
Foto de Pawel Czerwinski na Unsplash
Poemas de Maria Emanuelle Osório Prates Cardoso
na pleura foi fertilizada a várzea
o bicho humano é filhote de gravuras
nasce ternura de pés-de-ouro
saltitando Serra acima
deglutindo bananeiras
e estrelas
esperando nas vazantes
um barco
que nunca chegará
é preciso ensiná-lo
a plantar um barco
dizer que também
o bicho humano
é a transumância
farejando as sempre-vivas
navegando rumo as brânquias das colinas
dizer que a essa forma
em nossa língua
chamamos barco
(cada palavra mil e uma flor)
espera a canoa, filhote humano
o barco que sai
de dentro
da nossa caixa torácica
palco banguela
quando estiveres no ringue
que viu teu fêmur
tornar-te menino
lembra-te da ingremidade
das ribanceiras
belorizontinas
com o ritmo
de um mindinho
esquerdo nocauteado
lembra-te do primeiro beijo
do primeiro soco moldado
pela saliva
todos os dentes
na plateia
têm o sotaque híbrido
de tua bisavó
que nunca conheceste
mas foi ela quem te deu
um nariz-mitocôndria
para fraturar
dou-te um round
para que ele tenha
teu nome:
basta ficar na beira,
como um pássaro
esticando as asas
brincando de ser grande
em pose de deimatismo
como uma criança
sentada no quarto
para as paredes rosnando
esperando o escuro passar
para entrar no ringue
é preciso subir
no palco banguela
sabendo que
para o ataque
para a defesa
para o afago
os pugilistas usam
apenas os punhos
o único ticket de entrada
é a poeira acumulada
em tuas rachaduras
para chegar a este ringue
é preciso ser
o teu próprio cutman
remendar tuas feridas
com massinha de modelar
e a luva de espuma-espera
em ringues oficiais:
um corner é azul
o outro, vermelho
os outros dois restantes
– brancos
a observar
os dentes
de quem sangra
de quem espera
de quem nunca saiu
deste ringue.
quando dois boxeadores
se seguram
sem trocar socos
chamamos de clinch
e não draw
porque draw usamos no amor –
quando uma luta empata
ou se anula
no amor
ninguém nunca vence
se não vences a partida
constrói teu próprio golpe
como fuselo
com ânsia de migrações
sabendo que as mãos
são tua única ferramenta
para fundar um bico específico
adequado à dureza
e ao tamanho das tuas sementes
e ao saber onde estão
as cordas do tablado
poderás ser um gato
a ignorá-las
derrubando todo soco
com a pata
quando te chamarem
sequer balança as orelhas
diz que não sabes
qual é o ringue
em questão
apenas sabes
que nasceste para derrubá-lo
e depois lamber-te as mãos
sabendo que acabaste de fundar
a vitória dos estilhaços
Maria Emanuelle Osório Prates Cardoso | Nasceu em Montes Claros (MG) em 15 de novembro de 2000. É autora de amarelo mostarda (Editora Nauta, 2024; semifinalista Prêmio Loba 2025), Pugilismo, segundo Lauren L., (Selo Capitolinas, 2026), Flor na Mulera (Sertão Pasárgada, 2026, no prelo) e Foram os peixes a inaugurar a linguagem (Macabéa Edições, 2026, no prelo). Integra a Equipe de poetas da FaziaPoesia e é membro do Coletivo Escreviventes e do Neomarginais. Possui textos publicados em mais de 60 revistas em português, inglês e espanhol. É etnoecóloga e doutoranda em Biodiversidade e Uso dos Recursos Naturais (PPGBURN) na Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES). Atua como educadora popular e ativista socioambiental. Desenvolve pesquisas em territórios tradicionais e investiga o papel das redes de troca na adaptação diante da incerteza socioambiental.

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