O puro suco do Brasil | Raphael Cerqueira Silva

 por Raphael Cerqueira Silva |



O puro suco do Brasil



   

Sento longe da criançada e da JBL — enorme, inconveniente — cuspindo funk. Na minha opinião, funk em festa infantil é coisa de fazer Cristo descer da cruz.

Sim, abelhudo leitor: deixei o recesso do lar nesta ensolarada tarde e vim cantar “é big, é big, é big” para o caçulinha do chefe. Pois é. Infelizmente, nem sempre se faz o que se quer.

Estrangulo o tempo com um pacotinho insosso de pipoca. 

Personagens de olhos esbugalhados e cabelos em desalinho decoram o bolo. Ainda há pouco, uma senhorinha comentou que ultimamente perderam o gosto pra tudo. Errada não está.

Quero-queros folgam no gramado à beira da lagoa; um sanhaço saltita no guidom de uma bicicleta. De repente, uma mão de falanges tortas e unhas roxas puxa a cadeira ao meu lado.
— Oiê. A gente vai te fazer companhia. 

Nem precisava me virar: a voz, mais pavorosa que as unhas, é inconfundível.  

Ivanildes indica a outra cadeira para Maércia, que desaba o corpanzil e larga um maço de Eight sobre a mesa.    

Engasgo com um piruá. Um sorriso — certamente amarelo — risca minha cara. 

Prometo a mim mesmo falar apenas o indispensável. Sinto saudade do meu quarto — sobretudo da janela: o mamoeiro crescendo imponente no terreno baldio; a molecada voltando, suada e eufórica, da pelada; as meninas-moças saracoteando em bicicletas elétricas; do alto do bordão-de-velho, o casal de urubus espiando meus nada quaresmais pensamentos...

Quando penso que abandonei tudo isso e me enfurnei aqui, dá vontade de, como um personagem faulkneriano, me entregar às águas turvas da lagoa. 

— Menina, me conta. O que você arrumou com a faxineira? Botou pra correr?  

— E dá pra perder mão de obra, comadre? Ruim com ela, pior sem ela. Hoje em dia, com bolsa-família e essas regalias do governo, não se acha mais gente pra trabalhar.

Volto à lagoa. Os quero-queros querendo sei lá o quê. A bicicleta, agora órfã do sanhaço, recebe réstias do poente. Um balão metálico atravessa o espelho d’água. Uma criança, lambuzada de brigadeiro, berra olhando para o céu.    

— Tá difícil mesmo. Foi um custo achar alguém pra capinar meu terreno.

— Então não é? A faxineira continua indo sábado. Aí combinei com meu marido da gente comprar marmita ou almoçar fora. Porque a folgada, além de tomar meu café, ainda enchia o pandu com minha comida.

— Folgada demais da conta, comadre. 

O garçom —  um rapazinho parecidíssimo com o Tom Cruise, em Negócio Arriscado — deixa duas caixas de Tial na mesa.    

Comadre, vê se faz alguma coisa útil pra nação.    

—  Já fiz. O L. — responde Maércia, numa gaitada carregada de nicotina e cinismo. 

Enquanto açúcar e conservante enchem o copo plástico, Ivanildes vira-se para mim:  

—  Você concorda? 

Essas cretinas gostam de me provocar. Por isso evito contato com elas, dentro e fora do expediente. 

—  Concordo em gênero, número e grau – rosno. 

As patrióticas comadres trocam um olhar esquisito. Numa festa estranha dessas, porém, ninguém percebe. Ninguém além de mim.

Faço um gesto pro Tom Cruise do bufê. 

Peço mais pipoca. 

 



Raphael Cerqueira Silva, é mineiro de São Geraldo, servidor público, graduado em Direito e História, e cronista nas revistas Vicejar e Conhece-te. Publicou Confissões, livro de contos, e A Vida Segue, livro de crônicas.