por Valdocir Trevisan |
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| Foto de Sebastian Staines na Unsplash |
Lendo uma crônica da psicanalista Vera Iaconelli sobre seu livro “Análise”, um fato me causou curiosidade…muita curiosidade…
Ela diz que mora ao lado da casa onde vai morar. Que viagem…
Você acompanha as obras, as reformas e como quase todo psicanalista, analisa em cada tijolo um passo de sua vida e ainda uma janela reformada em uma nova “visão” de sua jornada.
Tal qual Iaconelli analisa, “assisto à própria reforma observando de fora…um lugar no futuro”.
Uauuu…
Você está ao lado de…você…
Estão lá, ou melhor, ao lado, as desordens das obras refletindo dias obscuros.
E quando o carpinteiro acerta em cheio, a casa fica mais bonita deixando você mais…bonita…
Já na primeira frase da resenha o autor provoca: por que se reforma uma casa?
Ora, se estou numa boa na minha residência, porque arriscar em incertezas?
Por que sair do conforto? Porque as coisas mudam. “They are A-changing” diz Bob Dylan, não temos alternativa, nascemos, vivemos e morremos (que originalidade).
A vantagem é olhar para os tijolos quebrados, que lembram dias que queremos esquecer, e poder reorganizá-los. E decidir que o que vou pendurar na porta de entrada da casa reformada é muito diferente do velho adereço da atual.
Aliás, nem lembro porque o tal adereço ainda está ali, muito menos quando decidi pelo estranho adorno. Não representa nada e se já significou algo…não lembro.
Mas sei o que quero ver na porta da entrada da casa ao lado…
Estranho… na porta da atual casa, no meu hoje, nem sei o que ela representa, a minha identidade, mas na porta do futuro sei…ou imagino…que sei…
Porém, Iaconelli reconhece que seu “duplo”, é uma imagem agradável que em nada faz lembrar o infeliz e patético Golyádkin no duplo de Dostoiévski. Ela quer paz, garantir reformas espirituais que superem memórias ruins até de seu próprio pai.
Golyádkin é mesquinho e quando surge sua sombra para lhe atormentar percebe o quanto sua vida é insignificante e focada em bizarrices tolas e imaginárias, sempre nefastas.
Sua casa é escura e medíocre, suas relações são distantes e vazias.
Enquanto isso, a casa ao lado da Vera Iaconelli promete um duplo diferente com uma aura colorida.
Entretanto, mudar apenas de lugar não resolve tudo. Muitos desejam transformar suas vidas e até o mundo, mas poucos percebem que a mudança precisa começar em nós, se quisermos que ela seja real.
Não adianta se arrastar.
Ser um homem supérfluo, preso com cadeado interno, diz Turguêniev, não vai resolver nada, muito menos mudar de lugar.
Geraldo Vandré vai além, “eu sempre quis ser contente, trazendo pra toda gente vontade de se abraçar, mas a vida não mudava mudando só de lugar”.
Paradoxos…
Dilemas…
Um acredita na casa ao lado, outro está com um cadeado no pescoço e na alma, o terceiro só quer ficar contente sabendo que nada vai alterar “mudando só de lugar”...
Tá loko…
Tomarei mais um vinho…


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