por Luís de Barreiros Tavares |
| Jean-Luc Nancy — Giorgio Agamben — Manoel T. R.-Leal |
a letra minúscula: deus — poesia — filosofia | Luís de BarreirosTavares
Luís de Barreiros Tavares
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Poeiras da Filosofia XX
Por el ápice abierto el cono inverso
Deja caer la minuciosa arena,
Oro gradual que se desprende y llena
El cóncavo cristal de su universo.
[Pelo ápice aberto o cone inverso / Deixa cair a minuciosa areia, / Ouro gradual que se desprende e enche / Seu côncavo cristal e universo.]
Jorge Luis Borges, in “El reloj de arena” — [“O relógio de areia”]
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Nota — Este texto foi originalmente publicado no último número da revista Nova Águia: Luís de Barreiros Tavares, “Apontamentos sobre a letra minúscula: deus — poesia — filosofia” — Nova Águia 37, 1º semestre 2026, pp. 185–187. Acrescentaram-se algumas imagens para contexto. A nota “3” foi reelaborada.
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a letra minúscula: deus — poesia — filosofia
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«Se a chuva cai em letras maiúsculas / eu a observo; se cai em minúsculas / eu a amo»
Kiki Dimulà
«o que me amanhecia era amar amar e deus desenha a minha madrugada»
Manoel T. R.-Leal
I
Manoel Tavares Rodrigues-Leal
II
Jean-Luc Nancy
Em 2017, durante a composição do livro Sulcos com Jean-Luc Nancy, ocorreu-me uma dificuldade na transcrição de uma passagem. Nancy escrevera esta extraordinária reflexão:
Falei […] de uma incapacidade de “dizer o essencial”: esta fórmula é bastante falsa na medida em que o “essencial” não é, precisamente, para “dizer”. É correcta na medida em que este “essencial” não merece nenhum nome — nem essencial, nem sublime, nem divino. “deus” [“dieu”] é precisamente o nome do que não tem nome. Nomeá-lo é, assim, já traí-lo. Mas nomeá-lo enquanto inominável e inominado é a única maneira de o indicar (sugerir? evocar? sinalizar?).[5] [negrito nosso]
Perguntei-lhe se «deus» — a seguir ao ponto final! — deveria manter-se com letra minúscula. Respondeu-me de imediato: «sim! [oui!]». Mas, curiosamente, logo no parágrafo seguinte Nancy escreve com maiúsculas e sem aspas. Deixando apenas no ar:
Para ser breve, poderia dizer: a filosofia não pode nomear Deus [Dieu], jamais. Ela não pode senão des-nomear o que parece assim nomeado. A poesia, pelo contrário, pode: Celan escreve «Louvado sejas, Ninguém» [Gelobt seist du, Niemand] — e nós podemos analisar longamente esta palavra — Ninguém — enquanto nome, tanto assim que somos de imediato tomados, atingidos por este não-nome que se trata de «louvar». [negrito nosso]
De qualquer das maneiras, este «Ninguém» (pronome indefinido com maiúscula!) parece remeter para uma qualquer in-significância — ou a-significância –, digamos assim. E, todavia, remete para algo que não deixa de se revestir de um forte sentido: «Louvado sejas».
III
Giorgio Agamben
A 12 de Dezembro de 2025 — alguns dias antes de redigirmos este texto — Giorgio Agamben publica na sua página em linha «Quodlibet — una voce» um breve texto intitulado «Minúsculas e maiúsculas» [Minuscolo e maiuscolo]. Nele cita a grande poeta grega Kiki Dimulà (1931–2020 — ver epígrafe), e fala da «palavra ‘deus’».
No passado, eu escrevia em maiúsculas as palavras às quais queria atribuir particular importância ou significado. Agora sei que estava errado. É bom ver tudo em minúsculas; o uso de maiúsculas nos impede de ver. E de compreender, quase como se, uma vez enfatizada a prioridade ou a importância, a compreensão deixasse de ser necessária. De modo geral, se algo — mesmo a palavra «deus» ou, pior, a palavra «estado» — precisa de letra maiúscula, significa que não acreditamos o suficiente na sua primazia. Como escreveu belamente a poetisa grega Kiki Dimulà: «Se a chuva cai em letras maiúsculas / eu a observo; se cai em minúsculas / eu a amo». Vemos em minúsculas, vivemos em minúsculas e, se deus e o estado não nos impuserem isso, sem letras maiúsculas deixaremos esta pequena e adorável Terra.
IV
Manoel Tavares Rodrigues-Leal — três poemas
Concluímos com três belos poemas (o segundo sem pontuação) de Manoel T. R.-Leal cujos manuscritos não revelam qualquer indício de letras em diferentes escalas. Não indicando, portanto, a presença de letras maiúsculas e, nomeadamente, no nome (de?) «deus».[6]
I
isto vos digo: é fenómeno efémero da fala;
e génese das abóbadas da geometria da manhã.
isto vos digo: irmana-vos o rigor, a passagem de deus,
o verão mais pungente. e se se acorda, que mulher nos fende e cala?
Lx. 8–10–76 — caderno de profundis et de clamoris
II
o que esplende é o tempo de tão possuído e solicitado
o que freme é esta brisa tão abandonada e escassa
o que me amanhecia era amar amar e deus desenha a minha madrugada
Lx. 16–09–76 — caderno fragmentos de um livro dividido (anónimo do séc. XX)
III
às vezes pedaços simples da vida
seduzem-nos como altas insónias.
felizes ou infelizes não há deus que nos redima.
Lx. 12–12–76 — caderno fragmentos (compilados)
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Referências
CELAN, Paul (1996). Sete Rosas mais Tarde. Ed. bilingue, Selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno. Lisboa: Cotovia.
NANCY, Jean-Luc / TAVARES, Luís de Barreiros (2018). Sulcos: Arte — Poesia — Técnica — Política — Filosofia. Prefácio de Jorge Leandro
RODRIGUES-LEAL, Manoel Tavares (2007). A Duração da Eternidade, posfácio e desenhos de Luís de Barreiros Tavares. Lisboa: Edição de autor (com o pseudónimo “Manoel Ferreyra da Motta Cardôzo”).
RODRIGUES-LEAL, Manoel Tavares (2007). A Imperfeição da Felicidade, posfácio e ilustração de Luís de Barreiros Tavares. Lisboa: Edição de autor (com o pseudónimo “Manoel Ferreyra da Motta Cardôzo”).
RODRIGUES-LEAL, Manoel Tavares (2008). A Noção da Inocência. Lisboa: Edição de autor (com o pseudónimo “Manoel Ferreyra da Motta Cardôzo”).
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https://www.gettyimages.pt/fotos/giorgio-agamben
https://observador.pt/2021/08/24/morreu-o-filosofo-frances-jean-luc-nancy-aos-81-anos/
Notas
[1] O seu amigo João Trigueiros escreve: «Nestes registos, ia anotando os seus textos poéticos, bem alinhados, numa caligrafia miudinha de maiúsculas, cheia de rasuras e emendas.» (In memoriam M.T.R.-Leal — Blogue «Artes, Letras e Baionetas»).
[2] Para mais detalhes, imagens e análises, ver por exemplo o nosso estudo: «Escrita, grafia e poema em Manoel T. R.-Leal — Ecos de Fernando Pessoa — I» (04/01/2025). E também na Revista Pessoa Plural: «Manoel Tavares Rodrigues-Leal evocando e ecoando Fernando Pessoa». Jerónimo Pizarro, director da mesma, ficou impressionado ao ver um desses manuscritos.
[3] Neste poema de Al Berto, apenas com letras minúsculas e vários sinais de pontuação, encontramos este passo: “deus tem que ser substituído rapidamente por poemas […]”. É certo, por exemplo, que Teresa Leonor Vale escreveu um belo livro de poemas em 1988: entre o ar e a perfeição. Nele a jovem poeta apenas incluía letras minúsculas nos seus poemas. Os versos são construídos na generalidade com pontos finais. Mas frequentemente surgem “:”, várias vezes “?” e por vezes “,”. Chega a suprimir recorrentemente os espaços entre as palavras e os pontos finais: «assim.quero que passes pelo meu ventre. / e fiques.sim.fiques.pernoitando /nos cabelos nunca suaves.» Encontramos também vírgulas e dois pontos. No mesmo ano é editado o livro Esta Escrita Esta Boca, sempre a letra minúscula, menos pontos finais e sem aquelas ausências de espaços. Os “:” e as “,” também ocorrem regularmente. Mas em ambos os livros nunca ocorre a palavra (nome de) «deus». A autora venceu por esta altura o Prémio Inasset – Revelação de Poesia.
[4] Em alguns manuscritos surgem leves pontos a meia altura da letra. Não se encontram ainda ao nível da linha pautada, como pontuações definidas, como pontos finais. Ver «Rigor, labor e escrita em Manoel Tavares Rodrigues-Leal» (Revista Caliban).
[5] Para melhor contextualização, ver «Cartas — Jean-Luc Nancy, José Gil, João Barrento» na Revista Caliban.
[6] Publicados na Revista Triplov: «Do religioso no poema». Não se verifica igualmente diferença de escalas nas letras dos títulos dos cadernos.
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Poeiras da Filosofia XIX (Amadeo de Souza-Cardoso: a força da pintura | Renato Epifânio)
Luís de Barreiros Tavares nasceu em Lisboa em 1962. Licenciou-se em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa (2007), tendo antes frequentado e concluído cadeiras de Filosofia nas Universidades Católica e Clássica. Autor de alguns livros, entre outros: O Acto de Escrita de Fernando Pessoa; Em Roda Livre, com Eduardo Lourenço; Sulcos, com Jean-Luc Nancy; 5 de Orpheu (Almada — Amadeo — Pessoa — Santa Rita Pintor — Sá-Carneiro). Colaborador regular nas revistas “Nova Águia”, “Caliban”, “Triplov”, “Mirada (Br)”. Publicações nas revistas “Comunicação e Sociedade” (CECS – UMinho), Configurações (UMinho) “Comunicação e Linguagens” (CECL – UNL), “Pessoa Plural” (Brown University, University of Warwick, Universidad de los Andes), “A Ideia”, “Philosophy@Lisbon” (CFUL – UL), ”Zunái (Br)”, “Occaso: voci poetiche dal Portogallo” (It.), “Ameopoema” (Br)”, “Grou Cultura & Arte (Br)”, “Athena”, etc. Vice-director da revista “Nova Águia”. Membro do Conselho Consultivo do Movimento Internacional Lusófono (MIL). Editor das edições-vídeo “Passante”. De um modo cifrado, mantém-se artista plástico. Já deu umas aulas. Responsável pelo espólio do poeta Manoel Tavares Rodrigues-Leal.
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