a letra minúscula: deus — poesia — filosofia | Luís de BarreirosTavares

  por Luís de Barreiros Tavares |


Jean-Luc Nancy — Giorgio Agamben — Manoel T. R.-Leal

a letra minúscula: deus — poesia — filosofia | Luís de BarreirosTavares


Luís de Barreiros Tavares

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Poeiras da Filosofia XX

Por el ápice abierto el cono inverso

Deja caer la minuciosa arena,

Oro gradual que se desprende y llena

El cóncavo cristal de su universo.

[Pelo ápice aberto o cone inverso / Deixa cair a minuciosa areia, / Ouro gradual que se desprende e enche / Seu côncavo cristal e universo.]

Jorge Luis Borges, in “El reloj de arena” — [“O relógio de areia”]

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Nota — Este texto foi originalmente publicado no último número da revista Nova Águia: Luís de Barreiros Tavares, “Apontamentos sobre a letra minúscula: deus — poesia — filosofia” — Nova Águia 37, 1º semestre 2026, pp. 185–187. Acrescentaram-se algumas imagens para contexto. A nota “3” foi reelaborada.

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a letra minúscula: deus — poesia — filosofia

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«Se a chuva cai em letras maiúsculas / eu a observo; se cai em minúsculas / eu a amo»

Kiki Dimulà

«o que me amanhecia era amar amar e deus desenha a minha madrugada»

Manoel T. R.-Leal

I

Manoel Tavares Rodrigues-Leal




Em 2003, o poeta Manoel Tavares Rodrigues-Leal (1941–2016) escrevia num poema: «assim houvera o instante. e / quem o movera. imóvel. deus.» (A Duração da Eternidade — 2007). Uns bons anos mais tarde transmitira-me o desejo de que toda a sua obra deveria ser com letra minúscula. O certo é que em todos os seus livros publicados (edições de autor de 2007 a 2011) a opção foi a letra minúscula para todos os poemas. Aliás, grande parte dos seus manuscritos, principalmente de finais de 60, das décadas de 70 e 80 (com algumas excepções), apresentam-se com uma letra singular, indiciando de alguma forma essa marca. Embora nessas fases a letra se afigure em todo o texto numa espécie de grafismo ou grafia semelhante à da imprensa — como alguns dizem, e bem –, e numa configuração de maiúscula, mas miudinha, ela quase sempre se mantém nas mesmas dimensões, quer na primeira letra dos versos ou das frases (prosa poética), quer no redigir dos mesmos. Portanto, indicia-se já, a par dessa letra miudinha[1], um registo em germe da generalização da letra minúscula. «Que saudades dos cadernos e da letra miúda do Tio Manel, e de o encontrar instalado num dos seus cafés predilectos…», escreve Maria Moitinho de Almeida, sobrinha neta de M. T. R.-Leal e bisneta de Luís Pedro Moitinho de Almeida, amigo de Fernando Pessoa.[2]

Com a ideia da letra minúscula — que, como se sabe, é agora frequente em alguma da poesia e literatura actuais — vai nascendo também o registo da pontuação recorrente, até ao limite, digamos assim (apenas pontos finais, sem vírgulas nem qualquer outra pontuação)[3]. Dir-se-ia que há um nexo entre a letra minúscula e o ponto final. E este nexo é uma das marcas singulares do seu texto. Os pontos começaram a surgir para pausar a escrita, o acto de escrita[4]: «esse ofício. fulcral. / o de escrever. ainda aflora. como que / uma frustre maré interior. a / da loucura.»; «os sexos cintilavam. e. como o instante. duradouros.» (A Duração da Eternidade; Revista Triplov); «ó amor e seu rumor. estremes. os de um dia antiquíssimo. e. eterno.» (A Imperfeição da Felicidade — 2007); «à claridade. cálida. da. loucura. e. do brilho da beleza.» (A Noção da Inocência — ver vídeo— 2008). Nos três últimos exemplos encontramos «. e.» e «. da.». Leia-se esta belíssima passagem:

São pontos para estancar, digamos assim, a poesia, o fluxo, o afluxo da poesia. E, portanto, é uma maneira de estancar essa corrente de literatura ou de poesia. E, como dizer? Tentar enxugar o texto poético! Quer dizer, uma maneira de elevar o texto poético à essência, à essencialidade através da pontuação. Que eu nunca tinha usado… Começo a usá-la nas Assimetrias [caderno desaparecido, provavelmente da década de 70]. É interessante… Porque que eu tinha tanta coisa para dizer… que tinha de estancar, parar… (M. T. R.-Leal — entrevista em vídeo inédito — c 2013; por L. de B. Tavares)

Mas não nos alonguemos mais com a pontuação. O importante aqui, neste estudo, é a letra minúscula e o nome «deus»: «assim houvera o instante. e / quem o movera. imóvel. deus.» (com um soar poetante quase aristotélico, com seu motor imóvel).


II

Jean-Luc Nancy


Em 2017, durante a composição do livro Sulcos com Jean-Luc Nancy, ocorreu-me uma dificuldade na transcrição de uma passagem. Nancy escrevera esta extraordinária reflexão:

Falei […] de uma incapacidade de “dizer o essencial”: esta fórmula é bastante falsa na medida em que o “essencial” não é, precisamente, para “dizer”. É correcta na medida em que este “essencial” não merece nenhum nome — nem essencial, nem sublime, nem divino. “deus[“dieu”] é precisamente o nome do que não tem nome. Nomeá-lo é, assim, já traí-lo. Mas nomeá-lo enquanto inominável e inominado é a única maneira de o indicar (sugerir? evocar? sinalizar?).[5] [negrito nosso]

Perguntei-lhe se «deus» — a seguir ao ponto final! — deveria manter-se com letra minúscula. Respondeu-me de imediato: «sim! [oui!]». Mas, curiosamente, logo no parágrafo seguinte Nancy escreve com maiúsculas e sem aspas. Deixando apenas no ar:

Para ser breve, poderia dizer: a filosofia não pode nomear Deus [Dieu], jamais. Ela não pode senão des-nomear o que parece assim nomeado. A poesia, pelo contrário, pode: Celan escreve «Louvado sejas, Ninguém» [Gelobt seist du, Niemand] — e nós podemos analisar longamente esta palavra — Ninguém — enquanto nome, tanto assim que somos de imediato tomados, atingidos por este não-nome que se trata de «louvar». [negrito nosso]

De qualquer das maneiras, este «Ninguém» (pronome indefinido com maiúscula!) parece remeter para uma qualquer in-significância — ou a-significância –, digamos assim. E, todavia, remete para algo que não deixa de se revestir de um forte sentido: «Louvado sejas».


III

Giorgio Agamben


A 12 de Dezembro de 2025 — alguns dias antes de redigirmos este texto — Giorgio Agamben publica na sua página em linha «Quodlibet — una voce» um breve texto intitulado «Minúsculas e maiúsculas» [Minuscolo e maiuscolo]. Nele cita a grande poeta grega Kiki Dimulà (1931–2020 — ver epígrafe), e fala da «palavra ‘deus’».

No passado, eu escrevia em maiúsculas as palavras às quais queria atribuir particular importância ou significado. Agora sei que estava errado. É bom ver tudo em minúsculas; o uso de maiúsculas nos impede de ver. E de compreender, quase como se, uma vez enfatizada a prioridade ou a importância, a compreensão deixasse de ser necessária. De modo geral, se algo — mesmo a palavra «deus» ou, pior, a palavra «estado» — precisa de letra maiúscula, significa que não acreditamos o suficiente na sua primazia. Como escreveu belamente a poetisa grega Kiki Dimulà: «Se a chuva cai em letras maiúsculas / eu a observo; se cai em minúsculas / eu a amo». Vemos em minúsculas, vivemos em minúsculas e, se deus e o estado não nos impuserem isso, sem letras maiúsculas deixaremos esta pequena e adorável Terra.


IV

Manoel Tavares Rodrigues-Leal — três poemas

Concluímos com três belos poemas (o segundo sem pontuação) de Manoel T. R.-Leal cujos manuscritos não revelam qualquer indício de letras em diferentes escalas. Não indicando, portanto, a presença de letras maiúsculas e, nomeadamente, no nome (de?) «deus».[6]

I


isto vos digo: é fenómeno efémero da fala;

e génese das abóbadas da geometria da manhã.

isto vos digo: irmana-vos o rigor, a passagem de deus,

o verão mais pungente. e se se acorda, que mulher nos fende e cala?

Lx. 8–10–76 — caderno de profundis et de clamoris

II

o que esplende é o tempo de tão possuído e solicitado

o que freme é esta brisa tão abandonada e escassa

o que me amanhecia era amar amar e deus desenha a minha madrugada

Lx. 16–09–76 — caderno fragmentos de um livro dividido (anónimo do séc. XX)

III

às vezes pedaços simples da vida

seduzem-nos como altas insónias.

felizes ou infelizes não há deus que nos redima.

Lx. 12–12–76 — caderno fragmentos (compilados)


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Referências

CELAN, Paul (1996). Sete Rosas mais Tarde. Ed. bilingue, Selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno. Lisboa: Cotovia.

NANCY, Jean-Luc / TAVARES, Luís de Barreiros (2018). Sulcos: Arte — Poesia — Técnica — Política — Filosofia. Prefácio de Jorge Leandro

RODRIGUES-LEAL, Manoel Tavares (2007). A Duração da Eternidade, posfácio e desenhos de Luís de Barreiros Tavares. Lisboa: Edição de autor (com o pseudónimo “Manoel Ferreyra da Motta Cardôzo”).

RODRIGUES-LEAL, Manoel Tavares (2007). A Imperfeição da Felicidade, posfácio e ilustração de Luís de Barreiros Tavares. Lisboa: Edição de autor (com o pseudónimo “Manoel Ferreyra da Motta Cardôzo”).

RODRIGUES-LEAL, Manoel Tavares (2008). A Noção da Inocência. Lisboa: Edição de autor (com o pseudónimo “Manoel Ferreyra da Motta Cardôzo”).

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https://www.gettyimages.pt/fotos/giorgio-agamben

https://observador.pt/2021/08/24/morreu-o-filosofo-frances-jean-luc-nancy-aos-81-anos/

Notas

[1] O seu amigo João Trigueiros escreve: «Nestes registos, ia anotando os seus textos poéticos, bem alinhados, numa caligrafia miudinha de maiúsculas, cheia de rasuras e emendas.» (In memoriam M.T.R.-Leal — Blogue «Artes, Letras e Baionetas»).

[2] Para mais detalhes, imagens e análises, ver por exemplo o nosso estudo: «Escrita, grafia e poema em Manoel T. R.-Leal — Ecos de Fernando Pessoa — I» (04/01/2025). E também na Revista Pessoa Plural: «Manoel Tavares Rodrigues-Leal evocando e ecoando Fernando Pessoa». Jerónimo Pizarro, director da mesma, ficou impressionado ao ver um desses manuscritos.

[3] Neste poema de Al Berto, apenas com letras minúsculas e vários sinais de pontuação, encontramos este passo: “deus tem que ser substituído rapidamente por poemas […]”. É certo, por exemplo, que Teresa Leonor Vale escreveu um belo livro de poemas em 1988: entre o ar e a perfeição. Nele a jovem poeta apenas incluía letras minúsculas nos seus poemas. Os versos são construídos na generalidade com pontos finais. Mas frequentemente surgem “:”, várias vezes “?” e por vezes “,”. Chega a suprimir recorrentemente os espaços entre as palavras e os pontos finais: «assim.quero que passes pelo meu ventre. / e fiques.sim.fiques.pernoitando /nos cabelos nunca suaves.» Encontramos também vírgulas e dois pontos. No mesmo ano é editado o livro Esta Escrita Esta Boca, sempre a letra minúscula, menos pontos finais e sem aquelas ausências de espaços. Os “:” e as “,” também ocorrem regularmente. Mas em ambos os livros nunca ocorre a palavra (nome de) «deus». A autora venceu por esta altura o Prémio Inasset – Revelação de Poesia.

[4] Em alguns manuscritos surgem leves pontos a meia altura da letra. Não se encontram ainda ao nível da linha pautada, como pontuações definidas, como pontos finais. Ver «Rigor, labor e escrita em Manoel Tavares Rodrigues-Leal» (Revista Caliban).

[5] Para melhor contextualização, ver «Cartas — Jean-Luc Nancy, José Gil, João Barrento» na Revista Caliban.

[6] Publicados na Revista Triplov: «Do religioso no poema». Não se verifica igualmente diferença de escalas nas letras dos títulos dos cadernos.

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Poeiras da Filosofia XIX (Amadeo de Souza-Cardoso: a força da pintura | Renato Epifânio)



Luís de Barreiros Tavares nasceu em Lisboa em 1962. Licenciou-se em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa (2007), tendo antes frequentado e concluído cadeiras de Filosofia nas Universidades Católica e Clássica. Autor de alguns livros, entre outros: O Acto de Escrita de Fernando Pessoa; Em Roda Livre, com Eduardo Lourenço; Sulcos, com Jean-Luc Nancy; 5 de Orpheu (Almada — Amadeo — Pessoa — Santa Rita Pintor — Sá-Carneiro). Colaborador regular nas revistas “Nova Águia”, “Caliban”, “Triplov”, “Mirada (Br)”. Publicações nas revistas “Comunicação e Sociedade” (CECS – UMinho), Configurações (UMinho) “Comunicação e Linguagens” (CECL – UNL), “Pessoa Plural” (Brown University, University of Warwick, Universidad de los Andes), “A Ideia”, “Philosophy@Lisbon” (CFUL – UL), ”Zunái (Br)”, “Occaso: voci poetiche dal Portogallo” (It.), “Ameopoema” (Br)”, “Grou Cultura & Arte (Br)”, “Athena”, etc. Vice-director da revista “Nova Águia”. Membro do Conselho Consultivo do Movimento Internacional Lusófono (MIL). Editor das edições-vídeo “Passante”. De um modo cifrado, mantém-se artista plástico. Já deu umas aulas. Responsável pelo espólio do poeta Manoel Tavares Rodrigues-Leal.