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Foto de Paulo gustavo Modesto: https://www.pexels.com/pt-br/foto/32788354/
A Aparição do Pífano
Impressionava-me pelas árvores paralelamente estabelecidas que formavam uma estrada monárquica para mim. A crescente umidade já se fazia sentir em minha pele, num refresco divino. No pé de serra, pequenas hortas coexistiam com casarões oitocentistas, imponentes. Para alguém como eu: uma criatura sertaneja, acostumada aos baixios, calorentos, melancólicos; e que ainda viveu pela altitude insignificante do litoral sergipano, inundado pela frondosa mata atlântica que preenchia a minha vista - uma paisagem saída diretamente de um romance amadiano; me vi perdido naquela geografia peculiar. A estrada que dava à cidade serrana, rodeada por belas árvores, se assemelha ao que os paulistanos chamam por “alameda”, naquela aurora matutina, seria a primeira vez em que eu a veria. De forma estranha, ela nunca me foi desconhecida, como um daqueles parentes que não sabemos se existe, mas apenas sentimos que sim. Quando aquela aquosidade aérea havia se apossado do meu corpo, eu a vi entre as nuvens, pulando como uma ovelha de um sonho infantil. Escorregava por uma cirrus opaca, caindo numa cumulus, que afundou, como uma cama. Preparou-se para pular, voou como um foguete, dois braços surgiram de seu corpo, agora eram quatro. Com um par deles, agarrou uma nimbus, aproveitando para pegar outra (como formigas, elas sempre andam juntas) e fez, como um palhaço de circo e sua arte com os balões, um lindo preá. Ela soltou sua criação, que caiu pela bela cidade como uma fria névoa. Quando me aproximei de uma igreja plácida no centro da urbe, ela desceu do céu, pousando levemente num sobrado cobalto. Eu pude ver o Pífano que ela portava, e o exímio som que fazia. A serra parecia dançar com a música, tudo aquilo parecia ser de seu mando. Os longos cabelos escuros, luzidios como se banhados em brilhantina, mas de uma fluidez nebulosa. De tez pálida, era para mim uma mameluca gerada no útero da colonização lusitana. Daqueles pecuaristas que por léguas, ateavam fogo no sertão, tornando a minha futura terra num mar de brasas. Estes, se afugentaram nas serras, propícias para a policultura necessária. “Bolsões de chuva no meio do inferno sertanejo”, eram conhecidas as serras como aquela, em que eu via aquela criatura. Não tive medo, antes, aproveitei-me daquela bênção que Deus me presenteara. Mas, acima de tudo, não pude controlar a minha curiosidade. Seria aquilo um orixá? Ou o que os indígenas chamam de “encantado”? Poderia ser até mesmo um santo católico transfigurado. Na minha terra, tudo isso é muito próximo. Pensava eu, enquanto caminhava pela praça da igreja. No pior dos casos, poderia ser Shiva, um deus da longínqua Índia, em decorrência dos braços demasiados. Não, não; essa idéia seria muito absurda; mas o que pensar de um ente que criava córregos com o seu pífano? Córregos que tamborilava pelas construções da cidade. Quando vi que ela subia aos céus, saltitando pelas nuvens, fui tomado por um impulso abrasivo, e pus-me a correr por uma estrada de pedra. Não sabia o motivo, apenas queimei a largada. Quando percebi, me vi ofegante, no ponto mais alto da serra. Parecia que ela percebeu o meu esforço e decidiu me presentear. Suavemente, deslizou pelas nuvens, as mesmas que produziam nevoeiros por vários pontos daquela modesta cordilheira sertaneja. Ainda sentada sobre uma, tocou o seu pífano, produziu uma melodia que remetia-me ao belíssimo mês de Junho. Aos poucos, ela desaparecia da minha frente, opaca. Olhei para a vastidão do pediplano que se estendia pela minha visão. Colossais escuras surgiram no horizonte, logo alcançariam a cidade. O inverno havia chegado ao sertão.
Pedro Matos, 19 anos, vive em Delmiro Gouveia, Alagoas. Interessado por Literatura, Geografia e Filosofia, almeja unir os três em uma nova forma de ver o Nordeste e o Sertão. Estuda Geografia na Ufal, Campus do Sertão e publicou "Panthalassa" pela editora Parresía em 2025.

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