por Taciana Oliveira |
Lançamento de "Ódio ao poema", de Vitor Miranda
“Eramos todos poemas antes do ódio” | resenha
Em Ódio ao poema, publicado pela Barraco Editorial, Vitor Miranda entrega uma escrita que se afirma no conflito entre linguagem e realidade, recusando a ideia da poética em uma esfera independente da experiência social. A obra se aproxima, em estrutura e ritmo, de um manifesto, no qual o poema não apenas expressa, mas intervém, denuncia e se expõe às contradições do presente.
O posfácio, assinado por Lucas Guimaraens, intitulado “Escutar o ódio do poema, ou o avesso do amor”, sugere que o “ódio” anunciado no título encobre uma operação mais complexa. Para ele, trata-se de um deslocamento que retira a poesia de sua zona de conforto e a reinscreve no campo da percepção. Essa leitura encontra ressonância na própria formulação do autor, que afirma: “coloco o Poema como personagem principal em um mundo que violenta a poesia”.
De fato, ao longo do livro, o poema deixa de ser apenas forma para assumir uma condição dramática. Ele se apresenta faminto, deslocado, mercantilizado — “há milhares de poemas em situação de rua” —, figura que concentra em si os conflitos entre linguagem e sociedade.
Portanto, o livro conversa com experiências da poesia moderna e contemporânea que buscaram romper fronteiras entre o privado e o público, entre o íntimo e o político. Faço agora uma menção a Allen Ginsberg em uma referência comparativa a proposta estética combativa. Em tempos distintos e com estilos e linguagens próprias, Ginsberg e Vitor Miranda questionam o sistema literário e social, cada um a seu modo. Se no autor norte-americano o poema por vezes é fluxo e expansão da experiência, em Miranda ele assume uma forma mais fragmentada e direta, igualmente marcada pelo confronto com o presente e pela recusa de um lugar acomodado para a poesia.
A incorporação de elementos do cotidiano, violência urbana, desigualdade, cultura de massa , atravessa os versos sem mediação explicativa:
“madonna pede para higienizar o banheiro [...]
o poema limpa sua privada [...]
a polícia matou uma criança”
A justaposição de registros revela uma escrita que não organiza o mundo, mas o apresenta em sua desordem. Esse procedimento constrói e desconstroi uma linguagem que se aproxima da montagem e da colagem, criando uma narrativa descontínua e, por vezes, saturada, aspecto que pode ser compreendido como estratégia estética alinhada à experiência contemporânea.
Outro ponto central é a crítica à mercantilização da arte e à lógica de consumo que atravessa o campo cultural. Em versos como “comprem poemas [...] como quem vende o voto” , Miranda explicita a inserção da poesia em circuitos de troca e valor, questionando seus modos de circulação.
A escrita de Ódio ao poema também se agrega ao contexto coletivo do qual o autor participa, em especial ao movimento Neomarginais, que procura ampliar vozes e deslocar centros de produção literária. Essa dimensão coletiva reforça a ideia de que o poema, no livro, não é expressão individual isolada, mas parte de uma rede de experiências e discursos.
O posfácio de Guimaraens indica que, sob a aparência de recusa, há uma tentativa de reconfiguração da própria ideia de poesia. Ao revelar que o livro opera no “avesso do amor”, o crítico aponta para uma escrita que não abandona a poesia, mas a submete a um processo de revisão radical. Essa perspectiva ajuda a compreender passagens em que o livro se volta para a própria linguagem:
“o poema é reverter a morte das palavras
trazendo-as de volta à vida”
A afirmação final, “éramos todos poemas antes do ódio”, condensa a ambiguidade que atravessa o livro, sugerindo a consciência de uma perda que mobiliza a escrita. Assim, Ódio ao poema é uma obra que reverbera os impasses da poesia sem a pretensão de resolvê-los. Ao expor o poema ao desgaste do mundo e, ao mesmo tempo, insistir em sua permanência, Vitor Miranda nos entrega um livro que se sustenta no embate entre crítica e criação, e é nesse movimento que se desenha sua relevância.
SOBRE O AUTOR
Vitor Miranda é poeta e escritor paulistano com vivências pelo Paraná e Minas Gerais. Atualmente se divide em São Paulo e Valinhos. “Os ratos vão para o céu?” é seu sétimo título lançado. Entre poemas e contos, e o romance experimental “A moça caminha alada sobre as pedras de Paraty”. É poeta e letrista da Banda da Portaria, projeto que nasceu para musicar os poemas de seu livro “Poemas de amor deixados na portaria” e ganhou vida. É parceiro em letras e canções de artistas como Alice Ruiz, Rubi, Touché, João Sobral, Luz Marina, Zeca Alencar e os porteiros João Mantovani, Binho Siqueira e Arthur Lobo. Também faz parte como letrista do Margaridáridas, projeto de sua parceria com o músico paranaense, Eduardo Touché. Criou em 2019 o videocast de poesia Prosa com Poeta, no qual entrevistou diversos artistas como Alice Ruiz, Maria Vilani, Bob Baqq, Daniel Perroni Ratto, entre outros. É criador e organizador do Movimento Neomarginal, grupo artístico vivo que tenta vencer as amarras do mercado artístico misturando artistas de diferentes níveis (sociais) de público nos mesmos eventos.
Dados do livro:
Poesia
Barraco Editorial
O livro está disponível em pré-venda pelo valor de R$ 50, com aquisição direta junto ao autor ou à editora por meio das redes sociais: clica aqui e aqui
Agenda
26/04 a 03/05 – Flipoços – Poços de Caldas – MG
09/05 – FLIUNG – Guarulhos - SP
21 a 31/05 – Feira do Livro de Joinville – SC
20/06 – lançamentos Neomarginais na La Libreria - SP
Setembro – Festival Literário da UFTM - MG
*Taciana Oliveira - Natural de Recife (PE), Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo” Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023) livro de poemas.


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