Brincar de Viver | Raphael Cerqueira Silva

 por Raphael Cerqueira Silva | 



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Brincar de Viver

“Aconteceu, virou Manchete”. Lembram? Pois comigo é assim: aconteceu, virou crônica. 

Ia eu pela rua postar meus livros no correio quando, súbito, alguém me chamou. 

Olhei para os lados, para os andaimes da obra na esquina. 

Não vi ninguém. Por um instante, me senti como Bethânia no primeiro verso de Brincar de Viver. 

A voz tornou a chamar.

Na lanchonete, um conhecido devorava um misto-quente com guaraná. Limpando a boca no guardanapo dobrado ao meio, perguntou se eu conhecia a Doutora Ernestina Salomé. 

— Feliz ou infelizmente, conheço todos os advogados desta comarca.

Ele riu um riso pigarrado:

— Você sabe que trabalho na prefeitura, né?

— Não sabia. Aliás, não circulo pelo velho paço municipal. 

— Pois é. Passei no último concurso. Custaram a me empossar, mas agora estou no setor de…

Não ouvi o resto: uma buzina estridente abalroou a manhã.

Clientes acorreram à porta da lanchonete; brotou gente nas janelas do hotel e na entrada da padaria. O motoqueiro arrancou xingando; o caminhoneiro caprichou noutra buzinada. 

Impassível, o sujeito continuou:

— Estou lá faz mais de um ano. Semana passada recebi a visita da Doutora Ernestina Salomé. Estranhei. Normalmente só atendo pessoas pedindo informação sobre benefícios assistenciais. Aí apareceu a doutora, que eu conhecia só de nome. Os usuários, quando têm o benefício negado, procuram o escritório dela para entrar com recurso.

— A Ernestina é cobra nesses assuntos. Foi minha caloura. Pegou muito livro emprestado comigo — e teve a gentileza de grifar, com marca-texto rosa-choque e verde-limão, meu Paulo Nader e meu Kelsen. Por pouco não coloriu meu Alexandre de Moraes. Por pouco mesmo: estava separado para ela. Mas, naquela semana, a professora pediu um artigo e sugeriu justamente o Alexandre — que ainda não era Xandão...

— Posso continuar?

— Desculpe. Eu sei que ninguém suporta quando deixo a memória falar. Mas estou, até hoje, com aqueles grifos entalados na garganta.

— Aí ela sentou na minha frente. Ajeitou a pasta na cadeira ao lado, cruzou as pernas e fez uma proposta.

— Cruzada de pernas seguida de uma proposta? Uau. Não sabia que a Ernestina andava ousada assim.

— Do que você está falando? Eu, hein. Ela me fez mesmo uma proposta indecente. Mas foi outro tipo de indecência.

Ajeitei os óculos, troquei os envelopes de mão. 

— Disse que mantém parceria com profissionais de áreas distintas — psicólogo, fisioterapeuta, médico. E faltava alguém da minha área. Falei que não posso indicar profissional aos usuários. Só acompanho quando o benefício é deferido ou indeferido, repasso a informação e digo para procurarem advogado. Nunca indico ninguém. Embora muitos me perguntem o que devem fazer, a quem procurar e tal.

— Também sou legalmente impedido de indicar profissionais.

— Foi sobre isso que ela quis conversar. Em resumo: queria que eu indicasse o escritório dela às pessoas com benefício indeferido. Em troca, pagaria comissão.

— A Ernestina Salomé... quem diria. Agora se explicam a mansão e os apartamentos que — dizem as candinhas — comprou para alugar. 

Ele encarou meus envelopes:

— Todo mundo dando seus pulos hoje em dia, né?

Deixei-o com suas conclusões. 

Fui despachar meus livrinhos.



Raphael Cerqueira Silva, é mineiro de São Geraldo, servidor público, graduado em Direito e História, e cronista nas revistas Vicejar e Conhece-te. Publicou Confissões, livro de contos, e A Vida Segue, livro de crônicas.