Premiado na Europa, romance “Zuca” aborda racismo e xenofobia na migração brasileira para Portugal
O romance Zuca, da escritora e psicanalista Fernanda Hamann, propõe uma reflexão sobre racismo estrutural, identidade e deslocamento cultural a partir da experiência migratória contemporânea. Publicado pela Editora Urutau, o livro foi premiado como melhor obra na Mostra Internacional de Livros da GallerySPT, em Madri, e já circula em edições no Brasil e em Portugal.
Ambientada em um contexto real — Portugal um dos principais destinos de brasileiros no exterior, com mais de 500 mil pessoas, segundo dados do Itamaraty —, a narrativa acompanha Bárbara Weissmann, advogada carioca de classe média que decide se mudar para Lisboa com a família. A mudança ocorre após um episódio de racismo cometido pela personagem no Brasil, que resulta em processo judicial e prisão.
Ao chegar à Europa, no entanto, Bárbara passa a vivenciar situações de xenofobia, experimentando uma inversão de papéis: de agressora, torna-se alvo de preconceito. A obra se constrói a partir dessa tensão, evitando leituras simplificadoras e explorando ambiguidades morais e psicológicas. “Zuca” busca o oposto do maniqueísmo didático”, destaca o escritor Daniel Galera no texto de orelha.
Narrado em primeira pessoa, o romance adota a forma de diário de imigrante e incorpora recursos formais que evidenciam o processo de apagamento identitário vivido pela protagonista. Ao tentar se adequar à cultura portuguesa, Bárbara passa a “rasurar” palavras do português brasileiro, substituindo-as por expressões lusitanas, em um gesto simbólico de negação de sua origem. Ainda assim, continua sendo vista como “zuca”, termo pejorativo utilizado para designar brasileiros em Portugal.
A dimensão psicanalítica também atravessa a obra. Para construir a subjetividade da personagem, que não se reconhece como racista Fernanda Hamann recorre ao uso de sonhos, nos quais emergem conteúdos reprimidos ligados à culpa e às heranças coloniais. A autora interpreta esse movimento como um “retorno do reprimido”, conceito que orienta a leitura das dinâmicas de exclusão apresentadas no livro.
Fernanda Hamann reúne mais de dez obras publicadas entre romances, contos e ensaios, além de atuar como colunista do jornal português Público. Em “Zuca”, a autora articula literatura e reflexão crítica ao abordar temas como feminismo, antirracismo e pensamento decolonial, ampliando o debate sobre as contradições da experiência migratória.
A agenda de divulgação do livro inclui participações em eventos literários no Brasil e em Portugal ao longo de 2026, como a Feira do Livro de Lisboa, a Feira do Livro de São Paulo, a Flip e a Bienal do Livro de São Paulo, além de encontros e debates que dialogam com os temas centrais da obra.
Ao explorar as complexidades do racismo e da xenofobia sem recorrer a respostas fáceis, Zuca se destaca no debate sobre identidade e pertencimento, propondo uma leitura crítica das relações históricas e sociais que atravessam o deslocamento de brasileiros no exterior.
Confira um trecho do livro:
"És brasileira? Respondi que sim. Ela emendou outra pergunta: Vieste à nossa terra pra roubar os maridos às portuguesas? E a velha nem me deu tempo de responder que não, de jeito nenhum, já sou casada, e com um brasileiro. A doida chalada agarrou o meu passaporte e avisou: Pois olha bem o que eu faço ao teu documento. Ela tentou rasgar o livrinho ao meio, e só não conseguiu porque reagi a tempo. Eu me debrucei inteira sobre o balcão, com a barriga e com tudo, estiquei os braços em cima da maluca e apanhei de volta o meu documento, todo amassado."
Adquira “Zuca” pelo site da Editora Urutau


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