Guião | Pedro Silva

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Guião


Personagens: Alexandre Rodrigues (cirurgião pediátrico, 30 anos), Beatriz Ramos (cirurgiã, 27 anos), Bernardo Aguiar (advogado, 29 anos, marido da irmã de Beatriz Ramos, com a qual casou após esta ter saído de casa. Amigo de infância de Alexandre Rodrigues, é, por natureza, íntegro e idealista).


Cena 1ª

Num requintado restaurante da capital portuguesa, local bastante concorrido, duas personagens jantam, calmamente, numa mesa iluminada com duas velas, numa tentativa de dar um ar romântico.

Alexandre (em tom sorridente e confiante) – Vinho? Verde, presumo…

Beatriz (esboçando ligeiro sorriso, algo forçado) – Pode ser.

Alexandre (sem perder o tom) – Sabes, Beatriz…. (pausa) Lembras-te do dia em que nos conhecemos? (os seus olhos enfrentam os da jovem)

Beatriz (baixando a vista, desviando-a do confronto directo) Sim, éramos tão imberbes. (tom de voz mortiço)

Alexandre (jovial) – Imberbes, mas apaixonados. Tal como hoje, aliás! (as suas mãos tentam afagar as de Beatriz, que foge delicadamente, optando por beber um pouco de água) Ou estarei errado? (franze o sobrolho)

Beatriz – Éramos jovens, sem dúvida… (sem pausar demasiado, de forma a não permitir que Alexandre pudesse ripostar) Já escolheste a comida?

Alexandre (perdendo, ligeiramente, o ar confiante) – Sim, creio que sim, mas… (interrompido, sem demoras, por Beatriz)

Beatriz – E vais optar por carne ou peixe?

Alexandre (num tom de voz ligeiramente mais elevado) – Calma, ! Antes disso queria falar contigo sobre um assunto…

Beatriz (olhando, fixamente, Alexandre) – Que bom! Também tenho algo a dizer-te, mas prefiro que fales primeiro.

Alexandre (ligeiramente incomodado) – Ok! (levando a mão ao bolso, e mantendo-a lá durante o tempo em que fala) É assim: tu sabes que estou apaixonado por ti e que nada neste é mais importante, para mim, do que tu. (Beatriz mantém-se imperturbável, sem denotar o mínimo sentimento) Namoramos há oito anos… E acho que… (atrapalhando-se um pouco com as palavras, gaguejando ligeiramente) Xi… (risos) Curioso… há tantos anos que não gaguejava… (mais risos. Beatriz esboça ligeiro sorriso) Mas, como ia a dizer, queria brincar contigo.

Beatriz (fazendo uma expressão de notória indignação) – Brincar comigo?!

Alexandre (muitas gargalhadas) – Calma… Espera um pouco! Vamos brincar a um jogo muito engraçado.

Beatriz (completamente irada) – Alex, se queres utilizar em mim essas piadinhas infantis com que costumas brindar as enfermeiras, deixando-as apaixonadas por ti, escusas de perder o teu tempo. Não tenho idade para essas tuas brincadeirinhas… (fazendo o gesto de quem se vai levantar)

Alexandre (num impulso repentino, inclinando-se na direcção de Beatriz, impedindo-a de levantar, ao mesmo tempo que olha em todas as direcções, tentando aquilatar se alguém terá percebido este ligeiro mal-estar) – , é um jogo só nosso, entendes? Não estou a gozar contigo. Espera um pouco. (Beatriz volta a recompor-se, mas a sua cara denota ligeiro enfado) Olha, fazemos assim… (num repente, levanta-se e, imitando um mágico, retira algo detrás da orelha de Beatriz, algo que ele sempre tivera dentro do bolso do casaco) O que é isto? (pergunta, sorridente, mostrando um vistoso anel de diamantes) Para quem será? Se adivinhares, ganhas um prémio… (sorriso cativante, num misto de alegria e beleza natural)

Beatriz (ligeiramente convencida, pela brincadeira, pelo sorriso e pelo tom de voz de Alexandre) – Deve ser para mim, não?

Alexandre (risos calmos) – Correcto! E o prémio é… (pausa) Beatriz, queres casar comigo? (num instante todas as luzes que iluminam o espaço se desligam, ficando apenas a penumbra visível pela iluminação das velas. A face de Beatriz torna-se quase translúcida. Durante uns segundos, ambos os personagens mantêm-se silencioso, até que, de repente, a iluminação retorna e Beatriz irrompe num pranto)

Alexandre (visivelmente atrapalhado) – Que se passa, ? (a jovem não consegue pronunciar uma só palavra, alagada em lágrimas e soluços involuntários) És capaz de me explicar se são lágrimas de alegria ou de tristeza?

Beatriz (recomponde-se um pouco, mas falando ainda aos solavancos) – Como és capaz, Alex? Como tem sido capaz?

Alexandre (perdendo todo o tom jovial do início da cena) – O que estás para aí a dizer? Que se passa? (o tom de voz aumente vincadamente à medida que a frase vai saindo)

Beatriz (remexendo na mala de mão, durante alguns segundos, no final dos quais surge com alguns papéis, ligeiramente amarrotados na mão) – Tenho aqui as provas, Alex, felizmente não as destruí! (o ar surpreendido de Alexandre é notório e total) Todas estas cartas são o suficiente para eu nunca mais olhar para a tua cara, sabes?

Alexandre (olhando, à vez, para as mãos e olhos de Beatriz, num gesto nervoso de impotência e desespero. O empregado do restaurante, entretanto, chega junto deles e Alexandre afasta-o com um vigoroso aceno de mão) – Mas o que é essa treta que tens aí nas mãos? Que cartas são essas, afinal?

Beatriz (enquanto uma última lágrima rola pelas faces) – São cartas da tua amante, com quem manténs um relacionamento secreto há algum tempo, sabes? A princípio, não acreditei e, assim que as recebia, logo as amarrotava e atirava para o lado, mas ao fim de algum tempo comecei a perceber que eram provas demais e cartas demais para ser brincadeira. E agora, Alex, este pedido de casamento, logo após a morte do meu pai, e com a leitura do seu testamento cheguei à conclusão… (novo pranto, desta feita quase incontrolável)

Alexandre (embasbacado) – Cartas? Amante? Relacionamento secreto? (ligeiro esgar de sorriso) Até parece mesmo uma piada, quase que dá vontade de rir disso tudo… Afinal de contas, isso são cartas da minha suposta amante?

Beatriz (sem parar de chorar, entrega o molho de cartas a Alexandre. Este pega numa e começa a ler para si mesmo) Isto é mesmo uma infâmia, e das grandes… (abana a cabeça compulsivamente e lê um excerto) Este nosso caso mantém-se há alguns meses e acredite que ele me ama. Apenas esperou o momento certo, que o seu pai falecesse, para poder casar consigo e tomar posse de parte da herança que lhe compete, divorciando-se depois e casando comigo. (termina a leitura e, num tom desesperado, afirma) Como podes acreditar em semelhante parvoíce? Isto é pura ficção… Mas de muito mau gosto, para ser sincero.

Beatriz (entre soluços) – Ficção? Ficção? (grita) Porque escolheste então esta altura para me pedir em casamento? Será porque o testamento do meu pai te deixou vinte e cinco por cento da sua fortuna caso casasses comigo? Será por isso?

Alexandre (visivelmente transtornado) – Tu és capaz de acreditar que eu faria semelhante coisa? Achas mesmo que me desconheces a esse ponto? (gotas de suor inundam a sua testa) Esta pessoa quer, com toda a certeza, arruinar a minha vida e está a conseguir. (tentando, calmamente, demonstrar algo a Beatriz) Como é que eu ia adivinhar que o teu pai me iria deixar isso no testamento? Se eu mantenho tal relação secreta há alguns meses, como ela diz, e se a amo tanto, porque razão iria perder tanto tempo contigo?

Beatriz (de novo, mais calma) – Em primeiro lugar, esse amor que sentes por ela é um sentimento incontrolável. (Alexandre ri-se) Depois, precisavas de cair nas boas graças do meu pai para conseguires subir na hierarquia do hospital, ou não? (Alexandre sorri e abana a cabeça, num tom desolado) Secalhar o meu pai até já te tinha dito que iria deixar-te algo como herança, enfim, sei lá… A verdade é que a amas e isso significa que não me amas, portanto… (pausa para respirar) Podes ficar com ela e esquecer-me, mas esquece-me de vez, sabes?

Alexandre (bastante triste) – Não acredito que possas acreditar mais em alguém que te envia cartas anónimas, do que em mim, com que namoras há oito anos. Lembras-te? Oito anos… São demasiados anos para se poder enganar alguém tão bem, mas… (pausa para olhar Beatriz directamente nos olhos) Mas acredita que nada farei para alterar o rumo dos acontecimentos, até porque se não tens total confiança em mim – e o acreditares em cartas anónimas comprova isso mesmo – o melhor mesmo será não nos casarmos.

Beatriz (estupefacta) – Ainda por cima me dás razão? Eu parece que nem acredito nisto… O que se está a passar na minha vida? (irrompe, de novo, em lágrimas. Alexandre baixa a cabeça, apoiando-a nos braços, com os cotovelos na mesa. Toca o telemóvel de Alexandre. A princípio nem lhe dá grande atenção, mas o insistente toque obriga-o a procurar o pequeno aparelho. Encontra-o e olha o visor)

Alexandre – É do hospital… Vou atender, só um momento, por favor. (recebe a chamada. Nada diz. O seu rosto fica lívido. Desliga o telemóvel) Nem imaginas… Houve uma catástrofe no centro de Lisboa, nem entendi bem onde, mas o certo é que já se contam pelas dezenas as vítimas mortais deste incêndio. Tenho de ir, perdoa-me.

Beatriz (limpando as lágrimas) – Temos de ir, correcção. A nossa conversinha fica para depois.

(Alexandre tira do bolso uma nota de cem euros, a qual deixa na mesa. Os únicos gastos do casal foram uma garrafa de água. Saem os dois apressados, mas ao contrário da forma como haviam entrado, de mão dado, agora deslocam-se afastados)


Cena 2ª

(No Hospital, na zona de urgências, apinhada de doentes, médicos e enfermeiros. A confusão é, aparentemente, geral, apesar dos profissionais de saúde conseguirem entender-se bastante bem. Alexandre e Beatriz surgem em cena, irrompendo pelo corredor e inteirando-se do ponto de situação. Alexandre olha cuidadosamente para a folha de serviço, enquanto Beatriz se dirige a uma doente, de cerca de vinte anos, grávida e possuindo queimaduras graves, de tal forma que o rosto se encontrar visivelmente transfigurado.)

Beatriz (dirigindo-se ao colega cirurgião) – Mais de sessenta por cento do corpo está afectado… (a maca continua em movimento, em direcção ao local onde a equipa médica irá tentar salvar aquela jovem inanimada) Aqui nesta e nesta zona os ossos foram visivelmente afectados. (indica, com o dedo, as regiões do corpo) O que acha, doutor?

Médico Cirurgião (coçando a barba) – Bem, para ser sincero, doutora Beatriz… (abana a cabeça, em tom de notória impotência perante a impossibilidade de salvar a vida da jovem) A queimadura atingiu, noutros locais, os nervos, que estão destruídos.

Beatriz (decidida) – Então, temos de salvar a vida da criança. Vamos!

Médico Cirurgião (tentando travar o ímpeto da jovem) – Mas, doutora Beatriz, de certeza que quer assumir esse risco completamente sozinha? Sabe que, se algo correr mal, a família da doente poderá culpá-la?

Beatriz – Sabe, doutor, quando vim para esta profissão, fiz um pacto com Deus: seguir sempre a minha consciência, e que ela fosse sempre na direcção da vida humana. É exactamente isso que farei sempre! (o médico cirurgião sorri, confiante nas capacidades da sua jovem colega. A doente e os médicos entram para a sala de operações)


Cena 3ª

(Especado no meio do corredor, boquiaberto, Alexandre vislumbra, a correr na sua direcção, uma face conhecida, que se lhe dirige.)

Bernardo (ofegante) – Alexandre, há quanto tempo!

Alexandre (surpreso) – De facto… Cinco anos é imenso tempo. Vens à procura dela?

Bernardo (a tentar controlar a respiração) – Sim… sabe se o estado dela é considerado grave? Eu não estava em casa… (nos seus olhos começa a criar-se uma vermelhidão latente, que em breve se tornará em lágrimas a rolar) Como podia adivinhar? Como, diz-me… (abraça-se a Alexandre, procurando conforto)

Alexandre (permitindo o avanço afectivo) – Nada sei ainda… Só agora é que cheguei e, qual não foi o meu espanto, quando li o nome dela na lista de pacientes. Nem sei tão pouco quem a está a tratar.

Bernardo (recompondo-se) – E sabes que mais? (o seu tom torna-se ainda mais grave)

Alexandre (sem deixar transparecer alguma ansiedade interior) – Diz…

Bernardo (com os olhos esbugalhados) – Ela está grávida… De oito meses. Oito! Eu não a posso perder, nem à criança. (começa a gritar) Por favor, salva-a, eu preciso dela e do meu filho. Por favor…

Alexandre (tentando acalmá-lo) – Ela está em boas mãos, não te preocupes. É muito raro um caso de queimadura ser tão grave e ter as consequências que pensas… (o jovem médico tenta fazer valer a sua capacidade oratória e o seu tom sempre confiante, mas Bernardo conhece-o demasiado bem)

Bernardo (incrédulo) – Deixa-te de tretas de médico, por favor. Conhecemo-nos há tantos anos, por isso, pelo menos desta vez na vida, sê sincero comigo.

Alexandre (franzindo o sobrolho) – É assim: para ser realmente sincero, eu não sei como ela está nem com quem está, entendes? Mas acredito que nada de mal irá acontecer.

Bernardo (controlando-se, mantém a cabeça firme e afirma) – Tenho algo muito importante a contar-te. Lamento imenso que só agora venha dizer-te, mas soube recentemente. Peço-te, antecipadamente, mil desculpas. (Alexandre olha-o surpreso)


Cena 4ª

(Na sala de operações, os dois cirurgiões – Beatriz e o seu colega – embrenham-se na difícil tarefa de salvar a vida daquela criança. Pela transparência de um vidro, observa-se todos os acontecimentos. A azáfama própria de uma actividade que lida com vidas humanas, o profissionalismo empregue. Beatriz demonstra todas as suas capacidades. A dada altura, Alexandre irrompe pela sala, pronto a ajudar)

Beatriz (atarefada, mas denotando algum descanso na fala, pelo facto de vislumbrar Alexandre) – Já não era sem tempo… Esta jovem não resistiu às queimaduras, mas felizmente conseguimos salvar a criança. Agora compete-te tomar contar do resto. (porém, a jovem cirurgiã mantém o seu afã, próprio de quem se considera uma perfeccionista)

Alexandre (iniciando a sua tarefa) – Sabes, … (a tristeza era uma certeza denunciada pelos seus olhos – única parte da face visível)

Beatriz (pressentindo algo de muito negativo, apenas pelo sentir do tom de voz e pela expressão do olhar de Alexandre) – Conta-me por favor… (de súbito, a sua expressão altera-se) Não me digas que escolheste este momento para confessar as tuas infidelidades? (o restante pessoal que se encontra na sala pára, por instantes, ao som desta última palavra. De seguida, voltam a si mesmos, e prosseguem o seu labor)

Alexandre (ligeiramente irado) – , não acredito… Continuas com essa conversa. (afrouxando o tom de voz) Sabes quem é essa jovem, recém-falecida?

Beatriz (pouco interessada na conversa) – Não. Nem tive tempo ainda de consultar a listagem. (voltando-lhe as costas) Mais uma infeliz da vida, porventura… (o colega cirurgião de Beatriz abandona a sala)

Alexandre (com a voz embargada) – Ahn, bem, a verdade é que essa jovem é a tua irmã.

Beatriz (dá um salto e um grito estridente) – A minha irmã? (num instante corre em direcção ao corpo sem vida e deformado que jaz naquele lugar) Não pode ser, não pode ser… a sério. (olha o cadáver fixamente) Mas, estes olhos… Estes olhos. (começa a chorar) É ela mesmo, é a minha irmã… Não posso acreditar (ajoelha-se junto do corpo e, ao mesmo tempo que dá ligeiros toques na própria cabeça, vai abanando-a, em tom de desespero)

Alexandre (finalizando a tarefa de colocar a criança a salvo) – Não te martirizes, … Tinha de ser, todos sabemos que tinha de ser.

Beatriz (chorando e desesperando) – Será mesmo que tinha de ser? Será que fiz tudo aquilo que estava ao meu alcance? (uma enfermeira tenta ajudá-la a levantar-se, mas Beatriz permanece ajoelhada em frente do corpo da irmã) 

Alexandre (vira-se para Beatriz, com a criança nos braços) – Está aqui a verdadeira razão de teres vindo para esta profissão: para salvares vidas humanas, compreendes? Esta criança, sangue do teu sangue, foi salva à custa do teu talento e profissionalismo. Fica feliz por isso… (Beatriz vira a cabeça na direcção da criança e, num repente, levanta-se e dirige-se até Alexandre)

Beatriz (ligeiramente mais calma e num tom de voz notoriamente menos elevado) – Tão bonitinhos, não achas? Tão fofinho! (faz-lhe festinhas na face. De súbito, vira o olhar na direcção do corpo inanimado) Mas eu deveria ter salvo os dois… Era isso que deveria ter feito, sabes?

Alexandre (com a voz mais límpida, e discursando num tom em crescendo de confiança) – Tu fizeste aquilo que deverias ter feito. Se não fosses tu, quiçá esta criança estaria entregue ao mesmo destino da mãe. (entrega o bebé aos cuidados de uma enfermeira, e coloca o braço sobre o ombro de Beatriz) Anda lá fora, quero que fales com uma pessoa.

Beatriz (soluçando) – Com quem?

Alexandre (sempre mais confiante) – Anda comigo, por favor.

(Deslocam-se ambos em direcção ao corredor. A marcha é lenta e acompanha pelos olhares atónitos de respectivos colegas funcionários do hospital, perante a visão, única, da jovem doutora Beatriz num pranto semi-controlado. Então, a face da jovem descobre uma cara conhecida)

Beatriz (voltando-se para Alexandre) – Que se passa aqui? Por que me trazes em direcção àquela pessoa?

Alexandre (parando a caminhada) – Ele tem algo a contar-te, escuta-o com atenção, peço-te. (a jovem esquecera-se, completamente, do atrito existente entre ambos breves horas antes. Um problema maior sobrepusera-se a tudo o resto. Caminham em direcção àquela personagem que, em tom enfraquecido, se dirige a eles)

Bernardo (falando para Alexandre) – Já sabes alguma coisa dela? E da criança? (agarra-se à farda do jovem cirurgião) Diz-me, diz-me… (vira-se para Beatriz) Porque choras?

Alexandre (agarrando nas mãos de Bernardo, soltando-se de Beatriz) – A criança está bem, bastante bem, até…

Bernardo (abraçando-se a Alexandre, em tom de agradecimento) – Ainda bem, obrigado Alexandre, posso vê-lo?

Alexandre (continuando) – Mas quanto à mãe, bem… (Bernardo solta-o num repente e fica quedo e mudo) Ele não resistiu aos ferimentos. (o jovem cirurgião baixa a cabeça, em tom de respeito e resignação)

Beatriz (irrompendo em novo pranto e dirigindo-se a Bernardo) – Fui eu que optei pela vida da criança… (pausa) Eu poderia ter feito mais…

Bernardo (estranhamente calmo) – Fizeste tudo o que estava ao teu alcance. Tenho a certeza disso. És uma óptima profissional, sempre foste…

Beatriz (num tom afável) – Obrigado, as coisas não deveriam ter sido assim… (abraça-o, perante o olhar feliz de Alexandre) Porque é que ela teve de fugir de casa, explica-me… Não havia necessidade, sabes?

Bernardo (falando em tom moderado) – Ela sempre teve inveja do facto de o teu pai ter-te sempre preferido. Quando tu acabaste o curso e ela continuava a optar claramente pela pintura, o teu pai sempre a criticou, servindo-se do teu nome para a rebaixar ainda mais… (pausa para engolir) E ela preferiu sair de casa e enfrentar o mundo sozinha, mas…

Alexandre (intrometendo-se na conversa) – Bernardo, espero que aproveites o momento para revelar esse segredo.

Beatriz (já moderadamente controlada em termos emocionais) – Que segredo?

Bernardo (num tom grave) – Quando o teu pai faleceu, a tua irmã foi chamada ao vosso advogado. Lá, ela soube que ficaria apenas com cinco por centro da herança, enquanto que a restante fatia ficaria para ti e para o Alexandre. (olhando para Beatriz fixamente)

Beatriz (num tom de surpresa) – Tu não me digas que…

Bernardo (com uma lágrima no canto do olho) – Digo, digo… Foi ela que te enviou essas cartas, essas estúpidas cartas… A inveja cegou-lhe o pensamento e as acções… (mudando de assunto) Posso ir ver o meu filho?

Alexandre (anuindo) – Segues esse corredor e viras à direita. (Bernardo afasta-se, pesaroso. Beatriz olha para Alexandre, de forma bastante frontal. Na sua face as lágrimas deixaram de rola e o corpo de soluçar. Está firme e o seu feitio decidido volta a afluir.)

Beatriz (dirigindo-se para Alexandre) – Em resposta ao teu joguinho… (sorriso) Sim, aceito ser a senhora Beatriz Rodrigues.

(A cena conclui-se com um afectuoso beijo entre ambos.)





Pedro Silva (1977) possui obras publicadas em vários países, nomeadamente Portugal, Brasil, Espanha e Chile. Para além disso, colaborou com órgãos da imprensa escrita em Portugal e Brasil. Licenciado em História e Pós-Graduado em Estudos Portugueses Multidisciplinares, é ainda Cidadão Honorário da Cidade Velha (Cabo Verde), Medalha Municipal de Mérito – Grau Ouro (Tomar – Portugal), Patrono da Biblioteca Municipal Pedro Silva, sita em São Martinho Grande (Ribeira Grande de Santiago – Cabo Verde) e Medalha de Mérito do Jornal “Audiência”.