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As letras no concreto e as falas que não se podiam ouvir

por Barbarah Forte Alves |

Foto de Parisa Dehghan na Unsplash

As letras no concreto e as falas que não se podiam ouvir


Nos encontramos mais uma vez tomando aquele café quente, bem amargo como a vida, e pensando em diversas possibilidades de agir de forma diferente na educação.

Estava na janela do ônibus (no qual consideramos o lugar VIP) junto àquele balançado causado pelos buracos da via e o grude do suor da vida que carregamos devido às rotinas diárias e o calor imenso da nossa cidade. Eu, estudante negra e periférica, concluindo as últimas cadeiras para defender meu TCC e, tal qual os mais velhos dizem, "ainda com todo gás e empolgada" (esperamos que o cansaço causado pelo sistema não nos tire essa empolgação), refletia sobre todas as experiências vividas em sala com a professora da universidade e a turma que nos mostrou o devido caminho a seguir.

Estava com 30 "abas" abertas de como seria essa nova experiência, pois a EJA é um público que me faz brilhar os olhos, por serem acolhedores(as) e um público que nos proporciona trabalhar uma educação libertadora envolvendo diversos conhecimentos que os mesmos já trazem de sua educação fora do ambiente escolar.

Ao chegar na escola pública localizada num bairro periférico, sem iluminação adequada, adentrei contente e "por sorte".... encontrei o diretor, relatou uma das estudantes que estava na porta, fumando seu belo cigarro e com o olhar distante, retirava forças daquela fumaça para aguentar mais uma "jornada" das tantas que seu dia teve.

Ao chegar, fui bem recebida pelos professores que se encontravam e pelo diretor, que "mal sabia ele quem eu era porque queriam se livrar daquele povo e precisavam de auxílio de alguém com "gás" para fazer as coisas caminharem". Ele foi comigo até a sala na qual me deparei com um docente e fui apresentada à turma, que de 20 alunos, só se encontravam três estudantes (uma foi embora após a chamada feita antes do início da aula).

Turma vazia, salas nada arejadas, ventilador quebrado, mentes distantes e a resolução de quatro questões no quadro pelo professor e assim finalizamos o nosso primeiro dia de observação no estágio.

Voltei completamente sem gás e agora... com 50 “abas” abertas, a pergunta  era: "o que eu vou fazer?".  Triste, sem chão e tentando entender como tudo pode ser tão diferente da teoria encantadora.

Cheguei em casa e tomei um banho, deixando a água escorrer pela cabeça, esperando que alguma grande ideia viesse, pois a única opção que eu pensava era em não repetir aquilo.

Vivenciando essa história, ela não vem com uma solução inesperada e sim com um sentimento de " de que forma posso mudar a Educação de Jovens e Adultos para além do que está escrito nas leis, já que pouco é colocado em prática?




Barbarah Forte Alves | Pesquisadora das relações étnico-raciais e antirracista para a construção de identidade negra na escola pública, cursando o último semestre de pedagogia na UECE, integrante do coletivo Fortaleza Negra. Negra, periférica, irmã, filha, sobrinha, neta e tudo aquilo que o povo negro queria falar e hoje sabemos como falar em coletivos organizados.