropelado
a debater-se
no asfalto quente
tem cheiro de éter
a angústia
o medo
tem sabor de morte
o desespero
sinto o movimento
dos pássaros no peito
a obstruir
minha respiração
sufocada entre
paredes brancas
desfaleço
é só o prenúncio
de mais uma sessão
bumerangue
meu pai para evitar
uma guerra
fez um acordo político
me entregou de presente
ao seu inimigo
mal sabia meu pai
que quis evitar
o derramamento de sangue
que eu sou um
bumerangue
agarrada
minha mãe
antes de sair
para trabalhar
me abençoava
“fique com Deus!”
assim que
ela saía
da frente da TV
ele se levantava
e a Deus eu
me agarrava
mas Deus nunca
me escutava
sendo agarrada
perdida
vivo a procurar por mim
esse eu que se esconde
e se revela
em pedaços
estilhaços
de espelhos
nunca inteira
sempre
em partes
em interditos sutis
e contradições ardis
na mais perfeita
incompreensão
nesse inferno interior
insone noturno
vislumbro o vazio
desamparada
sempre à procura
do caminho de casa
Danielle Santos de Freitas, nasceu e mora em São Luís, é doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Pesquisadora, escritora e poeta. Asfixia (2025) é seu livro de estreia, publicado pela Editora Patuá.


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