por Taciana Oliveira |
Livro de estreia de Ruy Antônio Barata resgata memória familiar e história política da Amazônia
Aos 80 anos, o médico paraense Ruy Antônio Barata estreia com a obra Esse Rio é Minha Rua (Editora Paka-Tatu, 2026), livro que entrelaça memória familiar, história política e formação cultural da Amazônia. O autor reconstrói quase um século de experiências vividas entre o Pará e o Rio de Janeiro, propondo uma leitura singular da construção da identidade brasileira a partir do Norte do país. A narrativa parte da trajetória da família Barata e atravessa diferentes períodos históricos, abordando desde o ciclo da borracha até os impactos da Guerra Fria, da Segunda Guerra Mundial e das disputas políticas no Brasil e na América Latina. Ao recuperar esses acontecimentos sob a ótica pessoal, o escritor evidencia o papel da Amazônia em processos muitas vezes negligenciados pela historiografia tradicional.
Combinando memórias íntimas com acontecimentos políticos e culturais, o livro reúne personagens históricos, episódios familiares e reflexões sobre a formação social do país, destacando a influência de figuras como o avô Alarico Barata, defensor de presos políticos, e o pai Ruy Barata, poeta ligado à Geração de 45, além da convivência com artistas, intelectuais e militantes que marcaram a trajetória do autor.
Entre episódios pessoais e acontecimentos históricos, Esse Rio é Minha Rua elabora uma narrativa que aproxima memória individual e história coletiva, explorando o papel da cultura, da política e da experiência amazônica na formação do Brasil contemporâneo. O resultado é um relato que transita entre o documental e o literário, oferecendo um panorama sensível e crítico de um país visto a partir das margens dos grandes centros.
Nesta entrevista, Ruy Antônio Barata fala sobre as memórias que atravessam a obra e o papel da Amazônia na construção de sua visão de país.
1. Seu livro reconstrói quase um século da história de sua família entre o Pará e o Rio de Janeiro. Em que momento você percebeu que essa trajetória pessoal também dialogava com a formação da identidade nacional?
Vivi numa casa em que se respirava política e cultura 24 horas por dia. Embora atrasados e afastados dos grandes centros percebi desde cedo o reflexo da política nacional na Amazônia.
2. A obra aborda o impacto de eventos políticos, a ditadura, a Guerra Fria e movimentos sociais, na Amazônia profunda. Em que aspectos a sua vivência familiar contribuiu para essa leitura da história brasileira?
Meu avô, por exemplo, foi atingido pelo golpe dos tenentes em 1924 e daí em diante tivemos uma sequência de golpes militares que ocorreram na Amazônia, como Jacareacanga e Aragarcas até o padecimento da ditadura de 1964.
3. A narrativa reúne memórias íntimas, episódios históricos e experiências culturais marcantes. Comente o processo de equilibrar a dimensão pessoal com a responsabilidade de registrar fatos históricos?
Equilibrar as exigências pessoais no ambiente conturbado da política sempre nos trouxe dificuldades adicionais tanto na escola como na formação profissional. Por isto fui preso, meu pai e irmã também no golpe de 1954.
4. A presença de figuras importantes da cultura e da política brasileira atravessa a narrativa. Qual foi o impacto dessas convivências na sua formação intelectual e no tom do livro?
Nossa casa em Belém sempre recebeu figuras importantes do meio cultural e político o que me permitiu abrir horizontes e diminuir fronteiras para o conhecimento.
5. Em diversos momentos, o texto apresenta a Amazônia como um espaço central, mas frequentemente negligenciado pela historiografia nacional. Que reflexão você espera provocar no leitor sobre o papel da região na construção do Brasil?
Minha expectativa é simplesmente contribuir para esclarecer caminhos amazônicos da política e cultura regionais, bem como compartilhar a vida simples de nossa geração
6. Ao revisitar episódios de repressão política, resistência cultural e convivência familiar, o senhor constrói um relato que mistura história e experiências marcantes. Qual o maior desafio emocional ao transformar essas memórias em literatura?
O maior desafio em transformar lembranças em literatura além da pesquisa histórica, cavar a memória, ser fiel aos fatos, muito mais do que isso é o ato, o trabalho, o esforço de de escrever, cortar e reescrever.O trabalho de escrever é intenso e desafiador
SERVIÇO:Coquetel de lançamento de Esse rio é minha rua de Ruy BarataSexta-feira, 24 de abril de 2026, das 18 às 21hLocal: Livraria da Vila - Avenida Paulista, 1063 (próximo à estação de metrô Trianon Masp)
Título: Esse rio é minha rua
Autor: Ruy Barata
Editora: Paka-TatuGènero: Não ficçãoISBN: 978-85-7803-711-6
Preço: R$80
440 páginas
Taciana Oliveira — Natural de Recife–PE, Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector — A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023) livro de poemas.


Redes Sociais