Cinco poemas de Christian Dancini


Foto de Amir Sani na Unsplash


5. (do livro Dialeto das Nuvens)

Coração índigo


Uma andorinha se desprende do teu crepúsculo, eu vejo agora

teus olhos confusos e tristes,

por trás da máscara. Equilibrista em minha aorta. Um anjo azul e rosa

que pousou na ponta da minha melancolia.





6. (inédito)


deus —

/luz acesa/

frente às trevas —

 

/prisma da noite cega/

 

atravessando

tudo que respira.






17. (inédito)


às vezes 

penso em me perder 

para sempre 

quando na verdade 

o que eu quero 

é ser encontrado.






* (do livro Suspensos no Ar em Silêncio por um Instante)


Os olhos desta casa ardiam em brasas mornas. As janelas 

penduradas na ponta dos meus olhos.

Um pássaro sobrevoando o alicerce de todas as coisas, 

grasnando um recital em cachoeiras de

aleluias. Eu agora mergulho na profundidade do poema, 

fluvial, um redemoinho de dispersões,

para acabar com toda e qualquer escritura. O solo agora 

se movimenta por entre linhas tênues

de solidões pluralizadas, eu mastigo a folhagem e o 

sereno da manhã ressoa orvalhos em meus

dentes petrificados. Serafins sobrevoam galáxias, 

medindo o espaço-tempo com uma fita.

Nebulosas eclodem, o sistema solar estremece, tudo volta 

ao seu devido lugar e uma formiga

carrega seu alimento para dentro do formigueiro. A 

morte é encontrada naquilo que vive

dentro, na formiga e nas nebulosas. E eu assomo, na 

vastidão concreta das plantas que nascem

do céu. Na bomba nuclear que rebenta meu peito com 

incertezas. Tu és o certo e a certeza,

de onde escrevo e onde termino meu poema.






FXXXXXXX FXXXXXXX (Suspensos no Ar em Silêncio por um Instante)


Eu. Só. Suburbano. Tu. Quieta permaneces. 

Nosso amor, um embrião vociferando. 

Sempre haverá um pedaço do teu corpo 

em minha memória. Pois eu. Só. Arrabalde. 

Naufrágio de estrelas. Teus cabelos vermelhos.

Tua boca macia e doce. Tua mão que estendida toca 

a minha. Tua compleição. Tua verve: deserto.

Se eu pudesse tocar tua memória, eu moldaria 

uma pedra à tua imagem. Tu. Eu. Quietude.

Mesmo assim, mesmo longe, não.

Então agora, irrompem de dentro de mim

mil borboletas azuis em estado de graça.

Mas não seriamos todos nós 

pedaços de uma mesma estrela?





Christian Dancini é um poeta do interior de São Paulo, de São Roque. Já escreveu quatro livros, um semifinalista do Prêmio Oceanos 2024 (Dialeto das Nuvens), participou de diversas revistas e de uma antologia sobre o genocídio em Gaza, organizada por outros escritores.