por Carlos Monteiro |
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| Fotografias de Carlos Monteiro |
Meia década; que mundo queremos?
Daqui
a cinquenta anos, talvez Copacabana exista apenas na memória úmida das
fotografias antigas. Não desaparecida por completo — cidades raramente somem de
uma vez —, mas transformada em outra coisa, uma espécie de Atlântida tropical
onde o mar terá decidido recuperar o que sempre foi seu.
Imagino
um velho calçadão submerso, as ondas quebrando onde antes turistas disputavam
espaço para toalhas e vendedores de mate anunciavam, quase cantando, sua
mercadoria gelada sob o sol de janeiro. O desenho de Burle Marx ainda estará
lá, invisível sob a água salgada, como uma tatuagem afogada na pele da cidade.
O
Rio de Janeiro, daqui a meio século, talvez seja uma cidade anfíbia. Não por
modernidade futurista dessas inventadas em filmes de ficção científica, mas por
necessidade. O mar, cansado de respeitar limites urbanos, avançará lentamente
sobre a areia, depois sobre a avenida, depois sobre os pilotis dos edifícios
que hoje parecem eternos.
Em
Ipanema, os apartamentos de frente para o mar deixarão de ser símbolo de status
para virar relíquias melancólicas de um tempo arrogante em que se acreditava
que o concreto venceria a natureza. Alguns prédios estarão vazios, abandonados
como navios encalhados. Outros terão muros transparentes, bombas hidráulicas,
comportas modernas tentando conter o inevitável. Mas o oceano é paciente. Ele
trabalha em silêncio e pensa em séculos.
O
Leblon talvez resista um pouco mais, agarrado à falsa segurança dos bairros
ricos, como se dinheiro pudesse negociar com a maré. Não poderá.
As
ressacas serão mais violentas. O verão, mais longo e cruel. As árvores antigas
da orla terão desaparecido uma a uma, vencidas pelo sal e pelo calor excessivo.
E ainda assim, como sempre fez, o carioca tentará adaptar beleza ao desastre.
Haverá bares flutuantes. Ciclovias elevadas. Gente correndo sobre passarelas
suspensas enquanto drones registram pores do sol alaranjados demais para serem
naturais.
O
Rio possui essa estranha capacidade de transformar tragédia em paisagem.
Mas
talvez o mais impressionante seja perceber que os avisos já existem hoje,
discretos, diante dos nossos olhos distraídos. Estão nas marés cada vez mais
altas, nas enchentes repentinas, no calor que parece incendiar o asfalto antes
mesmo do meio-dia. A cidade já ensaia seu futuro sem que a maioria perceba.
Daqui
a cinquenta anos, crianças ouvirão histórias sobre como as pessoas jogavam
futebol na areia de Copacabana como quem escuta lendas improváveis. Velhos
mostrarão fotografias desbotadas de domingos ensolarados no Posto 9, enquanto
netos perguntarão, incrédulos, se realmente existia tanta faixa de areia assim.
Talvez
existam museus dedicados ao “Rio Submerso” aos “Escafandristas”. Salas
climatizadas exibirão cadeiras de praia, pranchas antigas, quiosques
reconstruídos artificialmente, como arqueologia de um paraíso perdido. E algum
cronista do futuro escreverá, com melancolia inevitável, que houve um tempo em
que o mar era apenas paisagem — não ameaça.
Ainda
assim, suspeito que o Rio sobreviverá.
Porque
cidades não vivem apenas de geografia. Vivem de memória, linguagem, música,
obsessões coletivas. O espírito carioca talvez migre para bairros mais altos,
talvez reinventem praias artificiais na Zona Norte, talvez a vida encontre
outro equilíbrio improvável entre morros e água. O carioca continuará
procurando sombra, cerveja gelada e alguma beleza possível mesmo diante da
catástrofe.
Há
algo de profundamente humano nisso: a insistência em continuar.
No
fim, talvez o futuro do Rio seja justamente este — uma cidade aprendendo, tarde
demais, que a natureza não faz acordos permanentes. O mar nunca pertenceu às
fotografias dos cartões-postais. Nós é que, por algumas décadas, tivemos a
ilusão de morar perto dele sem dever nada em troca.
E
o oceano, como os fantasmas antigos, sempre encontra um jeito de voltar.
Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade


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